Anvisa nega equivalência de “canetas emagrecedoras” do Paraguai com medicamentos registrados no Brasil

Agência afirma que presença da tirzepatida, por si só, não comprova que as canetas paraguaias sejam equivalentes aos medicamentos aprovados no Brasil; entenda

BATANEWS/VEJA


'Mounjaro paraguaio': produtos não têm equivalência com medicamentos registrados no país (Getty Images/Reprodução)

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta sobre as “canetas emagrecedoras” fabricadas no Paraguai e contrabandeadas no Brasil. Em nota publicada no portal do Governo Federal, a agência informou que esses produtos não têm equivalência com medicamentos registrados no país.

Para garantir que um remédio é equivalente a outro, é necessário realizar o chamado teste de biodisponibilidade, que mede a quantidade e a velocidade com que um medicamento entra na corrente sanguínea, garantindo que o princípio ativo chegue ao local de ação no corpo na dose correta e no tempo certo.

Essa avaliação não foi feita pela análise encomendada ao Centro de Informação e Assistência Toxicológica da Unicamp (CIATox), segundo a Anvisa. “O teste não avaliou a biodisponibilidade. Esse é o dado mais relevante para dizer que um medicamento funciona do mesmo jeito que outro”, afirmou o órgão.

Entenda

O alerta vem logo após a divulgação dos resultados de uma análise independente feita por pesquisadores da Unicamp a pedido do jornal Folha de São Paulo. Segundo reportagem publicada no site do veículo em 4 de julho, a análise verificou concentração e estrutura molecular de “canetas emagrecedoras” fabricadas no Paraguai e identificou a presença do princípio ativo tirzepatida, que é o mesmo princípio ativo do Mounjaro, mas não conseguiu avaliar pureza, eficácia e segurança.

O comunicado da Anvisa reforça que a ausência do teste de biodisponibilidade e de análise de impurezas não permitem avaliar a equivalência desses produtos com os remédios registrados no Brasil.

“Uma análise laboratorial, sem conhecimento de informações que só o fabricante detém acerca do produto (como processo de síntese, impurezas possíveis, perfil de degradação etc.), não traz informações confiáveis, principalmente sobre o conteúdo do fármaco e de impurezas“, diz a nota publicada pela agência.

Além disso, o órgão afirma que o CIATox não é um centro de bioequivalência credenciado no Brasil e não faz parte da Rede Brasileira de Laboratórios Analíticos em Saúde. As empresas fabricantes dos produtos analisados pela Unicamp também não foram avaliadas na linha de produção, o que, segundo a Anvisa, afeta diretamente a qualidade do produto final.

“E [as empresas] não foram avaliadas pela Anvisa, que não teve acesso aos laudos nem às metodologias quanto à certificação de Boas Práticas de Fabricação (BPF), etapa essencial para assegurar a qualidade da fabricação de medicamentos”, acrescentou a nota.

Riscos

Encontrar tirzepatida numa amostra não torna o produto seguro, eficaz ou equivalente ao medicamento de referência. Confirmar que um medicamento é seguro e eficaz depende de um conjunto de evidências que vai muito além de encontrar uma molécula em ampolas. Envolve, por exemplo, perfil de impurezas, processo de síntese, validação analítica, estabilidade e reprodutibilidade lote a lote.

Em sua coluna ‘Na Veia‘, em VEJA, o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri explica que dois produtos podem conter a mesma molécula e, ainda assim, apresentar diferenças importantes na pureza, na concentração, na estabilidade e até no comportamento clínico.

Segundo Couri, produzir um peptídeo injetável exige rigoroso controle de concentração, pureza, esterilidade, estabilidade, armazenamento e fabricação. No estudo, porém, algumas amostras apresentaram desvios importantes na concentração do princípio ativo — uma delas, 60% acima do informado pelo fabricante —, variações que excedem os limites aceitos pela Anvisa e podem expor pacientes a riscos, como efeitos adversos mais intensos e hipoglicemia.

Para o especialista, concluir que esses produtos são equivalentes ao medicamento de referência apenas porque contêm a mesma molécula é uma interpretação equivocada e potencialmente perigosa. “Padrões como esses não seriam aceitos por nenhum fabricante regularizado, o que torna difícil confiar na qualidade desses produtos”, afirmou Couri.

Embora os produtos tenham registro válido na Dinavisa, autoridade sanitária do Paraguai, esse registro não é automaticamente reconhecido no Brasil. Para ser comercializado no país, um medicamento precisa passar por uma avaliação própria da Anvisa, que analisa critérios de qualidade, segurança e eficácia.

Couri recomenda que pacientes utilizem apenas medicamentos com registro sanitário pela Anvisa e façam o tratamento sob acompanhamento médico, evitando produtos cuja qualidade ainda não tenha sido comprovada segundo os padrões exigidos pela agência reguladora brasileira.