Emoções reprimidas causam câncer? A ciência responde

Oncologista comenta pesquisa que investigou dados de quase meio milhão de pessoas

BATANEWS/REDAçãO


Sofrimento psicológico: trabalho apurou se ele poderia aumentar o risco de câncer (Pixabay/Reprodução)

Ainda é muito comum a ideia de que emoções reprimidas, luto e o sofrimento no geral podem causar câncer. Mas esse mito enraizado não encontra respaldo científico.

Além de incorreta, a crença pode gerar culpa desnecessária no paciente. O câncer é uma doença complexa em que há uma estimativa de que de 90 a 95% dos casos sejam mutações que ocorram ao longo da vida provocadas por fatores ambientais e do estilo de vida, além de um componente genético.

Mas incluir estresse e emoção reprimida como causas maiores acabam por culpar o paciente pela sua própria doença. O que não é verdade.

Agora, uma nova pesquisa indica que fatores psicossociais, que influenciam a forma como uma pessoa percebe, interpreta e reage ao ambiente ao seu redor, não afetam o risco de um indivíduo desenvolver câncer.

Não há como jogar uma carga extra nas costas de pacientes que já enfrentam as dificuldades do tratamento oncológico.

Para o estudo, os fatores psicossociais considerados foram: suporte social percebido, luto, estado civil, neuroticismo (um dos principais traços de personalidade que se refere à tendência de uma pessoa para sentir emoções negativas, como a ansiedade, a tristeza, a irritabilidade e a preocupação) e sofrimento psicológico geral.

Anteriormente, os autores publicaram um estudo mostrando que a depressão e ansiedade não estão relacionadas a um risco aumentado para a maioria dos tipos de câncer.

Neste trabalho, analisaram dados de 421.799 indivíduos que tiveram fatores psicossociais medidos. E nenhum fator foi associado a um risco elevado de câncer em geral ou a riscos aumentados de câncer de mama, próstata, colorretal e cânceres com o álcool como um fator causal potencial comum.

A percepção de apoio social, o fato de não estar em um relacionamento atualmente e a perda de um ente querido foram associados a um risco maior de câncer de pulmão, mas a maioria desses riscos diminuiu após o ajuste para fatores de risco conhecidos, incluindo tabagismo e histórico familiar de câncer.

Quando ajustamos para fatores de risco, essas associações praticamente desaparecem, o que mostra que o comportamento e a exposição ambiental continuam sendo determinantes muito mais relevantes.

As conclusões foram semelhantes para homens e mulheres. O grande diferencial desse estudo é a robustez metodológica: amostra muito ampla, com acompanhamento consistente, o que fortalece bastante a confiabilidade dos resultados.

Por fim, apesar de os fatores emocionais não estarem associados ao risco de desenvolver câncer, o cuidado com a saúde mental continua sendo essencial ao longo do tratamento. O diagnóstico oncológico costuma vir acompanhado de ansiedade, medo e incertezas, o que pode impactar diretamente a adesão ao tratamento e a qualidade de vida.

A saúde mental não causa câncer, mas influencia profundamente a forma como o paciente enfrenta a doença. Oferecer suporte psicológico adequado é parte fundamental de um tratamento oncológico humanizado e baseado em evidências.

Veja - * Ramon Andrade de Mello é oncologista, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia epesquisador sênior do CNPQ (Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico)