Canetas emagrecedoras e herpes: o alerta que vem de uma nova análise com milhares de usuários

Estudo com quase 100 000 prontuários médicos revela efeito colateral pouco conhecido no tratamento do excesso de peso e do diabetes; mas há prevenção

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Herpes-zóster: reativação do vírus da catapora pode ser mais comum entre pessoas com diabetes que usam canetas (Science Photo Library/SPL DC/Latinstock/VEJA/VEJA)

As canetas revolucionaram o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade e viraram um dos maiores sucessos de venda da indústria farmacêutica. Mas um novo estudo acende um alerta que ainda passava despercebido entre usuários e médicos. Esses medicamentos continuam sendo considerados seguros, só que podem estar associados a um maior risco de desenvolver infecções por herpes simples e herpes-zóster entre pessoas com diabetes.

A pesquisa, conduzida por cientistas de universidades de Taiwan, mirou a classe dos agonistas de GLP-1, classe que inclui semaglutida, liraglutida, dulaglutida e outras moléculas. Eles vasculharam prontuários eletrônicos de 64 organizações de saúde nos Estados Unidos, acompanhando, ao todo, mais de 5 milhões de pessoas diagnosticadas com diabetes entre 2015 e 2022.

Como seria antiético escolher pacientes para tomar um remédio ou outro só para ver quem pega herpes, os pesquisadores usaram uma técnica chamada emulação de ensaio clínico-alvo: eles recriaram, com dados observacionais, as condições de um estudo controlado.

Para isso, compararam pessoas que começaram a usar as canetas terapêuticas com pessoas que começaram a usar outras duas classes de remédios para diabetes — os inibidores de DPP-4 (iDPP4) e os inibidores de SGLT-2 (iSGLT2) — pareando cuidadosamente idade, sexo, raça, comorbidades e outros fatores para que os grupos fossem o mais parecidos possível, exceto pelo medicamento em si.

Ao final, os estudiosos compararam 95.190 pares de usuários de GLP-1 e iDPP-4 e 82.789 pares de usuários de GLP-1 e iSGLT-2. Comparados a quem usava iDPP-4, os pacientes em uso de GLP-1 tiveram uma chance 39% maior de desenvolver herpes simples e 29% maior de desenvolver herpes-zóster. Na comparação com os usuários de iSGLT-2, o aumento de risco foi de 28% para herpes simples e 18% para herpes-zóster.

Vale destacar: são riscos relativos, não absolutos. Isso significa que, mesmo com esse aumento percentual, a maioria esmagadora dos pacientes em uso de GLP-1 não vai desenvolver herpes por causa do medicamento — mas o sinal estatístico é consistente o suficiente para merecer atenção clínica.

Dois grupos se mostraram particularmente mais vulneráveis. Pacientes mais jovens, entre 18 e 50 anos, tiveram risco bem mais elevado de herpes zóster (63% maior) do que os mais velhos. E entre as mulheres, o risco de herpes simples associado ao GLP-1 chegou a 51% maior — um padrão que não apareceu entre os homens.

Os autores especulam que hormônios como o estrogênio, que interagem com os receptores de GLP-1, possam explicar essa diferença por sexo, embora o mecanismo exato ainda precise ser confirmado.

Pacientes com controle glicêmico ruim também apresentaram risco maior de desenvolver herpes simples, reforçando que o descontrole do diabetes por si só já fragiliza as defesas do organismo.

Canetas emagrecedoras e o futuro da luta contra obesidade
Hipóteses a considerar

Os próprios pesquisadores reconhecem que o mecanismo exato ainda não está totalmente esclarecido, mas apontam algumas hipóteses. A principal está ligada a uma via metabólica que os GLP-1 ativam como parte do seu funcionamento no organismo. Essa via estimula a proliferação de linfócitos T reguladores — células de defesa que, paradoxalmente, podem “segurar” demais a resposta imune e facilitar a reativação de vírus que ficam adormecidos no corpo, como o da varicela, causador tanto da catapora quanto do herpes-zóster (vulgo cobreiro).

Mas essa não é a única explicação possível. Outras hipóteses, levantadas por especialistas ao comentar esse tipo de achado, incluem o efeito da perda de peso rápida e intensa provocada pelos GLP-1, que por si só pode impor um estresse metabólico ao corpo e reduzir temporariamente a eficiência do sistema imunológico.

Some-se a isso outro fator conhecido do uso desses medicamentos: a redução do apetite pode levar, em alguns pacientes, a uma ingestão insuficiente de nutrientes essenciais — como vitaminas do complexo B, zinco e proteínas, que também têm papel direto na capacidade de defesa do organismo contra vírus.

A combinação desses fatores, e não necessariamente um único mecanismo isolado, pode ajudar a explicar por que o risco de herpes aparece elevado nesse grupo de pacientes.

A boa notícia: tem vacina

O achado mais importante do estudo, do ponto de vista prático, talvez seja este: entre os pacientes que já haviam tomado a vacina contra herpe-zóster antes de começar o GLP-1, a maior propensão simplesmente desapareceu. Não houve diferença estatisticamente significativa em relação a quem usava os outros medicamentos para diabetes. Já entre os não vacinados, o risco se manteve firme.

Os autores reforçam que tanto a vacina de vírus vivo atenuado (Zostavax) quanto a recombinante (Shingrix) ofereceram proteção comparável nesse contexto.

Na prática, a mensagem para quem já usa ou está prestes a iniciar um tratamento com GLP-1 não é de pânico, mas de prevenção: colocar em dia a vacina contra herpes-zóster pode ser a diferença entre aproveitar os benefícios metabólicos do remédio sem sustos para a imunidade e a pele – por ora, ainda não temos vacina para o herpes simples.

Por falar em vacina, o imunizante para herpes-zóster está indicado de forma rotineira a pessoas a partir dos 50 anos. E, para pessoas com doenças crônicas como diabetes, a orientação da Sociedade Brasileira de Imunizações já é utilizar o produto a partir dos 18 anos, uma vez que essas condições interferem no sistema imunológico.

Por enquanto, as vacinas para herpes-zóster não estão disponíveis pelo SUS – são encontradas em clínicas da rede privada.