O comprimido para emagrecer que corre por fora nas acirradas pesquisas voltadas ao diabetes e à obesidade

Ele atende pelo nome de Elecoglipron, tem princípio ativo como o das canetas e apresentou resultados promissores

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Novo integrante dos agonistas de GLP-1: avanço nas pesquisas (Medioimages/Thinkstock/VEJA/VEJA)

O mundo dos novos remédios para controlar o peso e a glicose no sangue já não é mais dividido entre as fabricantes do Mounjaro e do Ozempic. Outras farmacêuticas estão entrando no páreo com canetas e comprimidos dotados de mecanismos de ação parecidos com os dos atuais blockbusters da indústria.

Uma das promessas vem do elecoglipron, desenvolvido pela AstraZeneca: uma pequena molécula administrada via oral uma vez ao dia. De maneira similar ao orforglipron, da Lilly, o comprimido imita o hormônio GLP-1, que atua na saciedade e na glicemia, não exige jejum nem restrições de consumo de água ou alimentos.

Dois estudos clínicos de fase 2 publicados no The Lancet avaliaram o medicamento em diferentes grupos de pacientes. Os resultados indicam redução relevante do peso corporal e melhora do controle glicêmico.

Ainda assim, o elecoglipron permanece em investigação: serão necessários estudos de fase 3, com mais participantes e acompanhamento prolongado, para confirmar a eficácia, a segurança e o melhor esquema de doses.

Perda de peso

O estudo VISTA avaliou 310 adultos com obesidade ou sobrepeso associado a pelo menos uma condição relacionada aos quilos a mais, como hipertensão, alterações do colesterol, doença cardiovascular ou apneia obstrutiva do sono. Pessoas com diabetes tipo 2 não participaram dessa etapa da pesquisa.

Os voluntários receberam diferentes doses diárias de elecoglipron ou placebo (cápsulas inertes). Após 26 semanas, a redução média do peso variou conforme a dose: foi de 2,6% no grupo que tomou 5 miligramas e chegou a 10,5% entre os participantes que receberam 75 miligramas com aumento semanal da dose. No grupo placebo, a redução média foi de apenas 0,6%.

Na dose mais alta, até 88,8% dos participantes alcançaram uma perda de pelo menos 5% do peso corporal em 26 semanas, em comparação com 15,6% no grupo placebo.

O efeito continuou ao longo do acompanhamento: após 36 semanas, a redução média chegou a 11,8%, sem sinais claros de estabilização. Isso sugere que a perda de peso máxima talvez ainda não tivesse sido atingida ao término do estudo.  

A possibilidade de tomar o medicamento sem precisar sincronizar o comprimido com refeições pode representar uma vantagem prática.

A semaglutida oral, por exemplo, deve ser ingerida em jejum, com um intervalo antes do consumo de alimentos, bebidas e outros medicamentos. Já pequenas moléculas como o elecoglipron podem facilitar a rotina e, potencialmente, melhorar a adesão ao tratamento.

Controle do diabetes

O estudo SOLSTICE analisou 404 adultos com diabetes tipo 2 que receberam pelo menos uma dose do tratamento. Os participantes tinham, em média, 58,4 anos e hemoglobina glicada de 7,9% no início da pesquisa. O indicador, conhecido como HbA1c, ajuda a estimar a média da glicose no sangue nos meses anteriores.

Após 26 semanas, a redução média da hemoglobina glicada variou de 0,91 ponto percentual, com a dose de 5 miligramas, a 1,88 ponto percentual, com a dose de 75 miligramas e aumento gradual a cada duas semanas. Entre os pacientes que receberam placebo, a queda foi de 0,15 ponto percentual.

O tratamento também favoreceu a perda de peso. No grupo que apresentou a maior redução da glicemia, a diminuição média do peso corporal foi de 7,7% em 26 semanas.  

Esses resultados são importantes porque o diabetes tipo 2 está frequentemente associado ao excesso de peso e a um risco aumentado de complicações cardiovasculares e renais. Uma opção oral capaz de atuar simultaneamente sobre a glicemia e o peso pode ser útil para determinados perfis de pacientes, desde que os benefícios sejam confirmados em estudos mais amplos.

Efeitos adversos e próximos passos 

Assim como ocorre com outros medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, os eventos adversos mais comuns foram gastrointestinais. Náusea, constipação, diarreia e vômitos apareceram com maior frequência entre os participantes tratados.

No estudo sobre obesidade, eventos adversos foram relatados por 84% a 98% dos voluntários nos diferentes grupos que receberam elecoglipron, ante 84% no grupo placebo. No estudo sobre diabetes tipo 2, a frequência variou de 63% a 87% entre as doses avaliadas, em comparação com 63% no grupo placebo.    

Os pesquisadores também testaram diferentes velocidades de aumento das doses. Esse detalhe é crítico porque o escalonamento gradual pode ajudar a equilibrar eficácia e tolerabilidade, especialmente durante as primeiras semanas de tratamento.

No geral, os resultados são promissores, mas ainda preliminares. Estudos de fase 2 ajudam a identificar doses adequadas, estimar o tamanho do benefício e mapear possíveis efeitos adversos. Antes de uma eventual aprovação pelas autoridades regulatórias, o medicamento precisará ser avaliado em ensaios de fase 3, geralmente maiores e mais longos.