Menor oferta de trigo brasileiro deve elevar necessidade de importações em 2027

Redução da safra de 2026, dependência do mercado externo e custos internacionais mais altos pressionam a indústria de moagem.

BATANEWS/OPR


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A indústria brasileira de moagem de trigo projeta um cenário mais pressionado para a cadeia em 2026, com reflexos que podem se estender ao abastecimento de farinha e aos custos da indústria de alimentos. A combinação entre menor produção nacional, maior necessidade de importações e instabilidades no mercado internacional aumenta a complexidade das operações do setor.

Essencial para a alimentação global, o trigo representa cerca de 20% das calorias e proteínas consumidas no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). No Brasil, o cereal é a principal matéria-prima para produtos como pães, massas, biscoitos e bolos, itens presentes diariamente no consumo da população.

A dependência das compras externas amplia a exposição do país às oscilações do mercado internacional. O Brasil importa parte significativa do trigo utilizado pela indústria, principalmente da Argentina, e alterações nos preços globais, custos logísticos ou disponibilidade do cereal impactam diretamente a cadeia de moagem. “O Brasil não é autossuficiente em trigo e, por isso, qualquer turbulência externa tem impacto direto sobre custos, disponibilidade e previsibilidade do abastecimento', afirma o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Rubens Barbosa.

Presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Rubens Barbosa: “O Brasil não é autossuficiente em trigo e, por isso, qualquer turbulência externa tem impacto direto sobre custos, disponibilidade e previsibilidade do abastecimento” – Foto: Julio Bittencourt

No mercado internacional, fatores geopolíticos continuam influenciando os preços das commodities agrícolas. A guerra entre Rússia e Ucrânia e as tensões no Oriente Médio mantêm pressão sobre custos de energia, combustíveis, fretes, seguros e logística, elevando o custo das importações e dificultando o planejamento das indústrias.

No Brasil, a redução da área cultivada e as condições climáticas adversas devem resultar em uma safra menor em 2026. Conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção deve recuar 23,5% em relação ao ciclo anterior, o que deve ampliar a necessidade de importações em 2027 em 1,9 milhão de toneladas.

Além da menor oferta prevista, o excesso de chuvas no Rio Grande do Sul, principal estado produtor de trigo do país, preocupa o setor em relação à produtividade, à qualidade do grão e ao volume efetivamente disponível da safra em colheita. “Estamos diante de um cenário que combina menor oferta interna, maior necessidade de importação e custos internacionais mais elevados. Isso aumenta significativamente a complexidade da operação das indústrias moageiras', destaca Barbosa.

Farelo de trigo também pressiona margens da moagem Além da disponibilidade do cereal, a indústria acompanha o comportamento do mercado de farelo de trigo, um dos principais coprodutos da moagem. A queda nos preços do milho reduziu a competitividade do farelo utilizado na alimentação animal, diminuindo uma importante fonte de receita para as empresas do setor.

Com menor valorização do coproduto, aumenta a pressão sobre os custos da moagem e sobre a formação dos preços da farinha de trigo. “Quando o farelo perde valor, parte importante da receita da indústria é afetada. Isso acaba pressionando o custo final da farinha e, por consequência, de diversos alimentos consumidos diariamente pela população', explica Barbosa.

Apesar das dificuldades projetadas para o próximo ciclo, a Abitrigo afirma que não há risco de desabastecimento de trigo no mercado interno. Segundo a entidade, a indústria mantém o planejamento para garantir a oferta contínua do produto, acompanhando a produção nacional, as importações e as condições do mercado internacional. “A segurança do abastecimento de trigo passa por planejamento, gestão de riscos e acompanhamento constante dos mercados. O setor está mobilizado, mas o contexto exige vigilância permanente', enfatiza Barbosa.