Política
‘É um erro atribuir isso ao Flávio’, diz ex-embaixador sobre decisão de Trump
Rubens Barbosa afirma que medida dos EUA já estava prevista e alerta para risco de sanções financeiras contra empresas ligadas ao crime organizado
BATANEWS/VEJA
A decisão do governo Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras abriu uma nova frente de tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos e ampliou o embate político entre lulistas e bolsonaristas. No programa Os Três Poderes, apresentado por Ricardo Ferraz, o ex-embaixador em Washington Rubens Barbosa afirmou que a medida já fazia parte da estratégia de segurança nacional americana e negou que a iniciativa possa ser atribuída exclusivamente à atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) (este texto é um resumo do vídeo acima).
O debate contou ainda com a participação do colunista Robson Bonin e dos editores José Benedito da Silva e Laryssa Borges. Durante o programa, os participantes discutiram os impactos econômicos, diplomáticos e eleitorais da decisão anunciada pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio.
Por que os EUA classificaram PCC e CV como terroristas?
Segundo Barbosa, a decisão do governo Trump faz parte de uma estratégia mais ampla de política externa e segurança nacional dos EUA para a América Latina. Washington passou a tratar a região como prioridade estratégica em dois pontos principais: imigração e combate ao crime organizado.
O principal receio do governo brasileiro, segundo o debate no programa, envolve possíveis consequências econômicas e financeiras da medida americana. Ferraz afirmou que investigações da Operação Carbono Oculto já identificaram o uso do mercado de capitais pelo crime organizado para lavagem de dinheiro.
O temor do Palácio do Planalto é que os EUA usem a nova classificação para impor restrições ou sanções contra empresas e instituições financeiras brasileiras. Entre as preocupações citadas no programa está o sistema brasileiro de pagamentos, que disputa espaço com bandeiras americanas de cartão de crédito e já vinha sendo alvo de investigação comercial por parte de Washington.
Flávio Bolsonaro teve influência na decisão?
A medida foi anunciada poucos dias depois de Flávio se reunir com Trump na Casa Branca e defender o enquadramento das facções como grupos terroristas. Apesar disso, Barbosa minimizou o peso político da atuação do senador. “Isso já estava precificado que ia acontecer”, afirmou o ex-embaixador. Segundo ele, o encontro pode ter servido apenas como “empurrão final” para uma decisão que já vinha sendo preparada pela Casa Branca.
Barbosa também alertou o PT para o risco de fortalecer eleitoralmente Flávio ao atribuir exclusivamente a ele a medida adotada por Washington. “Se o PT fizer isso, está dando uma força ao Flávio que ele não tem”, afirmou.
Quais instrumentos os EUA podem usar contra o crime organizado?
Durante o debate, Robson Bonin questionou quais seriam as ferramentas concretas disponíveis aos EUA após a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas. Segundo o colunista, a tendência seria uma ofensiva concentrada no sistema financeiro. “Os Estados Unidos provavelmente devem investir muito mais numa asfixia financeira”, afirmou Bonin.
Barbosa concordou que o foco principal deve recair sobre empresas e estruturas financeiras eventualmente usadas pelo crime organizado. “Se houver empresas brasileiras utilizadas pelo crime organizado, elas que sejam punidas”, afirmou.
O Brasil corre risco de interferência externa?
Ao comentar o avanço do crime organizado sobre estruturas políticas e econômicas brasileiras, Barbosa afirmou que o país precisa impedir um processo semelhante ao ocorrido no México. “O crime organizado aqui no Brasil se enfia no Legislativo, no Executivo e no Judiciário”, disse.
Segundo ele, embora o Brasil ainda não tenha alcançado o nível de infiltração observado em território mexicano, há sinais de alerta que exigem reação institucional. O ex-embaixador ressaltou, porém, que a medida americana não deve ser interpretada como uma ação especificamente dirigida contra o Brasil. “Não é uma medida contra o Brasil”, afirmou.






