Saúde
Câncer: por que a era da quimioterapia pode estar com os dias contados
Tratamentos cada vez mais certeiros oferecem resultados inéditos diante de tumores desafiadores
BATANEWS/VEJA
Foi um anúncio apoteótico com uma comoção raríssima de ver em congressos científicos. Mais de 10 000 médicos aplaudiam de pé, muitos deles emocionados, os resultados de um estudo apresentado no encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), em Chicago. A cena protagonizada na sessão do maior evento dessa especialidade no mundo viralizou nas redes sociais.
E não foi por menos: especialistas compartilharam, em primeira mão, os efeitos de um comprimido diário contra o câncer de pâncreas avançado, um dos tumores mais letais. Na pesquisa, devidamente controlada, a pílula foi capaz de dobrar o tempo de vida dos pacientes em relação ao grupo tratado apenas com quimioterapia — com a vantagem de provocar menos efeitos colaterais. A droga encontra-se na última fase de testes e a previsão é de que esteja disponível no mercado já nos próximos anos.
É avanço inédito diante de um dos maiores desafios da medicina hoje. E que consolida uma virada de fase: a ascensão de um movimento irrevogável que coloca estratégias mais precisas e personalizadas em foco em detrimento das táticas mais antigas e radicais, como a quimioterapia. Ou, para recorrer a uma metáfora bélica, saem de cena os tiros de canhão, ganham passagem os mísseis teleguiados e os drones. Graças ao avanço tecnológico, vive-se uma nova era na guerra contra um grupo de doenças que atinge cerca de 20 milhões de pessoas por ano no mundo.
A façanha contra o duro câncer de pâncreas foi alcançada com uma pílula diária, batizada de daraxonrasibe, da farmacêutica americana Revolution Medicines, utilizada em pacientes que haviam tentado o tratamento padrão sem sucesso. Seu diferencial: ela atua “cirurgicamente” contra mutações genéticas presentes em 90% desses tumores. Ao atingi-las, desestabiliza as células doentes, poupando as saudáveis — algo que a quimioterapia não consegue fazer. Para se ter ideia do desafio, há alguns anos esse alvo era considerado “indrogável”, tamanha a resistência às armas médicas. O novo fármaco desarmou a bomba.
A comprovação veio de um estudo com 500 pacientes: parte deles recebeu o comprimido; o restante, só a químio. A taxa de sobrevida do grupo com o daraxonrasibe foi de 13,2 meses, ante 6,7 meses da ala que não recebeu a nova droga. Parece pouco, mas é um ganho expressivo diante de uma doença tão letal. Daí os aplausos de quase um minuto dirigidos ao oncologista Brian Wolpin, do Dana-Farber Cancer Institute, nos Estados Unidos, que liderou o experimento. “Os resultados endossam um novo padrão de cuidado para esses pacientes”, declarou.
Não só a expectativa de vida dessas pessoas aumentou. A qualidade de vida também melhorou. A pesquisa apontou menos reações adversas, menor convívio com a dor e menores índices de deterioração do estado de saúde. E, no futuro, não apenas vítimas dos tumores de pâncreas poderão se beneficiar dessa medicação. Como seu alvo é uma mutação genética, outros cânceres com essa característica deverão entrar em sua mira.
A pílula reverenciada na Asco coroa a chamada medicina de precisão, que trabalha com terapias direcionadas contra estruturas e características específicas da doença, evitando ataques a outras áreas do corpo. São drogas como terapias-alvo e anticorpos monoclonais, que caçam vulnerabilidades do tumor para destruí-lo. Não se trata da aposentadoria da quimioterapia, claro, mas de uma perda gradual de território. “Nas pesquisas e nos processos de aprovação de medicamentos, já não vemos mais novas opções de químio”, diz o oncologista Pedro Uson, do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo. “O foco dos laboratórios agora são estratégias mais inteligentes”, emenda o especialista em aparelho digestivo.
Nessa direção, outro estudo apresentado na Asco comparou uma terapia-alvo para um tumor de vias biliares com o tratamento tradicional, com químio e imunoterapia. O comprimido mais preciso teve atividade superior contra a doença e logrou mais que dobrar o tempo de vida livre do problema entre os pacientes. “O tratamento reduz o tumor em 50% dos casos. Estamos falando de pesquisas que vão mudar a prática clínica”, afirma Uson.
A criatividade e a resiliência para subjugar o câncer são dois grandes ativos entre os cientistas envolvidos nessa batalha para salvar vidas. No congresso de Chicago, foram demonstrados ganhos evidentes sobretudo em situações em que, com a falha das abordagens tradicionais — como cirurgia e quimioterapia —, uma nova molécula entrou em campo para fazer a diferença. Na plenária do evento, onde os estudos mais disruptivos são divulgados, foi apresentada uma nova terapia altamente seletiva que inibe um gene envolvido em um dos tipos de câncer de pulmão. Entre as pessoas que tomaram a medicação, mais de 90% alcançaram um tempo de dois anos de sobrevida sem a presença da doença; ante 60% dos pacientes que continuaram com os métodos convencionais de tratamento.
No caso do câncer de próstata, um dos mais comuns entre homens, a maior inovação foi mudar a estratégia de combate, combinando uma medicação chamada apalutamida, da Johnson & Johnson, com a terapia hormonal seis meses antes e seis meses depois da cirurgia. O desfecho foi a redução de 20% no risco de morte ou disseminação do tumor e a probabilidade, entre quase 80% dos pacientes tratados, de uma sobrevida de cinco anos livre das ramificações da doença. “Toda linha de pesquisa na nossa área é voltada à oncologia de precisão, com a ideia de direcionar um tratamento para cada tipo de câncer”, diz o oncologista Ariel Kann, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.
São achados impressionantes e emocionantes, mas cabe lembrar que haverá um longo caminho até que eles se tornem realidade na rotina dos pacientes, sobretudo do sistema público de saúde. Nesse sentido, o acesso, mesmo às terapias de ponta disponíveis, é o maior gargalo para o brasileiro. Para essa nova geração de drogas, que têm um custo caro, são necessários testes genéticos que avaliam a presença das mutações ligadas à doença. Não se trata, portanto, de uma matemática simples. A solução pode estar em parcerias e estudos inclusive de dosagens otimizadas.
A quimioterapia nasceu no início do século XX com a observação dos efeitos do gás mostarda entre soldados que lutaram na I Guerra Mundial. Era e continua sendo uma arma importante para bombardear o câncer. Mas ela tem um preço. A medicina personalizada quer poupar os pacientes disso. É a precisão em nome da vida, sempre digna de aplausos.
“Poucas medidas têm o mesmo efeito da atividade física”
O dia do médico Paulo Hoff parece durar mais de 24 horas. Entre consultas, aulas, mensagens de pacientes, obrigações da gestão e viagens a congressos internacionais, o professor da USP e líder da oncologia da Rede D’Or se divide entre compromissos que lhe dão uma visão privilegiada dos avanços e das dificuldades no combate ao câncer no Brasil. Na entrevista a seguir, o oncologista mais procurado do país faz um balanço dos novos avanços da luta contra o câncer.
Qual é o maior desafio na atual batalha contra essa doença? O câncer não é uma doença, mas um conjunto de doenças. Todas envolvem alterações genéticas nas células, que podem surgir ao longo da vida, e cada tipo exige uma abordagem no tratamento. O desafio atual é que o número de casos vem aumentando no mundo todo, principalmente em países em desenvolvimento, onde os sistemas de saúde muitas vezes não estão preparados para atender a essa demanda. Sabemos que o câncer tem muito mais chances de cura quando é descoberto cedo. Só que, no Brasil, ainda enfrentamos dificuldades de acesso a exames e início rápido do tratamento, o que impacta na sobrevivência dos pacientes.
Estudos mostram um crescimento de cerca de 80% nos casos de câncer em adultos jovens em relação a trinta anos atrás. O que explica isso? A incidência de câncer vem aumentando em praticamente todas as faixas etárias, mas esse crescimento tem chamado mais atenção em pessoas com menos de 50 anos. Ainda assim, é crucial lembrar que o câncer continua sendo mais comum após os 60 e segue fortemente associado ao envelhecimento. O que mudou é que ser jovem parece ter um efeito menos protetor. Ainda não sabemos exatamente o motivo, mas provavelmente não há uma causa única. Tem um conjunto de mudanças: dieta menos saudável, maior consumo de alimentos ultraprocessados, sedentarismo e obesidade, entre outros.
Vivemos uma revolução no tratamento do câncer? O tratamento está ficando cada vez mais preciso. Antes, tratávamos tumores de forma mais ampla e genérica. Hoje conseguimos entender melhor as características de cada doença e podemos escolher medicações mais certeiras. As terapias-alvo, por exemplo, atacam alterações específicas nas células tumorais. A imunoterapia, por sua vez, estimula o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater o câncer. Ela mudou completamente a perspectiva para os pacientes com alguns tipos de tumor que, até pouco tempo atrás, tinham poucas opções terapêuticas. E, mais recentemente, contamos com a inovação dos anticorpos conjugados. Eles funcionam como um cavalo de Troia: entregam o remédio diretamente na célula tumoral, aumentando a eficácia e reduzindo a toxicidade.
O senhor bate na tecla da prevenção. Se tivesse que escolher uma medida a ser implementada desde já, qual seria? Poucas medidas têm um efeito tão grande contra o câncer quanto a atividade física. Há estudos mostrando que pacientes que já tiveram a doença e praticam pelo menos 150 minutos de atividade física por semana reduzem até pela metade a probabilidade de o tumor voltar. A prevenção não depende de uma única atitude, mas os exercícios e o controle do peso têm um papel importante nessa história.
Por falar em peso, as canetas emagrecedoras podem diminuir o risco de câncer? Sabemos que a obesidade é um dos principais fatores de risco evitáveis para o câncer. E, quando há uma perda de peso significativa, há menos inflamação e um melhor equilíbrio hormonal. Tudo isso contribui para diminuir o risco de um tumor. O controle do peso em si já se mostra um fator de proteção.
Publicado em VEJA de 12 de junho de 2026, edição nº 2999





