Canetas emagrecedoras e câncer: o que se sabe até o momento

Estudos levantam hipótese de um possível efeito protetor, mas ainda faltam muitas peças no tabuleiro

BATANEWS/FOLHA


Olho no câncer: trabalhos avaliam dados populacionais e a biologia das células tumorais (Ilustração: Veja Saúde/VEJA)

A obesidade já é fator de risco reconhecido para pelo menos 13 tipos de câncer, respondendo por cerca de 40% dos diagnósticos oncológicos nos Estados Unidos, segundo o CDC. Faz sentido perguntar se emagrecer com as novas canetas reduziria esse risco, e se elas fazem algo além disso. Vejamos o que as pesquisas apontam até o momento.

Um estudo publicado na revista médica JAMA Oncology, liderado por pesquisadores usando um banco de dados com cerca de 43 mil usuários de remédios à base de GLP-1 pareados com igual número de não usuários, todos com obesidade, encontrou incidência geral de câncer cerca de 17% menor entre adeptos do medicamento (13,6 vs. 16,4 casos por 1.000 pessoas por ano ano).

As quedas mais expressivas foram em câncer de endométrio (~25% menor), ovário (~47% menor) e meningioma (~31% menor). Mas houve um sinal em direção contrária: risco de câncer renal cerca de 38% maior entre usuários — um achado que os próprios autores dizem precisar de mais investigação.

Outro estudo, publicado em periódico da rede JAMA com 1,6 milhão de pacientes com diabetes tipo 2, comparou o GLP-1 contra insulina e contra metformina – dois tratamentos clássicos para a glicemia elevada. Ante a  insulina, houve redução de risco em 10 dos 13 cânceres ligados à obesidade (esôfago, colorretal, endométrio, vesícula biliar, rim, fígado, ovário, pâncreas, meningioma e mieloma múltiplo). Contra metformina — remédio bem mais antigo e barato — não houve diferença. Ou seja: parte do “benefício” pode ser só a insulina sendo pior, não o GLP-1 sendo excepcional.

Canetas emagrecedoras e o futuro da luta contra obesidade

O dado mais chamativo é de sobrevida em câncer de mama: um estudo de 2026 na JAMA Network Open, liderado pelo médico Bernard Fuemmeler, da Virginia Commonwealth University, acompanhou mais de 841 mil mulheres com câncer de mama em estágio I a III.

Entre as com obesidade, o uso de GLP-1 associou-se a mortalidade 65% menor e sobrevida livre de recorrência do tumor 56% maior em dez anos. Entre as com diabetes, a redução de mortalidade chegou a 91% na comparação com insulina ou metformina.

Só que aqui entra o contraponto que não pode faltar: especialistas independentes questionaram publicamente esses números. Matt Spick, cientista de dados em saúde da University of Surrey, classificou  o resultado como “bandeira vermelha” e definiu o tamanho do efeito como pouco plausível.

O argumento é o viés do “usuário saudável”: pessoas capazes de manter um tratamento injetável caro e prolongado tendem a ser, em média, mais saudáveis e cuidadosas ter melhor acesso a assistência médica  — o que por si só explicaria parte da diferença, sem que a droga tenha efeito direto contra o tumor. É um estudo observacional; os próprios autores pedem confirmação em ensaios controlados, que ainda não existem.

Vale reforçar que a biologia não sustenta uma história simples de “GLP-1 é bom contra qualquer câncer”: uma análise da expressão do receptores de GLP-1 em diferentes tumores – sim, entradas para o hormônio nas células cancerosas – mostrou associação com melhor sobrevida em cânceres de bexiga, mama, esôfago, rim e tireoide — mas com pior sobrevida em cânceres de colo de útero, pulmão (células escamosas), estômago e endométrio.

E sobre a própria tireoide: essa é a razão da bula trazer alerta desde o início, baseado em tumores de células C observados em roedores. Uma revisão de ensaios clínicos com mais de 14 mil pacientes tratados com semaglutida encontrou incidência de câncer de tireoide abaixo de 1%, sem sinal de risco aumentado em humanos até agora — um dado tranquilizador que equilibra o alerta da bula.

Resumindo o capítulo sobre canetas e câncer: há sinais reais de associação entre GLP-1 e menor risco de alguns tumores ligados a hormônio, mas nada aqui prova relação de causa e efeito. Os dados ainda são pouco claros e teremos de aguardar estudos desenhados para testar a hipótese de um potencial benefício. Por isso, nenhuma agência aprovou ou está avaliando essas drogas como suporte ao tratamento oncológico.