Educação
Escolinha da Fazenda Tamakavi resiste ao tempo e guarda memórias de uma geração
BATANEWS/NEY OLEGáRIO
Na zona rural do município de Itaquiraí, onde o tempo parece caminhar mais devagar, um pequeno prédio de madeira segue firme, mesmo diante da ação dos anos. Trata-se da antiga escolinha da Fazenda Tamakavi, hoje transformada em residência simples e já bastante deteriorada, mas ainda carregada de histórias, afetos e lembranças de uma época que marcou profundamente a vida de muitos.
Na manhã desta sexta-feira, (24), ex-alunos que estudaram no local entre as décadas de 1970 e 1980 retornaram para rever amigos e parentes, passaram em frente o espaço onde viveram parte da infância. Entre eles, José Carlos e Edivaldo Pereira, ambos visivelmente emocionados ao reencontrar o cenário que ajudou a construir suas trajetórias.
“Parece que eu vi nós ali, correndo, brincando com a caixa de bolacha”, relembra José Carlos, com possivelmente com os olhos marejados, ao olhar para a antiga estrutura da escola.
Naquela época, a realidade era simples e marcada pelo trabalho duro. As famílias que viviam na Fazenda Tamakavi eram, em sua maioria, arrendatárias das terras do antigo proprietário, José Teixeira. O cultivo de algodão era a principal atividade econômica, envolvendo pais, mães e até mesmo os filhos, que conciliavam o trabalho no campo com os estudos na pequena escolinha rural.
Hoje, a área faz parte de um assentamento do Incra, mas as lembranças permanecem vivas na memória de quem viveu aquele período.
A vida social também tinha seus próprios encantos. Sem muitas opções de lazer, os moradores encontravam nos terços e rezas realizados aos finais de semana, momentos de encontro e convivência. Era ali que as famílias se reuniam, os jovens trocavam olhares, iniciavam seus primeiros romances e construíam histórias que, em muitos casos, resultaram em casamentos duradouros.
As manhãs de domingo eram marcadas pelas partidas de futebol em campos de terra batida, enquanto os passeios em veículos como jeeps, Rural, Opala e Fusca completavam os raros, mas valiosos momentos de lazer.
Com o passar dos anos, muitos daqueles alunos seguiram caminhos diferentes. Alguns ainda permanecem na região, enquanto outros se estabeleceram em cidades como Naviraí, Itaquiraí, Batayporã, Ouro Verde (SP) e até em outros estados do Brasil. Apesar da distância, o vínculo com aquele pedaço de chão continua forte.
Entre as lembranças mais vivas, o jornalista e ex-aluno Sidnei Olegário Marques também se emociona ao recordar dos colegas e amigos que fizeram parte daquela época tão especial. Ele cita, com carinho, nomes que marcaram sua infância na escolinha da Fazenda Tamakavi, como o ex-morador conhecido como Pé de Serra, Pedro do Zé Elias, Paulo Vieira, José Milto, Genésio, Nanim, Romildo, Nete, Neide, Edleuza, Preto, Dorval, Irene, O João e o Antonio do Seo Noel, entre tantos outros que, segundo ele, “a memória já não consegue trazer todos à tona, mas que jamais serão esquecidos no coração”. Sidnei também relembra com gratidão das professoras Aparecida e Jucelma, que, com dedicação e carinho, foram fundamentais na formação de todos aqueles alunos, deixando um legado que ultrapassa o tempo e permanece vivo na história de cada um.
A imagem da antiga escolinha, recuperada com o auxílio da inteligência artificial, ajuda a preservar a essência do que existiu no passado, mantendo viva a memória de uma geração que cresceu entre desafios e simplicidade, mas também cercada de união, respeito e sonhos.
Mais do que um prédio antigo, a escolinha da Fazenda Tamakavi é um símbolo de resistência, não apenas física, mas também emocional, de um tempo em que a comunidade era o alicerce da vida no campo.






