Saúde
Quando o olho vermelho não é uma simples conjuntivite
Se o quadro persiste, pode indicar doenças sistêmicas e autoimunes, alertam especialistas em artigo
BATANEWS/VEJA
Quando alguém acorda com um olho vermelho, a explicação mais provável costuma ser simples: uma irritação passageira, uma crise de alergia ou uma conjuntivite. Na maioria das vezes, de fato é. Mas nem sempre.
Para oftalmologistas e reumatologistas, o olho vermelho pode representar muito mais do que um problema localizado. Em algumas pessoas, ele é o primeiro sinal visível de uma inflamação que está acontecendo em todo o organismo. Em outras palavras, o olho pode funcionar como uma janela para doenças sistêmicas ainda não diagnosticadas.
A conjuntivite alérgica é uma das causas mais comuns de olhos vermelhos. Ela surge quando alérgenos como pólen, ácaros ou pelos de animais desencadeiam uma reação imunológica na superfície ocular. O resultado é coceira intensa, lacrimejamento e irritação.
O problema surge quando esse quadro se prolonga, não responde ao tratamento habitual ou vem acompanhado de outros sintomas. Nesse caso, o que parece uma alergia banal pode ser, na verdade, o início de uma doença sistêmica.
É o caso da doença de Sjögren, uma condição autoimune em que o organismo ataca as glândulas responsáveis pela produção de lágrimas e saliva. O resultado é olho seco persistente, sensação de areia e ardência ocular.
Frequentemente, esses sintomas são atribuídos a causas comuns: ar-condicionado, envelhecimento, uso excessivo de telas ou cansaço visual. Por isso, o diagnóstico pode demorar anos enquanto o paciente perambula entre especialidades sem uma resposta clara. Além dos olhos, a doença pode afetar a boca, as articulações e outros órgãos, exigindo uma visão integrada entre especialidades médicas para ser reconhecida.
Igualmente importantes são as uveítes, inflamações que atingem estruturas internas do olho, como a úvea, que fica logo atrás da esclera, a parte branca dos olhos. Elas se manifestam com olho vermelho, dor, fotofobia e embaçamento visual.
Diferentemente da conjuntivite, a uveíte não é apenas desconforto superficial: ela pode estar associada a doenças sistêmicas como espondilite anquilosante, artrite psoriásica, doença de Behçet e sarcoidose.
Em alguns casos, o olho é o primeiro órgão a dar sinal de alerta, antes mesmo das manifestações articulares. Sem diagnóstico e tratamento adequados, essas inflamações podem levar à perda visual permanente. O tratamento muitas vezes vai além de colírios ou terapias locais, exigindo medicamentos que atuam sobre o sistema imunológico como um todo.
Um olho vermelho ou seco que persiste, que não melhora com medidas simples, ou que vem acompanhado de dor, sensibilidade à luz ou alteração visual não deve ser banalizado. O primeiro passo não é automedicação, é avaliação oftalmológica. Em muitos casos, o olho está apenas revelando uma doença que começa muito além dele.
* André Silva Franco é reumatologista, jovem liderança médica da Academia Nacional de Medicina e médico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP; Gustavo Rosa Gameiro é doutor em Oftalmologia pela UNIFESP e jovem liderança médica da Academia Nacional de Medicina



