Saúde
Quem amamenta pode tomar Mounjaro? A resposta era ‘não’, mas virou ‘depende’
Essa é uma das maiores dúvidas das brasileiras. E houve mudanças no entendimento dessa questão - e até na bula do remédio
BATANEWS/VEJA
Segundo um levantamento da plataforma Olá Doutor, entre as mais de 6 milhões de buscas no Google sobre aleitamento materno no último ano, a principal dúvida das brasileiras foi: “Quem amamenta pode tomar Mounjaro? ”. Foram 71 200 pesquisas a respeito.
E, de fato, a pergunta tem lotado a caixa de mensagens de obstetras, ginecologistas, pediatras e endocrinologistas: dá para usar tirzepatida durante a amamentação?
Até pouco tempo, a resposta padrão era um “não” cauteloso — mais por falta de dados do que por evidência de risco real. Isso está mudando, e a virada é significativa o bastante para merecer explicação.
Da proibição aos novos estudos
Desde que a tirzepatida chegou ao mercado, em 2022, as bulas ao redor do mundo adotaram a postura mais conservadora possível: evitar o uso na lactação, simplesmente porque não havia estudos em humanos. Nos Estados Unidos, essa cautela ainda persiste — a bula da FDA continua afirmando que não há dados sobre a presença de tirzepatida no leite humano nem sobre efeitos em lactentes.
O cenário começou a mudar com um estudo em mulheres saudáveis lactantes. Em 16 de abril de 2026, a fabricante atualizou a bula europeia incorporando os resultados: em um grupo de 11 mulheres, a concentração de tirzepatida no leite materno mostrou-se de indetectável a muito baixa — menos de 10 nanogramas por mililitro — após dose única de 5 mg. Assim, a nova bula passou a admitir que o uso do medicamento pode ser considerado durante a amamentação.
A explicação biológica ajuda a entender o porquê: a tirzepatida é uma molécula peptídica grande, o que dificulta sua passagem para o leite; mesmo quando presente, tende a ser degradada no sistema digestivo do bebê antes de ser absorvida — raciocínio semelhante ao usado para a insulina.
A base americana LactMed, do NIH, atualizada em abril de 2026, segue a mesma linha: a tirzepatida costuma ser indetectável no leite materno em doses subcutâneas de até 5 mg, e a absorção pelo bebê é improvável, pois o composto é parcialmente destruído no trato gastrointestinal infantil.
O que diz a bula brasileira
Pouca gente sabe, mas a bula brasileira, aprovada pela Anvisa em novembro de 2024, já trazia linguagem parecida — antes da atualização europeia. O texto informa que a quantidade encontrada no leite materno é considerada indetectável a muito baixa e que, mesmo presente, não é esperado que seja absorvida pelo bebê.
Ainda assim, a bula condiciona o uso durante a lactação à avaliação e ao acompanhamento do médico, recomendando critério no aleitamento.
A notícia é animadora, mas está longe de ser sinal verde geral. Os estudos disponíveis são pequenos e de curto prazo.
Além disso, a restrição calórica provocada pela tirzepatida pode, em tese, afetar as reservas nutricionais da mãe e a composição do leite, algo ainda não totalmente esclarecido em amamentação exclusiva.
Um levantamento de casos reais identificou dois bebês com alterações de crescimento durante a exposição, mas ambos tinham condições médicas prévias e uso concomitante de outros remédios, o que impede atribuir a alteração ao medicamento.
Vale um adendo: nem todo GLP-1 é igual. No caso do Rybelsus, versão oral da semaglutida, a recomendação ainda é evitar o uso na amamentação, porque a fórmula contém um facilitador de absorção que pode passar para o leite e se acumular no bebê — mecanismo diferente do da tirzepatida injetável.
Decisão individualizada
Ausência de dano comprovado não é o mesmo que prova de segurança. A recomendação prática é de decisão compartilhada entre mãe, obstetra, pediatra e endocrinologista, avaliando histórico de saúde, urgência clínica e acompanhamento do ganho de peso do bebê.
O que mudou foi o tom: de um “não” genérico por falta de dados, para um “talvez, com acompanhamento” baseado em evidência inicial, mas real.



