Mobilização indígena em Brasília cobra Lula, critica Congresso e expõe impasse nas demarcações

Com milhares de indígenas na capital, Acampamento Terra Livre reúne denúncias sobre lentidão do governo, conflitos nos territórios e críticas ao Legislativo

BATANEWS/CARTACAPITAL


O Acampamento Terra Livre espera receber até 7 mil indígenas em 2026. Foto: Vinícius Nunes/CartaCapital

Brasília voltou a se tornar o principal palco da mobilização indígena no País nestas primeiras semanas de abril. A 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) reúne milhares de indígenas de diferentes povos e regiões com a pauta de pressionar o poder público por avanços concretos na demarcação de terras e na garantia de direitos constitucionais. O tom dos discursos evidencia frustração com o ritmo do governo Lula (PT) e críticas duras ao Congresso Nacional, classificado por manifestantes como “inimigo dos povos'.

Considerado o maior encontro indígena do Brasil, o ATL ocorre ao longo dos próximos dias em Brasília e reúne representantes de cerca de 200 povos. A mobilização combina marchas, debates e articulações políticas, em um momento marcado tanto pela expectativa de diálogo com o governo federal quanto pela cobrança por respostas mais rápidas. 

Entre os participantes, a avaliação sobre o governo Lula mistura reconhecimento de avanços e críticas à lentidão. A principal cobrança gira em torno da demarcação de terras, apontada como insuficiente diante da demanda acumulada.

“Hoje em dia a gente só tem promessa, promessa e nada resolvido', afirmou Yaka, liderança do território do sul do Amazonas. Para ela, a presença em Brasília não é simbólica, mas parte de uma pressão direta por resultados: “A gente tá aqui não por passeio, mas sim pelo nosso direito'.

A expectativa em relação ao presidente também aparece condicionada. “ Se ele estiver com a gente, a gente também tá com ele. Agora, se não estiver, a gente não vai abaixar a cabeça', disse.

O ATL 2026 vai até a próxima sexta-feira 10. Foto: Vinícius Nunes/CartaCapital

A percepção de que houve avanços, mas ainda distantes do necessário, é compartilhada por outras lideranças. “O governo Lula avançou muito, mas falta muito para ser feito', afirmou Paulo Krikati, do grupo Timbira, que habita o sudoeste do Maranhão. Segundo ele, o principal desafio segue sendo garantir processos de demarcação em andamento avancem até a regularização completa.

Essa avaliação também aparece entre indígenas do Xingu. Owy Kayabi Ikpeng destacou que ainda há territórios sem reconhecimento e denunciou problemas concretos, como invasões e exploração irregular dentro de áreas indígenas. “Falta muita demarcação ainda. Eu espero que demarquem o nosso território', afirmou.

As falas no acampamento mostram que a pauta vai além da demarcação formal e inclui segurança territorial, acesso a políticas públicas e proteção contra atividades consideradas ilegais.

No Xingu, por exemplo, lideranças denunciam a presença de invasores e a prática de pesca esportiva dentro de territórios indígenas. Já no sul da Bahia, indígenas relatam conflitos fundiários e processos judiciais contra lideranças.

Juan Pataxó, do extremo sul baiano, afirma que a situação envolve escalada de tensões. Segundo ele, há comunidades com demarcações travadas e lideranças sob investigação ou medidas judiciais. “Lutar pelo território não é crime', disse.

Juan Pataxó, de 25 anos. Foto: Vinícius Nunes/CartaCapital

As críticas também atingem a burocracia estatal. Lideranças apontam demora em portarias, dificuldades de tramitação e falta de estrutura de órgãos responsáveis como entraves para avançar nas demarcações.

Além da terra, aparecem reivindicações por direitos básicos já previstos na Constituição. “A gente está aqui para pedir o que já é garantido: saúde, educação, segurança', afirmou Breno Tupinambá. “O mínimo.'

Se o governo federal recebe cobranças, o Congresso Nacional aparece é alvo de críticas ainda mais contundentes. Durante o acampamento, cartazes e discursos reforçam o mote de que o Legislativo atua contra os interesses indígenas.

Para Paulo Krikati, a insatisfação está ligada à produção de leis e decisões que não dialogam com a realidade dos povos originários. “Tem uns que são contra nós, os povos indígenas. A gente faz esse movimento para que eles respeitem o nosso direito', afirmou.

O Legislativo foi o principal alvo de críticas e cartazes na marcha do ATL 2026. Foto: Vinícius Nunes/CartaCapital

Juan Pataxó relaciona a crítica ao que considera falta de avanço nas pautas indígenas dentro do Congresso e à dificuldade de tramitação de medidas favoráveis. Segundo ele, decisões tomadas em Brasília frequentemente não refletem as necessidades dos territórios.

“O Congresso vai contra porque muitas decisões não atingem a realidade das bases', disse.

O sentimento também é de enfrentamento permanente, independentemente de quem esteja no poder. “A gente vai estar sempre lutando, independentemente de partidos', afirmou Ana Sateré Mawé. “Se tiver briga no Congresso, a gente vem.'

Com marchas previstas até a Praça dos Três Poderes, o ATL se consolida como espaço de pressão direta sobre Executivo, Legislativo e Judiciário. As lideranças deixam claro que a mobilização é parte de uma estratégia contínua.

Além das pautas imediatas, o contexto eleitoral também aparece como pano de fundo. Indígenas esperam que o tema ganhe centralidade nas eleições e cobram compromissos concretos de candidatos.

Objetos foram carbonizados em frente ao Congresso Nacional. Foto: Vinícius Nunes/CartaCapital

A expectativa agora gira em torno de possíveis anúncios do governo e do avanço de processos travados. Lideranças também aguardam reuniões com representantes do Executivo ao longo desta semana.

Ao mesmo tempo, o movimento reforça a autonomia em relação ao governo. “Independente de quem ocupar o cargo, a gente vai estar cobrando juntos', disse Ana Sateré Mawé.