O que realmente significa 'vínculo traumático'

BATANEWS/FOLHA


Erik Carter - 28.mai.25/NYT

Quando criança, Lilli Correll amava e temia a própria mãe ao mesmo tempo. Nos bons momentos, sentia-se especial, a mãe a chamava carinhosamente de Monkey, e as duas riam juntas. 'Eu era a filha favorita dela', conta Correll, hoje com 55 anos, moradora de Austin, no Texas.

Mas havia também os momentos em que a mãe, diagnosticada com transtorno bipolar, tornava-se subitamente violenta. Em uma ocasião, segundo Correll, ela foi jogada contra a parede e ameaçada de morte.

Apesar dos abusos, Correll se via atraída para perto da mãe, apenas para ser rejeitada repetidas vezes. Essa dinâmica se repetiria anos depois no seu casamento, também marcado por violência emocional.

Só quando chegou aos 40 anos, com o auxílio de terapia, ela descobriu que havia formado um vínculo traumático com seus abusadores.

Nos últimos tempos, a expressão 'vínculo traumático' —ou trauma bond, em inglês— ganhou popularidade nas redes sociais com um significado diferente: o laço que se cria ao compartilhar experiências difíceis com outra pessoa. No TikTok, proliferam vídeos sobre 'melhores amigas unidas pelo trauma' ou 'criar vínculos traumáticos em vez de ir à terapia'. Mas, como termo psicológico, a expressão tem outro sentido: descreve o forte apego emocional que uma vítima desenvolve pelo próprio abusador.

Especialistas em trauma alertam que o uso indiscriminado da expressão pode 'diminuir as experiências reais de sobreviventes', como explica Megan Cutter, diretora de atendimento a vítimas da RAINN (sigla em inglês para Rede Nacional de Estupro, Abuso e Incesto).

Não há uma definição formal, mas profissionais que trabalham com violência doméstica e sexual costumam usar 'vínculo traumático' para descrever o apego que uma vítima desenvolve pelo abusador —um laço que a torna incapaz de romper a relação.

As primeiras referências ao conceito aparecem em um artigo de 1981 sobre 'vínculos traumáticos' em vítimas de abuso e no livro 'The Betrayal Bond' (1997), do terapeuta Patrick J. Carnes, especialista em compulsão sexual e trauma.

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'Ciclos de abuso seguidos de gentileza' consolidam esses vínculos, explica Pierluigi Mancini, presidente interino da organização Mental Health America. Especialistas chamam esses ciclos de 'reforço intermitente'. Mesmo após sofrer abusos, a vítima permanece atraída pela relação, na expectativa de que o abusador volte a demonstrar amor ou empatia.

A reconciliação costuma provocar a liberação de dopamina e ocitocina —neurotransmissores associados ao prazer e ao vínculo social—, diz Mancini, que trabalhou por 20 anos com vítimas de trauma em Atlanta. Esses momentos positivos têm um efeito 'paralisante' sobre a vítima, impedindo-a de sair da relação.

Permanecer em uma relação abusiva é um dos principais indicadores. Se a vítima continua voltando para o abusador ou sente que não consegue ir embora, isso revela que ela busca instintivamente segurança justamente na pessoa que a machuca.

Racionalizar o abuso é outro sinal frequente. Muitas vítimas acabam dando o benefício da dúvida ao agressor, explica Janina Fisher, psicóloga clínica especializada em trauma. Frases como 'não é do feitio dele, mas ele perde o controle —e fica tão arrependido depois' ou 'fui eu que provoquei' são exemplos comuns.

O isolamento social também é um sinal de alerta. A vítima tende a se afastar progressivamente de amigos e familiares, muitas vezes pressionada a dedicar todo o seu tempo ao abusador. Fisher ressalta a diferença entre 'não posso mais ver minha família' e 'vejo menos minha família porque meu relacionamento é importante para mim'.

Por fim, o medo do abandono: mesmo desejando deixar a relação abusiva, a perspectiva de viver sem o abusador pode parecer insuportável. 'Eu não consigo sobreviver sem essa pessoa' —essa é a sensação que domina a vítima, segundo Fisher.

Ao acompanhar uma vítima em situação de abuso, a prioridade é garantir sua segurança física e emocional, orienta Mancini. A terapia com profissionais especializados em trauma e transtorno de estresse pós-traumático pode ajudar a vítima a reconectar-se com relações saudáveis, aprender técnicas de regulação do sistema nervoso e identificar padrões de abuso. O processo terapêutico também ajuda a vítima a lidar com o sentimento de vergonha que frequentemente acompanha situações de violência.

Nem todo mundo, porém, está pronto para buscar terapia. Algumas pessoas preferem ligar ou enviar mensagens para linhas de apoio como a do Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou o CVV (Centro de Valorização da Vida), onde o anonimato é garantido. Essas centrais podem conectar as pessoas a serviços de saúde mental, abrigos e orientação jurídica, além de ajudá-las a traçar um plano de segurança.

Sair de uma relação abusiva pode ser perigoso e exige planejamento cuidadoso a cada etapa.

'Às vezes a pessoa ainda não está pronta para ir embora, ou não tem certeza — e nós respeitamos onde ela está', diz Cutter, da RAINN. Para muitas, é a primeira vez que entendem por que ficaram na relação.

'O motivo pelo qual você não consegue ir embora é uma dinâmica psicológica complexa com a pessoa que está te machucando', explica. 'E você não é a primeira pessoa a passar por isso. Você não está sozinha.'