Política
O que Trump realmente quer do Brasil? O Planalto tenta entender
Passado o feriado, Lula deve buscar uma conversa direta com o americano. Por telefone, carta ou presencialmente, no G7
BATANEWS/CARTACAPITAL
O que Donald Trump quer do Brasil? A resposta mais óbvia é um governo “dócil' à estratégia de segurança nacional da Casa Branca. Lançada em dezembro de 2025, essa doutrina trata o Hemisfério Ocidental como área preferencial de influência dos Estados Unidos — uma versão atualizada, e mais agressiva, da velha ideia de quintal americano. Mas, como materializá-la no Brasil? Jogar por Flavio Bolsonaro na eleição? Ou manter o presidente Lula por perto?
Compreender Trump tem sido um desafio para o Palácio do Planalto desde a volta do americano ao poder, em janeiro de 2025. A segunda etapa do tarifaço e a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, decisões recentes de Washington, embaralharam ainda mais a leitura em Brasília. “É um jogo de xadrez', resume um colaborador presidencial.
O problema é que Trump joga esse xadrez aos solavancos. Seu comportamento errático o leva, às vezes, a grandes erros de cálculo. A guerra contra o Irã, em parceria com Israel, é um exemplo. Ele pode ter imaginado um desfecho rápido, semelhante ao obtido na Venezuela com a captura de Nicolás Maduro. Não foi o que ocorreu. A guerra se prolongou, encareceu o petróleo e pressionou a inflação nos Estados Unidos. Trump chegou a 34% de aprovação, um de seus piores índices.
O zigue-zague da Casa Branca em relação ao Brasil pode ser menos fruto de um plano cuidadosamente desenhado do que desse modo trumpista de operar. Na tentativa de entender o que o americano pretende, Lula quer abrir um canal direto — por telefone ou por carta. Também admite comparecer à reunião do G7, marcada para 15, 16 e 17 de junho, em Évian, na França. O Brasil não integra o grupo, mas foi convidado. Se Trump confirmar presença, haveria ali uma oportunidade de conversa.
Nenhum movimento novo será feito pelo governo brasileiro durante o feriadão, que se estende até 7 de junho. Nos próximos dias, o Planalto observará a eventual reação da Casa Branca aos sinais de que Lula deseja um contato entre os dois presidentes. Foi justamente a relação direta entre eles que, por algum tempo, ajudou a conter o chamado “tarifaço 1'.
Aquele tarifaço já havia sido visto por Lula como tentativa de Trump de interferir no País e um prenúncio do que ocorreria na eleição deste ano. Seu anúncio, em julho de 2025, fora acompanhado de uma carta na qual o americano defendia limpar a barra de Jair Bolsonaro na Justiça.
A “punição' ao Brasil havia sido arquitetada por Eduardo Bolsonaro, em autoexílio nos EUA há mais de um ano. Suas digitais no episódio o levaram ao banco dos réus no Supremo Tribunal Federal por “coação no curso do processo'. A ação penal contra o ex-deputado será julgada em 16 de junho.
Dois meses depois do “tarifaço 1', Lula e Trump iniciaram uma surpreendente relação pessoal. E por iniciativa do americano, que elogiou o brasileiro na Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Abriu-se então um canal direto que Lula explorou para desarmar a ofensiva tarifária. Vieram telefonemas, um encontro na Malásia e outro em Washington.
Há no Planalto a impressão de que Trump nutre apreço genuíno por Lula. Em uma das conversas, o americano teria dito que a trajetória do brasileiro era “admirável'. Comparou a história dos dois, ambos capazes de voltar ao poder, e destacou uma diferença, em tom de espanto e admiração: Lula esteve preso; Trump, não.
Sob esta avaliação, o presidente americano seria um pouco menos ideológico do que Marco Rubio, o chefe do Departamento de Estado, o equivalente ao Ministério das Relações Exteriores dos EUA. A foto postada por Trump em uma rede social, da reunião tida com Flavio Bolsonaro na Casa Branca, serviu para botar pés no chão, no entanto. Ainda mais pelo comentário que acompanhava a imagem: “Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca — um jovem inteligente que ama muito o seu país, o Brasil!'.
Na Colômbia, governada por um presidente de esquerda que tenta fazer o sucessor, Trump já se meteu abertamente na eleição. Em 2 de junho, escreveu em uma rede social: “O resultado desta eleição é muito importante para o futuro da Colômbia e para a relação do país com os Estados Unidos. Por causa de suas grandes realizações ao longo da vida e de seu apoio político a mim, pessoalmente, tenho a honra de dar a Abelardo meu apoio completo e total'.
Abelardo de la Espriella, advogado e empresário, é o candidato da extrema-direita colombiana. O senador Iván Cepeda é o nome apoiado pelo presidente Gustavo Petro.
A postagem de Trump com Flávio saiu no mesmo dia em que a área comercial do governo americano anunciou o encerramento de determinadas investigações sobre o Brasil e a decisão de impor um segundo tarifaço. A medida poderá ser aplicada a partir de 15 de julho, caso Trump a endosse. O governo Lula pretende arrastar os Estados Unidos para a mesa de negociação e impedir a entrada em vigor da nova punição. Há, nesse ponto, algum otimismo em Brasília.
No caso do carimbo de “terroristas' dado ao PCC e ao Comando Vermelho, a estratégia será outra. Segurança pública é um tema mais perigoso para Lula do que para Flávio Bolsonaro. A postura será explicitar as consequências econômicas e políticas da classificação das facções como organizações terroristas. No limite, bancos brasileiros e até o sistema Pix poderiam ser afetados por sanções ou restrições.
Além disso, ninguém no Planalto alimenta a ilusão de que Trump voltará atrás nesse ponto. A medida tem a marca de Rubio, visto em Brasília como mais ideológico do que o próprio presidente.
Rubio, filho de cubanos que emigraram para os Estados Unidos, lê a América Latina pelas lentes da Guerra Fria e da disputa contra a esquerda regional. Em audiência pública no Senado americano, em 2 de junho, listou países amigáveis a Washington na América Latina — e deixou o Brasil fora da lista.
No início do ano, Rubio tentou enviar ao Brasil um emissário, Darren Beattie, para visitar Jair Bolsonaro na prisão. O STF primeiro autorizou e depois negou a visita. O Itamaraty revogou o visto dele. O único compromisso previsto na agenda do americano era com Bolsonaro, nenhum com autoridades federais brasileiras.
Sob a influência de Rubio, a Casa Branca também escolheu o nome que deseja para a embaixada dos Estados Unidos em Brasília, posto vago há meses. Mas, segundo a leitura de diplomatas brasileiros, não cumpriu uma praxe importante: consultar previamente o Itamaraty sobre a aceitação do indicado, o chamado agrément.
O nome escolhido, Daniel Perez, é deputado estadual pela Flórida, berço político de Rubio. Republicano trumpista, pertence ao universo MAGA. Não faz parte da tradição brasileira impor filtro ideológico à análise de embaixadores designados por outros países. Ainda assim, uma recusa — polida, silenciosa ou burocrática — pode ocorrer por razões mais concretas.
No ano passado, Israel indicou Gali Dagan para a embaixada em Brasília. O Itamaraty jamais respondeu ao pedido de agrément, e os israelenses desistiram. Motivo do silêncio: Dagan foi assentado judeu em território palestino, e o Brasil é a favor de que aquela área integre um Estado da Palestina.




