O câncer de pulmão está entre nós – e ainda não olhamos o suficiente para ele

Maioria dos brasileiros com a doença a descobre em estágio avançado; incluir o problema na agenda de saúde do país é crítico, defende especialista em artigo

BATANEWS/VEJA / LUCIANA HOLTZ*


 (Foto: GI/Getty Images)

Todos os anos, cerca de 35 mil brasileiros recebem o diagnóstico de câncer de pulmão. Mais de 30 mil pessoas morrem em decorrência da doença. Mas talvez o dado que mais devesse incomodar e no mobilizar a sociedade seja outro: cerca de 87% dos pacientes iniciam o tratamento quando o câncer já está em estágios avançados.

Diante desses números, é inevitável fazer uma pergunta: por que uma doença com tamanho impacto ainda não ocupa um lugar prioritário na agenda da saúde brasileira?

Nos últimos anos, aprendemos que campanhas de conscientização podem transformar realidades. Elas ampliam o conhecimento da população, reduzem estigmas, estimulam o diagnóstico precoce e ajudam a impulsionar políticas públicas. O Outubro Rosa é um excelente exemplo disso. Hoje, falar sobre câncer de mama faz parte da rotina de milhões de brasileiros.

O câncer de pulmão também precisa conquistar esse espaço.

Durante muito tempo, a conversa sobre essa doença ficou quase exclusivamente associada ao tabagismo. E é importante dizer: o controle do tabaco continua sendo uma das mais importantes estratégias de prevenção em saúde pública e deve permanecer como prioridade.

Mas o câncer de pulmão é maior do que essa discussão.

Precisamos falar sobre sinais e sintomas que merecem atenção, diagnóstico oportuno, rastreamento para pessoas com maior risco, acesso à testagem molecular e aos avanços científicos que transformaram o tratamento da doença nos últimos anos. E precisamos, sobretudo, combater o estigma que ainda acompanha muitos pacientes.

Hoje, o câncer de pulmão já não é o mesmo de uma década atrás. A medicina de precisão, a testagem molecular, as terapias-alvo e a imunoterapia mudaram significativamente as perspectivas de tratamento para muitos pacientes. A ciência avançou. O desafio agora é garantir que esse avanço chegue às pessoas.

Ao mesmo tempo, só conseguimos priorizar aquilo que conhecemos. Conhecer os números, traduzir e acompanhar indicadores e identificar desigualdades é essencial para orientar políticas públicas e avaliar se estamos avançando na direção certa.

É com esse objetivo que o Instituto Oncoguia acaba de atualizar o Radar do Câncer de Pulmão, reunindo dados públicos que ajudam a compreender melhor a realidade da doença no país.

Esse mesmo compromisso motivou a criação da lei do Agosto Branco, o mês nacional de conscientização sobre o câncer de pulmão. Mais do que uma campanha, ele representa uma oportunidade para ampliar uma conversa que já deveria fazer parte da agenda da saúde brasileira.

Nenhum desses desafios será resolvido por uma única campanha.

Mas toda grande mudança começa quando um tema passa a receber a atenção compatível com sua importância. O câncer de pulmão já ocupa esse lugar nas estatísticas. Está na hora de ocupar também esse lugar nas nossas prioridades.

* Luciana Holtz é psicóloga especialista em oncologia e presidente do Instituto Oncoguia