Pouco explorada, biodiversidade brasileira pode abrir nova fronteira para a indústria de alimentos

Com investimento de R$ 10 milhões, Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Alimentos vai pesquisar espécies nativas, desenvolver ingredientes funcionais e aproximar ciência do setor produtivo.

BATANEWS/OPR


Foto: Denis Ferreira Netto

A biodiversidade brasileira ainda é pouco explorada como fonte de alimentos e ingredientes de alto valor agregado. Embora o país concentre uma das maiores riquezas biológicas do mundo, apenas uma pequena parcela das espécies nativas é utilizada na alimentação, e o aproveitamento para a produção de alimentos funcionais, aqueles que oferecem benefícios à saúde além do valor nutricional, é ainda mais restrito.

Para mudar esse cenário, foi criado o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Alimentos (INCT FoRC), iniciativa coordenada pela Universidade de São Paulo (USP) que pretende ampliar o uso sustentável da biodiversidade brasileira, desenvolver novos ingredientes e tecnologias e fortalecer as cadeias produtivas do setor, desde o produtor rural até a indústria de alimentos.

Além da USP, o instituto reúne pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), Fundecitrus, startups e parceiros internacionais.

Da pesquisa ao mercado

A proposta do INCT FoRC é integrar competências que hoje atuam de forma dispersa, aproximando pesquisas básicas e aplicações práticas. O trabalho vai desde a identificação de compostos bioativos presentes em espécies vegetais brasileiras até estudos clínicos em seres humanos, passando pelo desenvolvimento de processos biotecnológicos sustentáveis e pela avaliação dos impactos econômicos, sociais e ambientais das cadeias produtivas. “O INCT FoRC consolida um modelo de pesquisa e desenvolvimento que aprendemos a construir ao longo dos últimos anos: conseguimos reunir especialistas de diferentes áreas em torno de problemas comuns. Isso torna a ciência mais forte e aumenta nossa capacidade de gerar soluções para a sociedade”, ressalta a coordenadora-geral do instituto, Bernadette Franco, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.

Coordenadora-geral do INCT FoRC, Bernadette Dora Gombossy de Melo Franco, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP: ” Além de gerar conhecimento, atuaremos junto aos produtores rurais na identificação de gargalos, na qualificação técnica e no desenvolvimento de soluções que fortaleçam as cadeias produtivas da biodiversidade brasileira” – Foto: Marcos Santos/USP

Segundo a pesquisadora, o objetivo vai além da produção científica. “Queremos estudar toda a jornada dos alimentos, desde a sua condição na natureza até sua aplicação para a melhoria da saúde humana e da produção sustentável. Além de gerar conhecimento, atuaremos junto aos produtores rurais na identificação de gargalos, na qualificação técnica e no desenvolvimento de soluções que fortaleçam as cadeias produtivas da biodiversidade brasileira”, destaca.

Três frentes de atuação

As pesquisas do instituto serão desenvolvidas em três eixos principais. O primeiro será dedicado à prospecção da biodiversidade vegetal brasileira e à investigação dos efeitos de compostos bioativos sobre a saúde humana. O segundo concentrará esforços no desenvolvimento de processos biotecnológicos para obtenção de novos ingredientes e alimentos. Já o terceiro buscará aproximar ciência, produtores rurais e setor produtivo, avaliando impactos socioeconômicos, promovendo capacitação e propondo estratégias para fortalecer as cadeias ligadas à biodiversidade.

Entre as metas estão ampliar a produção científica, estimular a inovação e a geração de propriedade intelectual, formar pesquisadores e desenvolver ações de educação voltadas à alimentação sustentável.

Para o vice-coordenador-geral do instituto, Eduardo Purgatto, também professor da USP, a participação de empresas e Vice-coordenador-geral do INCT FoRC e professor da USP, Eduardo Purgatto: “A participação de empresas de base tecnológica, startups e instituições ligadas à produção agrícola permite direcionar parte das pesquisas para desafios concretos enfrentados pelas cadeias produtivas da biodiversidade brasileira” – Foto: Divulgação/USP

startups amplia as possibilidades de transformar conhecimento em soluções para o mercado. “A participação de empresas de base tecnológica, startups e instituições ligadas à produção agrícola permite direcionar parte das pesquisas para desafios concretos enfrentados pelas cadeias produtivas da biodiversidade brasileira, favorecendo a transferência do conhecimento para aplicações práticas”, afirma.

Investimento de R$ 10 milhões

O INCT FoRC é resultado da evolução do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC), criado em 2014 com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Para os próximos cinco anos, o novo instituto contará com orçamento de R$ 10 milhões, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela Fapesp e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

A expectativa é ampliar a integração entre universidades, centros de pesquisa, empresas e produtores rurais, acelerando a transformação da biodiversidade brasileira em novos alimentos, ingredientes e tecnologias capazes de agregar valor à produção agropecuária e fortalecer a competitividade do setor.