O que demonstrou estudo com polilaminina para lesão medular finalmente publicado

Estudo com oito pacientes traz os primeiros resultados publicados em humanos com a polilaminina, mas ainda não permite comprovar a eficácia da substância

BATANEWS/VEJA


Polilaminina: estudo não conseguiu avaliar formalmente a eficácia da substância para tratar lesões medulares, mas pode ajudar a orientar pesquisas maiores (Getty Images/Divulgação)

Foram publicados nesta terça-feira, 4, os primeiros resultados de estudos em humanos com a polilaminina, substância desenvolvida por pesquisadores brasileiros que está sendo investigada para o tratamento de lesões medulares.

Um artigo publicado na revista científica Spinal Cord apresenta os resultados de uma experiência inicial com oito pacientes. Embora os pesquisadores relatem achados considerados promissores, eles ressaltam que o estudo ainda é pequeno e não permite confirmar se a substância é capaz de promover recuperação neurológica.

A publicação reacende o debate em torno de uma abordagem que despertou expectativa por seus resultados em animais, mas que, até então, ainda não tinha evidências clínicas publicadas em uma revista científica com revisão por pares, processo em que especialistas independentes, de uma mesma área, avaliam a qualidade e a validade do estudo antes da publicação.

“Embora o desenho do estudo não permita conclusões definitivas sobre eficácia, os resultados fornecem os primeiros dados clínicos para orientar estudos futuros maiores e controlados“, sugere o artigo.

O que diz o artigo

O trabalho acompanhou oito pessoas com lesão traumática aguda completa da medula espinhal, classificadas como AIS A, o grau mais grave da escala usada para medir danos neurológicos.

Esses pacientes receberam uma única aplicação da substância diretamente na medula, em média 2,3 dias após o trauma, com doses entre 55 e 80 microgramas.

Segundo o artigo, o objetivo principal do estudo não era provar que o tratamento funciona, mas avaliar se a aplicação era segura e possível de ser realizada.

A análise aponta que a administração intramedular ocorreu sem intercorrências em todos os casos. Não foram observadas pioras neurológicas nem eventos adversos graves atribuídos à intervenção.

“Alterações laboratoriais leves foram transitórias e não estiveram associadas a toxicidade hepática ou renal”, afirma o artigo.

O documento informa que três participantes morreram durante o acompanhamento. Os óbitos foram analisados pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) e por um consultor clínico externo e, segundo o artigo, não foram considerados relacionados ao tratamento experimental.

“A análise detalhada da evolução clínica indicou que as mortes estavam mais provavelmente relacionadas à gravidade da própria lesão medular do que ao tratamento experimental”, escreveram os autores.

Além disso, foi observada melhora neurológica de pelo menos dois graus na escala AIS em seis participantes, incluindo um paciente que morreu após evoluir para AIS C.

Três pacientes também apresentaram melhora em testes que avaliam a transmissão dos sinais elétricos entre cérebro e músculos.

Os autores ressaltam, porém, que a interpretação desses resultados deve ser feita com cautela. O grupo estudado era pequeno e bastante heterogêneo, incluindo pessoas com lesões cervicais e torácicas, além de diferentes mecanismos de trauma, como acidentes, quedas e ferimentos por arma de fogo.

“Essa característica impõe limitações à interpretação dos resultados“, afirma o artigo.

O texto acrescenta que a ausência de um grupo controle também “impede qualquer conclusão definitiva sobre a eficácia do tratamento“.

Além disso, o estudo reconhece que não foi desenhado nem tinha tamanho amostral suficiente para avaliar formalmente a eficácia da polilaminina.

Os autores afirmam que esses fatores limitam a capacidade de generalizar os resultados encontrados e reforçam a necessidade de estudos clínicos maiores para avaliar de forma mais rigorosa a segurança e o potencial terapêutico da polilaminina em pessoas com lesão medular.

“Em conclusão, uma única aplicação de baixa dose de polilaminina diretamente na medula, realizada na fase aguda de uma lesão traumática, pareceu ser bem tolerada e não apresentou sinais inesperados de segurança neste pequeno grupo de pacientes. As melhorias neurológicas observadas durante o acompanhamento justificam novas investigações em estudos clínicos maiores, capazes de avaliar o verdadeiro papel terapêutico da polilaminina no tratamento de lesões da medula espinhal”, concluem os pesquisadores.