O hábito de acelerar áudio cobra um preço que ninguém avisou | Planeta IA

Você economiza alguns minutos, mas isso tem custo: aumenta o esforço mental, prejudica a memória e acostuma o cérebro a estímulos cada vez mais rápidos

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Ansiedade, estresse e dificuldade de se concentrar estão entre os efeitos colaterais de consumir conteúdos na velocidade 2x (Alvaro Leme/Midjourney/Reprodução)

A gente se acostumou a passar cada minuto de cada dia pisando no acelerador. Seja no Whatsapp, em podcasts, videoaulas… Virou um hábito corriqueiro rodar áudios e outros conteúdos em alta velocidade. Mas isso tem um preço para nosso corpo, especialmente quanto à saúde mental.

Veja os impactos na lista abaixo.

Aumenta a sobrecarga mental

Em um experimento com 76 universitários, vídeos exibidos em velocidades maiores aumentaram a carga cognitiva (esforço que o cérebro precisa fazer para compreender, organizar e guardar uma informação). Na velocidade 2x, os participantes também tiveram desempenho inferior num teste feito depois de uma aula. O corpo dedica tanta energia a acompanhar a rapidez que sobra menos espaço para organizar as ideias.

Faz você lembrar menos do que ouviu

A pessoa termina mais rápido, mas uma parcela maior da informação se perde antes de chegar à memória de longo prazo. Outro estudo com universitários comparou histórias ouvidas em velocidade normal e em 2x. No ritmo original, os participantes acertaram 68,1% das perguntas sobre o conteúdo. No áudio acelerado, a média caiu para 41,1%.

Prejudica a aprendizagem 

Diante de informações novas, precisamos de tempo para ligar uma ideia à seguinte. Em velocidades muito altas, esse processo fica comprometido, e ouvir não significa necessariamente aprender.

Fragmenta a capacidade de concentração

O cérebro se adapta aos estímulos que recebe. Quando se acostuma com cortes e novidades a cada poucos segundos, sustentar o foco numa aula, reunião, leitura ou conversa longa pode ficar mais difícil.

Diminui a capacidade de focar num conteúdo só

Muita coisa que a gente vê ou lê é importante, por isso PRECISA ser consumida até o final. E isso fica cada vez mais difícil. O hábito de acelerar, avançar ou deslizar a tela torna difícil tolerar alguns segundos de lentidão. A vontade de procurar outro estímulo aparece antes mesmo de o conteúdo atual terminar.

Faz você esquecer atividades planejadas

A gente tem uma coisa chamada memória prospectiva, habilidade usada para lembrar de responder uma mensagem, pagar uma conta ou realizar algo mais tarde. Ela também pode ser afetada pelo excesso de conteúdos em alta velocidade. Já reparou como você tem esquecido várias coisas ao longo do dia? Pode ser o abuso de aceleração.

Mais estresse e ansiedade

O consumo intenso de vídeos curtos está diretamente associado a mais ansiedade, estresse, solidão e tédio. Essa foi uma das conclusões de uma grande pesquisa que  analisou dados de 58 estudos, com quase 97 mil participantes. Quanto mais compulsivo o consumo, maior o desgaste emocional.

Aumenta o tédio que deveria combater

A busca permanente por estímulo impede que a atenção mergulhe em uma experiência. Em vez de eliminar o tédio, o consumo acelerado cria a sensação de que nada consegue prender a atenção por muito tempo.

Torna o ritmo normal cada vez menos suportável

Quando o cérebro se habitua a vozes em 2x, cortes rápidos e mudanças constantes, uma conversa comum, uma aula presencial ou um filme mais lento podem parecer demorados demais. Experimentos recentes também associaram a reprodução acelerada a menor satisfação. O hábito muda nossa expectativa de velocidade e transforma atividades normais em experiências percebidas como lentas.

Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda