Pecuária
Arroba do boi gordo começa a semana sob pressão, mas escalas curtas limitam queda
Com frigoríficos tentando comprar em patamares menores, mercado do boi gordo trava em várias praças; consultorias apontam efeito China, demanda mais fraca e escalas ainda curtas como fatores centrais para a formação da arroba
BATANEWS/REDAçãO
O mercado físico do boi gordo iniciou a semana mantendo o viés de baixa em boa parte das praças pecuárias brasileiras. A pressão vem principalmente da postura mais cautelosa dos frigoríficos, que seguem testando preços menores diante de um cenário de demanda mais ajustada, exportações menos aquecidas e maior seletividade na compra de animais terminados.
Apesar da tentativa da indústria de alongar as escalas e reduzir o ritmo das compras, o mercado não apresenta fluidez. Segundo análise de Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercado, as negociações seguem travadas desde a semana anterior, com frigoríficos encontrando dificuldade para avançar nas programações de abate. Na média nacional, as escalas permanecem entre cinco e sete dias úteis, um sinal de que a oferta atende a demanda imediata, mas ainda não permite grande conforto para a indústria. Clique aqui para seguir o canal do CompreRural no Whatsapp Haras Frange anuncia 5º Leilão com genética mundial e experiência de luxo no Palácio Tangará Boi gordo recua em São Paulo
Em São Paulo, principal referência do mercado pecuário nacional, os preços voltaram a ceder nesta segunda-feira. De acordo com a Agrifatto, tanto o boi comum quanto o chamado “boi-China' recuaram R$ 5/@, chegando a R$ 335/@, no prazo.
Já o levantamento da Scot Consultoria apontou o boi gordo destinado ao mercado interno cotado a R$ 333/@, enquanto o boi-China ficou em R$ 338/@. A vaca gorda foi indicada a R$ 312/@ e a novilha terminada a R$ 325/@, todos valores brutos e a prazo.
A leitura das consultorias mostra que o mercado não vive uma queda generalizada por excesso de oferta, mas sim um ajuste provocado por menor apetite comprador, margens industriais pressionadas e incertezas sobre o comportamento da demanda externa. O efeito China pesa sobre a arroba
O principal fator de pressão neste momento é o esgotamento antecipado da cota chinesa de importação de carne bovina brasileira com isenção tarifária. Com isso, novos embarques para o principal destino da carne do Brasil passam a enfrentar custo adicional, reduzindo a competitividade do produto nacional.
Segundo a Agrifatto, eventuais exportações adicionais para a China ficam sujeitas à tarifa de 55%, o que desestimula novos negócios e altera a dinâmica de compra dos frigoríficos habilitados à exportação.
Na prática, o “boi-China', que normalmente carrega prêmio em relação ao animal destinado ao mercado interno, perde parte da sustentação quando há menor urgência da indústria em formar lotes voltados ao embarque. Isso reduz a disputa por animais jovens, bem acabados e rastreáveis, justamente os que vinham ajudando a segurar as cotações em algumas regiões. Frigoríficos reduzem ritmo, mas não conseguem alongar muito as escalas
Mesmo com plantas trabalhando em ritmo mais lento, férias coletivas em alguns casos e maior ociosidade industrial, as escalas de abate continuam relativamente curtas. Para a Agrifatto, esse comportamento revela uma indústria mais cautelosa na compra de matéria-prima, mas também mostra que o pecuarista ainda resiste em entregar grandes volumes nos preços propostos.
Esse é o ponto de equilíbrio do mercado neste início de semana: de um lado, frigoríficos pressionam para baixo; de outro, a oferta de boiada terminada não é suficiente para provocar escalas longas em todo o país. Com isso, o mercado fica travado, com poucos negócios efetivos e grande diferença entre preço pedido pelo pecuarista e preço ofertado pela indústria. Cotações médias nas principais praças
De acordo com levantamento divulgado pela Safras & Mercado, as referências médias do boi gordo abriram a semana nos seguintes patamares: São Paulo: R$ 327,33/@ Goiás: R$ 314,50/@ Minas Gerais: R$ 310,18/@ Mato Grosso do Sul: R$ 316,14/@ Mato Grosso: R$ 318,58/@
Os números mostram um mercado pressionado, mas ainda com diferenças importantes entre as regiões. Estados com maior presença de frigoríficos exportadores tendem a sentir mais rapidamente o impacto da China, enquanto praças mais dependentes do mercado interno respondem também ao ritmo do consumo doméstico. Atacado também perde força
No atacado, a carne bovina iniciou a semana com preços acomodados. Segundo a Safras & Mercado, a eliminação precoce da seleção brasileira na Copa do Mundo reduziu a expectativa de um impulso adicional no consumo, especialmente para cortes associados a churrasco e confraternizações.
Além disso, a carne bovina segue enfrentando perda de competitividade frente a proteínas mais baratas, principalmente o frango. Esse fator limita repasses no atacado e reduz o espaço para frigoríficos aceitarem pagar mais pela arroba.
As referências no atacado ficaram em:
Quarto dianteiro: R$ 20,00/kg Quarto traseiro: R$ 25,50/kg Ponta de agulha: R$ 18,50/kg União Europeia adiciona incerteza ao mercado
Outro ponto de atenção vem da possibilidade de interrupção, a partir de setembro de 2026, dos embarques de carne bovina brasileira destinados à União Europeia, conforme análise da Agrifatto. Ainda que a China siga sendo o principal termômetro da exportação, qualquer ruído envolvendo mercados premium aumenta a percepção de enfraquecimento da demanda externa.
Para o pecuarista, isso significa um ambiente de maior volatilidade. A indústria tende a operar com mais cautela enquanto não houver clareza sobre o ritmo das exportações, a abertura de novas cotas e a capacidade de absorção do mercado interno. O que esperar da arroba nos próximos dias?
No curto prazo, o viés ainda é de pressão sobre os preços, principalmente enquanto os frigoríficos mantiverem menor apetite comprador e o mercado externo seguir menos agressivo. No entanto, a sustentação parcial das cotações pode vir das escalas ainda curtas e da resistência do pecuarista em negociar nos menores patamares ofertados.
A leitura de mercado é que a arroba pode continuar trabalhando de lado a levemente pressionada nas próximas semanas, com ajustes pontuais por praça. A recuperação mais consistente dependerá de três fatores: retomada dos embarques, melhora da demanda doméstica e redução da disponibilidade de boiadas terminadas.
Para o quarto trimestre, a Agrifatto avalia que pode haver maior sustentação da arroba com a reabertura da cota chinesa de 2027, o que tende a reorganizar o fluxo de exportações e devolver parte do apetite comprador da indústria.
Até lá, o mercado segue em compasso de espera. A queda da arroba existe, mas não é livre: frigoríficos pressionam, o consumo limita reação, a China pesa no humor dos negócios, mas as escalas curtas ainda impedem uma queda mais agressiva em todo o país.
*Escrito por Compre Rural Notícias




