Caso grave em BH expõe os riscos do uso ilegal de medicamentos para emagrecimento

Caso de mulher que teria usado produto irregular vindo do Paraguai expõe o perigo das versões não oficiais do Mounjaro usadas para emagrecer

BATANEWS/REDAçãO


PERIGO NA ESQUINA - Versões falsificadas e manipuladas de tirzepatida e semaglutida: brasileiros expostos a fórmulas sem validação e controle de qualidade (iStock/Getty Images)

Uma mulher de 42 anos está internada em estado gravíssimo em Belo Horizonte após utilizar tirzepatida injetável adquirida de forma irregular — possivelmente vinda do Paraguai, segundo familiares. Ela apresentou fortes dores abdominais e, em poucas horas, evoluiu para complicações neurológicas, paralisia muscular e insuficiência respiratória, sendo encaminhada à UTI.

O caso, que ganhou repercussão nacional, não é isolado. Ele reflete uma prática cada vez mais comum e extremamente perigosa: o uso de medicamentos antiobesidade sem prescrição médica, manipulados fora dos padrões técnicos ou importados de maneira ilegal.

A tirzepatida é um medicamento injetável aprovado para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Estudos recentes, inclusive, apontaram redução no risco de infarto e derrame cerebral em pessoas com diabetes. No entanto, o forte apelo na perda de peso tem levado muitas pessoas a buscar resultados “a qualquer custo”, abrindo espaço para clínicas e vendedores informais que oferecem o produto como solução “milagrosa”, frequentemente de forma manipulada ou contrabandeada, sem qualquer controle sanitário.

Esse cenário cria uma combinação explosiva no Brasil. Medicamentos como a tirzepatida, apesar de possuírem patente, podem ser manipulados apenas em situações extremamente específicas e excepcionais, conforme as normas vigentes — ou seja, a exceção da exceção. Os estudos clínicos não avaliaram doses alternativas, tampouco versões manipuladas, que não foram testadas em pesquisas de grande escala.

Por se tratar de um medicamento injetável, os cuidados exigidos são rigorosos: pureza, dosagem, procedência da matéria-prima e condições de preparo precisam ser altamente controlados. Ainda assim, o que se observa na prática é o oposto do que prevê a legislação: farmácias de manipulação produzindo e divulgando tirzepatida em larga escala, o que descaracteriza completamente a proposta original desses estabelecimentos.

Além disso, a importação irregular, especialmente do Paraguai, ocorre fora do controle da vigilância sanitária brasileira. Não há garantia sobre transporte, armazenamento, conservação ou sequer sobre a autenticidade do produto.

A automedicação agrava ainda mais os riscos. Sem avaliação médica, não se identificam contraindicações, não se utiliza a dose correta, não se realizam exames prévios, não há acompanhamento clínico nem monitoramento de efeitos adversos.

Como profissional de saúde, e diante de tudo o que foi exposto, sou absolutamente contra o uso da tirzepatida fora da via médica e legal — seja na forma manipulada ou importada irregularmente. Independentemente da legislação, considero que a venda de tirzepatida, semaglutida ou liraglutida em consultórios e clínicas fere princípios essenciais, como a independência e a ética médica.

No debate sobre emagrecimento e tratamento da obesidade, não existem atalhos mágicos. Medicamentos potentes como a tirzepatida exigem prescrição, acompanhamento e responsabilidade. O uso de “alternativas” sem critério pode custar a saúde — e até a vida.

*Carlos Eduardo Barra Couri é endocrinologista, pesquisador da USP de Ribeirão Preto e coordenador científico do Endodebate.