Agricultura
O maior risco para a safra 2026/27 não está no clima
BATANEWS/POR CELSO MORETTI | BRASILAGRO
Cerca de 85% dos fertilizantes consumidos no Brasil são importados, tornando o agronegócio altamente sensível às oscilações de preços, à disponibilidade de oferta e às tensões geopolíticas internacionais.Foto Reprodução Adobe Stock
Conflitos geopolíticos, fertilizantes e logística global podem influenciar o agronegócio tanto quanto chuvas, produtividade e mercados
Os últimos 30 dias foram marcados por três grandes vetores de impacto sobre oagronegócioglobal: geopolítica,fertilizantese comércio internacional. Mais do que eventos isolados, esses fatores evidenciam uma transformação estrutural em curso: aagriculturamundial está cada vez mais exposta às tensões geopolíticas e às disputas estratégicas que moldam o cenário internacional.
O conflito envolvendoEstados Unidos, Israel e Irã continua produzindo efeitos relevantes sobre os mercados de energia, fertilizantes e alimentos. Embora haja sinais de uma possível negociação entre as partes, oEstreito de Ormuzpermanece como principal foco de atenção. A região concentra uma das mais importantes rotas logísticas do planeta para o transporte de petróleo, gás natural e fertilizantes.
Recentemente, o Irã sinalizou a possibilidade de instituir algum tipo de cobrança para embarcações que transitem pela região, hipótese rejeitada pelos Estados Unidos. Independentemente do desfecho, a simples percepção de risco já foi suficiente para provocar volatilidade nos mercados.
Os reflexos não tardaram a aparecer. Os preços da ureia, da amônia e de outros fertilizantes nitrogenados registraram elevação, enquanto os custos de frete marítimo e de seguros passaram a incorporar um prêmio de risco adicional. Como consequência, aumentaram as preocupações com a inflação de alimentos e com os impactos sobre países altamente dependentes de importações de fertilizantes, caso do
As reações internacionais ao conflito revelam diferentes estratégias de enfrentamento. No final de maio, a União Europeia decidiu suspender temporariamente tarifas de importação sobre ureia e amônia, buscando reduzir os custos para seus agricultores e preservar a competitividade da produção agrícola do bloco. Trata-se de um sinal inequívoco de que governos já começam a adotar medidas preventivas para mitigar possíveis impactos sobre a safra 2026/27.
Na direção oposta, a China prorrogou até agosto as restrições às exportações de ureia e manteve limitações para outros insumos considerados estratégicos. A Rússia, por sua vez, segue adotando mecanismos de controle sobre suas exportações de fertilizantes. O resultado dessa combinação é uma oferta global mais restrita, maior concentração de fornecedores e pressão adicional sobre os preços internacionais.
Além da geopolítica, outro fator voltou a ocupar espaço nas análises de mercado: o clima. Agências meteorológicas internacionais, entre elas a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), vêm alertando para o fortalecimento de condições associadas ao El Niño durante o segundo semestre de 2026. Embora ainda existam incertezas sobre sua intensidade e abrangência, o fenômeno tem potencial para afetar a produtividade agrícola em importantes regiões produtoras do mundo, aumentando a volatilidade dos mercados de grãos e oleaginosas e ampliando os riscos para a segurança alimentar global.
Para o Brasil, os desdobramentos desse cenário se manifestam de forma particularmente relevante. De um lado, surgem riscos associados ao aumento dos custos de produção; de outro, abrem-se oportunidades comerciais decorrentes da posição estratégica do País como fornecedor global de alimentos.
O principal fator de preocupação continua sendo a elevada dependência externa de fertilizantes. Atualmente, cerca de 85% dos fertilizantes consumidos no País são importados, tornando o agronegócio brasileiro altamente sensível às oscilações de preços, à disponibilidade de oferta e às tensões geopolíticas internacionais. As cadeias mais expostas incluem soja, milho, algodão, cana-de-açúcar e café, justamente algumas das mais relevantes para a pauta exportadora nacional.
Distribuidores, cooperativas e produtores já acompanham atentamente os movimentos do mercado. A expectativa é que os efeitos mais significativos sejam percebidos durante o ciclo de compras para a safra 2026/27, especialmente caso persistam as incertezas relacionadas ao Oriente Médio. Nesse contexto, o aumento do custo dos fertilizantes poderá vir acompanhado de fretes mais elevados e maior volatilidade cambial, ampliando os desafios para o planejamento da próxima temporada.
Por outro lado, a mesma instabilidade que gera riscos também reforça a importância do Brasil no abastecimento global de alimentos. Em um ambiente caracterizado por interrupções logísticas, restrições comerciais e crescente preocupação com a segurança alimentar, o País consolida sua posição como fornecedor confiável de soja, milho, açúcar, café e proteínas animais. A demanda firme dos mercados asiáticos e a competitividade da produção nacional continuam sustentando o bom desempenho das exportações brasileiras.
Os acontecimentos recentes deixam uma lição importante: o conflito no Oriente Médio deixou de ser apenas uma questão energética e passou a representar um desafio direto para a agricultura mundial. Os fertilizantes tornaram-se o principal canal de transmissão dos efeitos da geopolítica para o campo. Nesse contexto, o maior risco para a safra 2026/27 pode não ser climático, mas geopolítico.
A combinação entre tensões em regiões estratégicas, como o Estreito de Ormuz, e a possibilidade de ocorrência de eventos climáticos associados ao El Niño cria condições para um novo ciclo de valorização das commodities agrícolas, semelhante ao observado em outros momentos de choque de oferta global.
Diante desse cenário, o tema fertilizantes retorna ao centro da agenda estratégica brasileira. Acelerar a implementação do Plano Nacional de Fertilizantes, estimular a produção doméstica, diversificar fornecedores internacionais e ampliar investimentos em inovação serão medidas cada vez mais necessárias para reduzir vulnerabilidades e fortalecer a competitividade do agro nacional.
Em síntese, as últimas semanas reforçaram uma realidade que tende a se consolidar nos próximos anos: a geopolítica tornou-se uma variável tão importante para o agronegócio quanto o clima, a tecnologia ou os mercados. Para o Brasil, o desafio será administrar os riscos associados ao aumento dos custos de produção sem perder de vista as oportunidades decorrentes de sua condição de potência agroalimentar. Em um mundo cada vez mais instável, produzir alimentos continuará sendo fundamental. Produzi-los com segurança estratégica será ainda mais importante(Celso Moretti é engenheiro agrônomo e ex-presidente da Embrapa; Estadão, 18/6/26)





