Cotidiano
O efeito Copa: como Cabo Verde saiu do anonimato para virar sonho de viagem
Bastou uma campanha histórica na Copa do Mundo para que a curiosidade global explodisse
BATANEWS/VEJA
Dados do Google Trends mostram que as buscas por “voos para Cabo Verde” atingiram o maior nível já registrado.
O país também liderou o crescimento nas pesquisas por pacotes turísticos e resorts all inclusive na última semana, enquanto consultas por roteiros de viagem para o arquipélago (“Cabo Verde itinerário”) dispararam desde o início do Mundial.
O interesse acompanha uma trajetória improvável dentro de campo.
Com cerca de 500 mil habitantes, população menor que a de cidades brasileiras como Niterói ou Blumenau, Cabo Verde estreou em uma Copa do Mundo justamente nesta edição e rapidamente conquistou o posto de seleção favorita dos neutros.
Empatou com gigantes como Espanha e Uruguai, avançou para o mata-mata e só foi eliminada após uma dramática derrota por 3 a 2 para a Argentina na prorrogação. Tornou-se o menor país da história a chegar às fases eliminatórias de um Mundial.
A repercussão foi imediata fora dos gramados.
Além do recorde registrado pelo Google Trends, empresas do setor de turismo também passaram a notar uma mudança de comportamento dos viajantes.
A operadora europeia TUI informou que as pesquisas pelo destino praticamente dobraram durante a Copa.
Dados do Skyscanner apontam aumentos superiores a 100% nas buscas por voos em diversos mercados europeus, enquanto a Expedia registrou um salto superior a 800% nas pesquisas feitas por turistas americanos interessados em conhecer o arquipélago.
Um país que vivia do turismo, mas quase só para europeus
O curioso é que Cabo Verde já depende fortemente do turismo.
O setor responde por aproximadamente um quarto do PIB , mas permanece concentrado em visitantes vindos da Europa e em apenas duas das nove ilhas habitadas. Grande parte dos turistas chega em pacotes all inclusive vendidos por grandes operadoras internacionais, o que limita a circulação de dinheiro na economia local.
A Copa, porém, colocou o arquipélago diante de um público completamente novo.
Milhões de pessoas ouviram o nome do país repetidas vezes durante as transmissões, viram imagens de praias vulcânicas, bandeiras coloridas e da festa dos torcedores.
Em seguida veio o comportamento típico da internet: pesquisar no Google.
Primeiro aparece a pergunta mais básica: “Onde fica Cabo Verde?”. Depois surgem dúvidas sobre idioma, praias, clima, hotéis, gastronomia e passagens aéreas.
É exatamente esse efeito em cascata que especialistas em marketing turístico chamam de destination discovery : quando um evento global apresenta um país inteiro a pessoas que jamais haviam pensado em visitá-lo.
O “efeito Islândia” em versão africana
Não é a primeira vez que o futebol muda o mapa do turismo.
A Islândia viveu uma explosão de visitantes depois da Eurocopa de 2016 e da Copa de 2018. O Marrocos experimentou um fenômeno semelhante após a campanha histórica no Mundial do Catar, quando chegou às semifinais e virou símbolo do futebol africano.
Agora, tudo indica que Cabo Verde pode seguir o mesmo caminho.
O governo já havia preparado uma estratégia para aproveitar a estreia na Copa como vitrine internacional, transformando o torneio em uma campanha global de promoção do país.
Para um arquipélago formado por dez ilhas vulcânicas em pleno Atlântico, conhecido por praias de areia clara, montanhas, música e forte influência da cultura portuguesa e africana, a Copa pode render um prêmio muito maior do que qualquer troféu: tornar-se um novo destino turístico no imaginário mundial.
No fim das contas, talvez essa seja uma das maiores vitórias de Cabo Verde. A seleção foi eliminada. O país, não.
Pelo contrário: acaba de entrar na lista de lugares que milhões de pessoas passaram a sonhar em conhecer.




