Saúde
Menino de 11 anos queimado pode precisar de hemodiálise; 'só os pés escaparam'
Filho segue intubado, em avaliação para enxertos; recuperação depende da resposta do organismo, diz mãe
BATANEWS/CGNEWS
O menino de 11 anos que sofreu queimaduras em cerca de 85% do corpo após um incêndio envolvendo álcool, na última terça-feira (4), em Campo Grande, pode precisar de hemodiálise por causa do comprometimento da função renal. A informação foi repassada à mãe da criança durante a atualização médica desta quinta-feira (6), na Santa Casa.
Além da preocupação com os rins, a equipe que acompanha o garoto avalia a necessidade de enxertos nos braços e na região genital. Ele permanece internado em estado grave, intubado e sedado na UTI de queimados.
'Grave. Muito grave. A queimadura é de terceiro grau, queimou muito. Pelo jeito vai ter que fazer hemodiálise. O sangue não está fluindo para o coração, para o corpo. Provavelmente vai ter que fazer plástica e enxerto na região genital. Ele está muito no soro e está entubado', contou a mãe ao Campo Grande News.
Segundo ela, o filho sofreu queimaduras em praticamente todo o corpo.
'Ele está todo queimado. Todas as partes. Só salvou o pé. Está enfaixado, não está podendo passar pomada porque está muito aberto. Do jeito que ele está, pode pegar uma infecção. Os médicos estão fazendo tudo, mas quem tem que responder é ele, é o corpo dele', desabafou.
Ela explica que, nos últimos dias, a preocupação da equipe médica passou a ir além das queimaduras.
'O médico falou que, pelo jeito que está, vai ter que fazer hemodiálise porque está com medo de um dos rins dele parar. Também falou em enxerto na parte do braço e nas genitais. Ele está com muita morfina, muita dor', afirmou.
Segundo a mãe, antes de ser sedado por causa da gravidade das queimaduras, o menino ainda conseguiu contar o que havia acontecido.
'Ele entrou na UPA Santa Mônica acordado. Falou que o outro menino jogou álcool nele e tacou fogo. Falou para o pai dele por videochamada e para o próprio médico. Depois disso ele desmaiou', disse.
Foi justamente esse relato que levou a Polícia Civil a mudar a linha de investigação. Inicialmente tratado como um acidente durante uma suposta brincadeira com álcool, o caso passou a ser apurado como ato infracional análogo à tentativa de homicídio.
A versão apresentada pela vítima diverge do depoimento do adolescente investigado, que afirmou aos policiais que os dois brincavam com álcool quando as chamas atingiram o galão e provocaram o incêndio.
A mãe afirma que o filho e o adolescente já haviam sido amigos, mas estavam afastados havia cerca de seis ou sete meses.
'Eles já foram amigos. Tinha aquela rixa deles. Meu filho falou: 'Mãe, eu já não quero mais falar com ele'. Eu falei que era a melhor coisa. Eu sabia que eles brigavam por bola, futebol, essas coisas de criança. Mas eu não sabia que ia chegar tão grave isso aí', contou.
Na manhã do acidente, ela saiu para trabalhar às 6h15 sem imaginar que poucas horas depois receberia a pior notícia da vida.
'Ele tinha que estar no colégio naquele momento, mas falou que não queria ir. Foi brincar. Eu não sei como eles se encontraram, porque eu estava trabalhando', relatou.
Pouco tempo depois, recebeu uma ligação da irmã. 'Ela falou que tinham colocado fogo no meu filho, que ele estava entubado e que era para eu ir porque já estavam conseguindo uma vaga na Santa Casa', lembrou.
Desde a internação, a imagem que mais a acompanha é a da primeira vez que viu o filho no hospital. 'Eu vi meu filho todo queimado. Não parecia ele. O rosto está enorme, cheio de bolhas. A gente olha e parece que nem é ele', disse.
Segundo ela, a maior preocupação agora é que o menino sobreviva e consiga se recuperar sem sequelas permanentes.
'Está difícil, porque meu filho só tem 11 anos. Toda criança tem suas desavenças, mas isso que esse guri fez é uma maldade, não é uma brincadeira. Meu filho pode sair com sequela. Quando eu dei à luz, meu filho era perfeito', afirmou.
Ela também diz não ter dúvidas sobre o relato feito pelo filho antes de ser intubado. 'Meu filho não ia mentir. Como uma pessoa com dor, pegando fogo, ia mentir? Ele falou duas vezes e afirmou o que aconteceu', declarou.
Entre um boletim médico e outro, a mãe tenta se apegar à fé.
'Nesse momento, o melhor médico é Deus. A melhor oração é a oração da mãe. A gente sente saudade daquele menininho. Eu não escuto mais ele me chamar de mãe. Ele era uma criança alegre, tinha muito amigo, gostava de fazer vídeo na internet', contou.
Apesar do quadro grave, ela mantém a esperança de voltar a ver o filho recuperado.
'Eu creio em Deus que meu filho vai sair disso. Os outros querem apagar o brilho da estrela dele, mas não vão. Hoje está meio escuro, mas ele vai voltar a brilhar', concluiu.
Investigação - O caso aconteceu na tarde de terça-feira (4), em uma residência na Vila Popular. Conforme o boletim de ocorrência, o menino foi socorrido por uma vizinha e levado inicialmente para a UPA Santa Mônica. Antes de ser intubado devido à gravidade das queimaduras, ele relatou a profissionais de saúde que outro adolescente teria jogado álcool sobre seu corpo e ateado fogo após uma discussão.
Já o adolescente investigado apresentou outra versão à Polícia Civil. Ele afirmou que os dois brincavam com álcool quando as chamas atingiram um galão de combustível, provocando uma explosão que lançou o líquido em chamas contra o amigo.
Diante da divergência entre os relatos, a Deaij (Delegacia Especializada de Atendimento à Infância e Juventude) deixou de tratar o episódio apenas como um acidente e passou a investigar o caso como ato infracional análogo à tentativa de homicídio. O adolescente chegou a ser apreendido e apresentado à Justiça da Infância, que decidirá quais medidas serão adotadas durante o andamento das investigações.



