Entenda por que a Fifa liberou a participação de cinco jogadores acusados de estupro

Entre os investigados estão dois jogadores do Japão, que enfrenta o Brasil nesta segunda-feira

BATANEWS/GE


Ryan Mendes, capitão de Cabo Verde, é investigado pela polícia da Nova Zelândia em denúncia de estupro feita por uma brasileira — Foto: Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images

Pelo menos cinco jogadores que disputam a Copa do Mundo de 2026 estão sendo ou foram investigados por acusações de estupro anteriores ao início do Mundial. Entre os acusados estão dois atletas do Japão, que enfrenta o Brasil às 14h (de Brasília) desta segunda-feira, pela segunda fase. Mas por que a Fifa permitiu que os jogadores fossem inscritos na competição?

Alguns jogadores não foram condenados e outros, embora acusados, ainda aguardam julgamento da Justiça.

A Fifa não tem uma regra geral proibindo a inscrição de jogadores que enfrentam acusações ou respondem a processos por estupro ou agressão sexual. A posição da entidade tem sido, em linhas gerais, que ela respeita os processos judiciais dos países e que a convocação dos atletas é responsabilidade das federações nacionais.

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Se não existe uma suspensão disciplinar da própria Fifa ou outra sanção que impeça o jogador de atuar, como decisão judicial que restrinja a atividade do atleta ou outra medida legal aplicável, ele pode continuar elegível para jogar.

Conheça os casos:

Ryan Mendes - Cabo Verde

O atacante Ryan Mendes, capitão da seleção de Cabo Verde na Copa do Mundo, é investigado pela polícia da Nova Zelândia em denúncia de estupro feita por uma brasileira. O caso ocorreu em março, no hotel onde a equipe cabo-verdiana estava hospedada para a disputa de amistosos na Oceania, e está sob investigação desde 10 de abril.

O ge apurou que a polícia colheu imagens das câmeras de segurança do hotel e aguarda o laudo pericial dos exames de corpo de delito, realizados há três meses, para fechar o inquérito. Ao fim dessa investigação, a polícia vai decidir se oferecerá a denúncia à justiça.

Segundo a lei neozelandesa, uma condenação por violência sexual pode resultar em prisão de até 20 anos, de acordo com a gravidade do caso. A reportagem teve acesso a fotos de hematomas que foram entregues à polícia, ao registro da denúncia e ao relatório médico da clínica que deu assistência à brasileira, com exames e atendimento psicológico após o ocorrido.

A Fifa soltou a seguinte nota sobre o caso:

"A Fifa trata com a máxima seriedade qualquer denúncia de conduta imprópria e dispõe de um processo claro para que qualquer pessoa envolvida com o futebol possa comunicar um incidente.

Como regra geral, os órgãos judiciais independentes da Fifa não comentam sobre denúncias que possam ou não ter recebido, nem confirmam ou negam a existência de investigações em andamento sobre supostos casos. Caso decidam tornar alguma informação pública, isso será feito no momento e da forma que considerarem apropriados.

A Fifa está em contato com as autoridades da Nova Zelândia. Neste momento, não faremos comentários adicionais".

Junya Ito - Japão

O atacante Junya Ito, autor de um dos gols do Japão na goleada por 4 a 0 sobre a Tunísia, pela segunda rodada da Copa, foi acusado no início de 2024.

Na época, a imprensa japonesa informou que a polícia abriu uma investigação depois da denúncia de duas mulheres, que alegaram que o atleta havia cometido abuso sexual contra elas em um hotel em Osaka, enquanto ambas estavam embriagadas.

A seleção japonesa chegou a cortar Junya Ito da Copa da Ásia. O jogador apresentou uma denúncia criminal contra as duas mulheres, acusando-as de falsas denúncias.

Em agosto de 2024, os promotores do Ministério Público decidiram não ir adiante nem contra o jogador nem contra as acusadoras, alegando falta de provas.

Kaishu Sano - Japão

Também em 2024, só que em julho, o volante Kaishu Sano foi preso pela polícia de Tóquio acusado de ter agredido sexualmente uma mulher de cerca de 30 anos em um hotel da capital japonesa. Um ano depois, o jogador voltou à seleção do Japão e se desculpou publicamente pelo ocorrido

— Peço sinceras desculpas por ter causado transtornos e preocupações a tantas pessoas por causa das minhas ações. Daqui para frente, pretendo continuar demonstrando, por meio das minhas atitudes, palavras e tudo o que eu puder fazer, meu comprometimento, além de contribuir para a sociedade também fora dos gramados — declarou Kaishu Sano em 2025.

O processo legal foi encerrado, e Kaishu Sano não foi condenado. Ele foi liberado pelas autoridades japonesas, o que permitiu a retomada de sua carreira e sua convocação para defender a seleção na Copa do Mundo de 2026.

— Tenho acompanhado sua trajetória o tempo todo e, após conversar pessoalmente com ele, senti fortemente que ele está verdadeiramente arrependido. Perguntei a mim mesmo se deveríamos simplesmente excluir alguém da sociedade ou do mundo do futebol por ter cometido um erro. Decidi que seria melhor, como uma família, oferecer a ele uma oportunidade de recomeçar — afirmou Hajime Moriyasu, técnico do Japão desde 2018.

Hakimi - Marrocos

Principal jogador do Marrocos, Achraf Hakimi foi acusado de estupro por uma mulher de 24 anos na França em 2023. O jogador do PSG tinha solicitado o arquivamento do caso, mas teve seu pedido de recurso negado pelo Tribunal de Apelação de Versalhes e irá a julgamento pelo crime na Justiça francesa.

O caso teve início em fevereiro de 2023, quando a jovem foi a uma delegacia de polícia em Val-de-Marne, região a sudeste de Paris, e relatou ter sido estuprada, sem registrar queixa formal.

Segundo a AFP, ela conheceu o jogador pelo Instagram e foi convidada para visitar sua casa. Hakimi teria começado a beijá-la e fazer investidas sexuais sem consentimento, antes de estuprá-la. A jovem alega que conseguiu fugir e pedir socorro para uma amiga.

O jogador foi indiciado em março de 2023. Hakimi se manifestou sobre o assunto pela primeira vez em fevereiro deste ano, quando um juiz acolheu a denúncia:

Hoje em dia, uma acusação de estupro é suficiente para justificar um julgamento, mesmo que eu a negue e tudo prove que é falsa. Isso é tão injusto para os inocentes quanto para as verdadeiras vítimas. Aguardo com serenidade este julgamento, que permitirá que a verdade venha à tona publicamente — escreveu nas redes sociais.

Thomas Partey - Gana

Thomas Partey responde a sete acusações de estupro e agressão sexual no Reino Unido. Ele desfalcou a seleção de Gana na estreia da Copa contra o Panamá, porque foi impedido de entrar no Canadá. A Justiça canadense negou visto ao jogador por causa da investigação.

O ministério das relações exteriores emitiu um comunicado, afirmando que a decisão foi "arbitrária e extremamente injusta" porque se baseia em acusações "não comprovadas".

O atleta foi acusado cinco vezes por duas mulheres por crimes supostamente cometidos entre 2021 e 2022, período em que defendeu o Arsenal, da Inglaterra. No passado, o jogador também foi acusado por uma terceira mulher de ter cometido agressão sexual. Ele também não pode ter contato com a vítima.

No começo deste ano, mais duas mulheres o acusaram do mesmo crime. O jogador se julgou inocente das situações perante um tribunal inglês, em fevereiro.

O meia de Gana chegou a ser preso em 2025, mas recebeu liberdade condicional após pagamento de fiança, sob a condição de não contatar as mulheres que o acusaram e também de informar qualquer mudança permanente de endereço ou viagem internacional.