A valsa do Centrão sob os olhares de Lula e Flávio Bolsonaro

Eventual neutralidade desse grupo, que nunca fecha as portas para quem tem expectativa de poder, será boa notícia para o presidente

BATANEWS/VEJA


Ciro Nogueira (PP-PB) e Antonio Rueda (União Brasil-PE), no lançamento da federação União Progressista (Reprodução/Divulgação)

Em abril do ano passado, o Progressistas e o União Brasil, os dois principais expoentes do Centrão, se uniram numa federação partidária, anunciada na época como a maior força política do Congresso, com 109 deputados e 14 senadores, e uma das mais poderosas redes eleitorais do país, composta por 6 governadores, 1350 prefeitos e mais de 12 000 vereadores.

A federação tinha dois objetivos. Um era continuar a dar as cartas nas votações na Câmara e no Senado, deixando reféns dos interesses do Centrão tanto o governista PT quanto o oposicionista PL. A outra meta era fazer da nova agremiação a noiva mais cobiçada da eleição presidencial.

No roteiro inicial, a federação serviria de máquina eleitoral para o nome da direita que tentaria impedir a reeleição do presidente Lula. O preferido do grupo para liderar a chapa era o governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas. Para vice, cogitava-se o senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas, que traçava as estratégias em parceria com o comandante do União Brasil, Antônio Rueda.

Mudança de planos

Uma série de eventos obrigou a cúpula da federação a reajustar a rota. Jair Bolsonaro preteriu Tarcísio de Freitas e escolheu o senador Flávio Bolsonaro para concorrer ao Palácio do Planalto, desagradando aos líderes do Centrão. Foi o primeiro momento de instabilidade nas negociações entre as partes.

Depois, apurações da Polícia Federal revelaram detalhes das relações de Daniel Vorcaro — dono do Banco Master e protagonista da maior fraude bancária da história do país — com Ciro Nogueira e Antônio Rueda. O senador esperava um gesto de solidariedade de Flávio Bolsonaro, que não o acudiu. Investigados, os caciques da federação decidiram submergir. Num palanque no Piauí, onde disputará a reeleição para o Senado, Ciro Nogueira até acenou para Lula.

A recuperação do presidente nas pesquisas e a sucessão de trapalhadas de Flávio e do clã Bolsonaro também contribuíram para que Progressistas e União Brasil pisassem no freio. Hoje, a tendência da federação é a neutralidade na campanha presidencial. Ou seja: não dar apoio formal a nenhum candidato.

Se isso for confirmado, será uma boa notícia para Lula. O presidente nunca teve a esperança de contar em sua coligação com partidos de Centro. Ele sempre apostou na estratégia de fomentar a cizânia dentro dessas legendas, para que uma parte delas trabalhasse por ele — e impedisse a sigla de embarcar formalmente numa chapa da direita. Foi por isso que Lula distribuiu ministérios e estatais para políticos do Progressistas, do União Brasil e do Republicanos.

Vantagem preciosa

Caso a neutralidade de Progressistas, União Brasil e Republicanos se confirme, o presidente terá mais tempo na propaganda eleitoral de TV do que Flávio Bolsonaro: 5 minutos e 32 segundos contra 4 minutos e 20 segundos.

Lula também colherá uma vitória simbólica, já que sua aliança terá a participação de sete legendas, enquanto o Zero Um marchará sozinho com o PL. Numa tentativa de reverter esse quadro, o senador procurou Ciro Nogueira para buscar o apoio da federação, mas, por enquanto, não conseguiu fechar um acordo. Ele também está conversando com o presidente do Republicanos, Marcos Pereira.

Eventual entrada do Republicanos na chapa mais competitiva da oposição tiraria o primogênito de Jair Bolsonaro do isolamento e lhe daria vantagem sobre Lula na propaganda eleitoral: 5 minutos e 16 segundos contra 4 minutos e 51 segundos. É menos do que Flávio Bolsonaro esperava conseguir com a adesão da federação e da totalidade do Centrão, mas melhor do que nada. Na mesa de negociação, o primogênito do capitão está em desvantagem.