Entre a dor e a esperança: histórias de famílias marcadas pelo feminicídio em Mato Grosso do Sul

BATANEWS/REDAçãO


Foto: Divulgação

Coincidindo com a Semana Estadual de Combate ao Feminicídio, celebrada neste início de junho, histórias de mulheres que tiveram suas vidas interrompidas pela violência de gênero ajudam a dimensionar uma realidade que continua fazendo vítimas em Mato Grosso do Sul. Mais do que números em estatísticas, são famílias destruídas, sonhos interrompidos e marcas que atravessam gerações.

Uma dessas histórias é a de Leise Aparecida Cruz. Assassinada em março de 2023, aos 40 anos, pelo próprio marido, Leise deixou filhos, familiares e amigos mergulhados em uma dor que permanece viva. Mas, em meio à tragédia, a família encontrou uma forma de manter sua memória presente.

No próximo dia 29, a filha de Leise, Leisiane Aparecida Cruz Vieira, viverá um dos momentos mais marcantes de sua vida: o nascimento de Maria Júlia Aparecida Cruz Vieira. A data carrega um simbolismo especial. Foi justamente no dia do velório da mãe que Leisiane descobriu estar grávida.

Enquanto aguarda a chegada da filha, ela também dedica atenção ao irmão Samuel, hoje com três anos, que presenciou o crime e está sob sua tutela. O nome escolhido para a bebê é uma homenagem à avó que ela jamais conhecerá. O "Aparecida" perpetuará a memória de Leise nas próximas gerações.

Ao recordar a mãe, Leisiane faz questão de que ela seja lembrada além da condição de vítima.

"Ela sempre foi uma pessoa extremamente alegre, cheia de vida e de luz. Quem a conhecia sabia que iluminava qualquer ambiente", afirma.

O crime ocorreu em Anastácio e, inicialmente, chegou a ser tratado como morte natural. No entanto, exames periciais identificaram sinais de asfixia no corpo da vítima. Diante das evidências, Edson Campos Delgado confessou o feminicídio e foi condenado a 30 anos e seis meses de prisão.

Segundo familiares, o relacionamento era marcado por ciúmes excessivos, controle e medo. Em manifesto divulgado após o assassinato, a família destacou que a morte de Leise não foi um ato impulsivo, mas o desfecho de uma longa trajetória de violência.

"Não foi um ato de impulso, nem uma fatalidade. Foi o desfecho cruel de um ciclo de violência, opressão e machismo", diz o texto.

Os familiares também ressaltam o impacto devastador da perda sobre as crianças envolvidas.

"Somos a voz de uma criança de três anos que teve sua mãe brutalmente arrancada de sua vida."

Para a família, a chegada de Maria Júlia representa a possibilidade de transformar a dor em memória, afeto e esperança.

A dor que permanece

O tempo não diminuiu o sofrimento de Patrícia da Silva Leite. Três anos após perder a filha, a técnica de enfermagem Karolina Silveira Pereira, assassinada aos 22 anos, ela ainda convive diariamente com as consequências da tragédia.

Karolina foi vítima de feminicídio após meses de violência psicológica e chantagens emocionais praticadas pelo ex-namorado. Durante o crime, um amigo da jovem, Luan, que tentou defendê-la, também foi assassinado.

"Ela era uma menina sorridente. Escolheu uma profissão com o propósito de ajudar a salvar vidas", recorda a mãe.

O relato evidencia uma realidade comum às famílias das vítimas: o feminicídio não encerra apenas uma vida, mas desencadeia uma cadeia de sofrimento que afeta pais, irmãos, filhos e amigos.

"A recuperação não acontece de imediato. Precisei de acompanhamento psicológico, faço uso de medicação e ainda existem dias muito difíceis. Meu marido e meu filho também foram profundamente afetados", conta.

Além da perda irreparável, a tragédia destruiu outros projetos familiares. Pouco antes do crime, Patrícia e o marido haviam realizado o sonho da casa própria.

"Tínhamos acabado de comprar nossa casa. Estávamos muito felizes, fazendo planos para o futuro. Depois da morte da Karolina, não conseguimos mais voltar para lá. Perdemos nossa filha e também o lar que representava um sonho para toda a família."

Com medo de possíveis represálias, a família decidiu vender o imóvel e mudar de região.

Para Patrícia, o combate ao feminicídio também passa pelo acolhimento das famílias que permanecem.

"Uma medida importante seria acolher não apenas a vítima, mas também os familiares. Todos sofrem. Em determinado momento, precisamos continuar trabalhando, cuidar da saúde mental e, ao mesmo tempo, seguir em frente."

Ela relata que o apoio psicológico inicial foi custeado por familiares e amigos. Posteriormente, recebeu atendimento por meio do Núcleo Institucional de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem), da Defensoria Pública, e do Núcleo de Apoio às Vítimas de Crimes e Atos Infracionais (Navit), do Ministério Público. Ainda assim, considera necessário ampliar e fortalecer a rede pública de assistência.

"A rede pública tem limitações de vagas e horários. Muitas vezes é difícil conciliar trabalho, rotina e tratamento. É preciso melhorar a estrutura para garantir a continuidade do atendimento."

Mesmo após anos de terapia e tratamento, ela afirma que o processo de reconstrução é diário.

"A recuperação não é imediata. Há dias em que consigo seguir, outros em que tudo volta com força. A medicação e o trabalho ajudam a manter o equilíbrio."

A sensação de injustiça também permanece. O autor dos assassinatos de Karolina e Luan foi condenado a 45 anos de prisão, mas poderá obter progressão de regime antes de cumprir integralmente a pena.

"Minha filha teve a vida interrompida aos 22 anos. Luan, aos 24. Já o responsável pela morte deles terá a oportunidade de voltar à liberdade aos 45 anos. Mesmo preso, ele continua vivo, enquanto minha filha está morta. É uma conta que não fecha para quem ficou."

Para ela, a prevenção passa pela educação e pela mudança de comportamentos que ainda alimentam a violência contra as mulheres.

"Precisamos ensinar respeito desde cedo, mas também desenvolver mais ações voltadas aos homens. É preciso combater a cultura da posse, do 'se não for minha, não será de ninguém'."

Um problema persistente

Dados do Observatório da Cidadania da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul apontam que o Estado registrou 394 vítimas de feminicídio entre 2015 e 2026, considerando os números parciais deste ano.

Os maiores registros ocorreram em 2024, com 45 casos, seguido por 2022, com 44, e 2020, com 40 ocorrências. Em 2025, foram contabilizados 39 feminicídios. Já em 2026, até o período analisado, haviam sido registradas 13 vítimas.

Os números demonstram que o feminicídio deixou de ser um fenômeno isolado para se consolidar como um grave problema social e de segurança pública em Mato Grosso do Sul.

Combate exige punição, proteção e educação

Para a juíza da 3ª Vara da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, Tatiana Decarli, a redução dos índices depende de uma atuação integrada entre punição, proteção e educação.

"O cenário de altos índices de feminicídio é um fenômeno complexo e exige uma atuação em múltiplas frentes. A resposta não está em escolher entre punição ou proteção, mas em integrar e fortalecer ambas as estratégias, somadas à educação."

Segundo a magistrada, o endurecimento das leis é importante para demonstrar que a sociedade não tolera a violência de gênero, mas, sozinho, não é suficiente.

"O rigor da lei por si só não evita o crime se o agressor acreditar na impunidade. É fundamental que exista a certeza da punição e a rapidez da resposta do sistema de Justiça logo nos primeiros sinais de violência."

Ela destaca que o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul tem conseguido analisar medidas protetivas de urgência em prazo médio de até um dia, abaixo das 48 horas previstas em lei.

Apesar dos avanços, a juíza alerta que a maioria das vítimas nunca chegou a solicitar proteção.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que cerca de 87% das vítimas de feminicídio não haviam pedido medida protetiva.

"A maioria dos feminicídios ocorre sem que a vítima tenha conseguido acessar a rede de proteção ou após falhas nesse sistema."

Tatiana também chama atenção para a maior incidência de casos em municípios de pequeno porte e defende o fortalecimento dos serviços de atendimento, a integração entre segurança pública e assistência social, além da ampliação das campanhas de conscientização.

Segundo ela, a imprensa exerce papel fundamental ao levar informação à população e incentivar mulheres em situação de violência a procurar ajuda.

A magistrada destaca ainda que o feminicídio possui uma dinâmica específica. Dados acumulados entre 2021 e 2024 mostram que 97,3% dos autores dos crimes foram homens.

"Não estamos falando de um homicídio comum. Mulheres são assassinadas por parceiros ou ex-parceiros quando tentam exercer sua autonomia, o que é percebido pelo agressor como uma ameaça à sua autoridade."

Para a juíza, a transformação cultural é indispensável.

"Precisamos inserir o debate sobre igualdade de gênero nas escolas para desconstruir essa assimetria estrutural desde a infância. Somente transformando essa cultura de posse conseguiremos evitar que novas tragédias aconteçam dentro dos lares brasileiros."

Mobilização permanente

Autor da Lei Estadual nº 5.202/2018, que instituiu a Semana Estadual de Combate ao Feminicídio em Mato Grosso do Sul, o deputado estadual Professor Rinaldo Modesto reforça a necessidade de manter o tema em evidência.

"Infelizmente, os números continuam nos chocando. Cada mulher assassinada representa uma vida interrompida, uma família destruída e filhos marcados para sempre pela dor. Essa luta não é apenas das mulheres, é de toda a sociedade. Precisamos fortalecer a conscientização, incentivar as denúncias e garantir proteção antes que a violência chegue ao extremo. O silêncio também mata."

Além da criação da Semana Estadual de Combate ao Feminicídio, a Assembleia Legislativa aprovou outras medidas voltadas ao enfrentamento da violência doméstica. Entre elas está a Emenda Constitucional nº 87, de autoria do deputado estadual Zé Teixeira, que impede condenados por violência doméstica de ocuparem cargos públicos estaduais.

As histórias de Leise e Karolina mostram que, por trás de cada estatística, existem famílias que seguem convivendo com a ausência, tentando reconstruir suas vidas e transformando o luto em resistência. Enquanto os números insistem em crescer, a principal mensagem permanece urgente: combater o feminicídio é uma responsabilidade de toda a sociedade.