Os planos, estratégias e promessas extravagantes dos candidatos azarões à Presidência

Eles iniciam a corrida ao Planalto na condição de figurantes

BATANEWS/VEJA


EXPLOSIVO - Renan Santos: o candidato do Missão defende propostas como a de que o Brasil tenha uma bomba atômica (Leco Viana/Thenews2/Agência O Globo/.)

Wilson Grassi, de 56 anos, tem um histórico de superação. Pobre, ele começou a vida profissional trabalhando como porteiro em São Paulo, estudou, decidiu empreender, hoje é dono de empresas e de um patrimônio calculado em cerca de 50 milhões de reais. Nos próximos dois meses, o também médico-veterinário vai se dedicar a sua campanha pela Presidência da República. Se nenhuma surpresa acontecer, provavelmente essa será uma das poucas vezes em que se vai ouvir falar do nome do candidato, que pertence a um partido pequeno (Democrata), não tem direito a propaganda na TV e vai contar com uma fatia ínfima dos recursos do bilionário fundo eleitoral.

Otimista, ele acredita que pode superar a desvantagem em relação aos concorrentes e angariar os mais de 50 milhões de votos necessários para vencer a eleição com duas propostas de governo. Na área institucional, pretende extinguir os estados e transferir a administração das 27 unidades da federação ao presidente. Na área social, promete implantar um programa que vai garantir à população a aplicação gratuita de Botox na rede pública de saúde.

O veterinário é um dos oito candidatos a presidente que começam a campanha no papel de figurantes. Alguns querem apenas popularizar o próprio nome. O médico-veterinário, por exemplo, tenta há mais de duas décadas ingressar na política. Em 2006, ele foi candidato a deputado estadual em São Paulo. Teve 4 517 votos. Em 2022, filiado ao PV, pleiteou, sem sucesso, uma vaga no Congresso. A última aposta, em 2024, foi na Câmara de Vereadores de São Paulo, incursão também malsucedida.

A candidatura ao Planalto, dependendo da repercussão das propostas extravagantes, quem sabe, pode torná-lo mais conhecido e até mais competitivo para uma nova disputa. Essa, geralmente, é a lógica que move os azarões. Por isso mesmo, eles prometem de tudo — de fantásticos reajustes salariais à distribuição gratuita de celulares de última geração, promessas de Leonardo Avalanche, candidato do PRTB.

Há um pelotão significativo que também entra na disputa para marcar posição partidária ou ideológica. Ex-diretora da União Nacional dos Estudantes (UNE), Samara Martins, do Unidade Popular (UP), concorreu em 2020 a vereadora em Natal, mas não foi eleita. Em 2022, foi candidata a vice-presidente da República, porém sua chapa teve apenas 53 000 votos. Agora presidenciável, ela acredita que o resultado vai ser diferente, principalmente diante do compromisso assumido de que, se eleita, vai dobrar o salário de todos os brasileiros. Seu conjunto de propostas ainda inclui a obrigatoriedade de os parlamentares e suas famílias usarem o SUS e a reestatização de todas as empresas privatizadas. Na mesma toada, o candidato Hertz Dias, do PSTU, que se apresenta como “alternativa socialista para o país”, anuncia que revogará as reformas trabalhista e previdenciária, enquanto Edmilson Costa, o postulante ao Planalto pelo histórico Partido Comunista Brasileiro (PCB), garante que vai reduzir a escala de trabalho para trinta horas semanais.

Uma das principais barreiras para a propagação dessas ideias estapafúrdias é a lei eleitoral, que estabelece critérios de acesso à propaganda gratuita no rádio e na televisão e aos recursos do fundo eleitoral. Para ter direito aos benefícios, os partidos precisam ter elegido uma bancada de, no mínimo, treze deputados federais distribuídos em pelo menos um terço dos estados. As agremiações nanicas não atendem a esses requisitos. Elas receberão cada uma 3,3 milhões de reais do fundo eleitoral para custear as campanhas de todos os seus candidatos em todos os recantos do país.

Só para efeito de comparação, o PL de Flávio Bolsonaro e o PT de Lula — os líderes das pesquisas de intenção de voto — serão contemplados, respectivamente, com 881 e 615 milhões de reais. Sem muita margem, os figurantes têm recorrido a vaquinhas virtuais. A candidata do UP, aquela que promete dar aumento de 100% para todos os brasileiros, por exemplo, arrecadou até agora apenas 77 000 reais e tem 2% das intenções de voto, segundo a última pesquisa BTG/Nexus.

O destaque do grupo de azarões, por enquanto, é Renan Santos (Missão), que está em quarto lugar nas pesquisas de intenção de voto, tecnicamente empatado com políticos como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). Popular nas redes sociais, Renan defende, entre outras ideias, que o Brasil construa uma bomba atômica. “Essas propostas são fogos de artifício retórico para chamar atenção, e alguns desses nanocandidatos são utilizados como vetores de interesses confessáveis e inconfessáveis”, diz o cientista político Antonio Lavareda. Na terça-feira 11, a Polícia Federal realizou buscas em endereços ligados a Rui Pimenta, que concorre pela quarta vez à Presidência pelo pequeno Partido da Causa Operária (PCO). A investigação apura supostos desvios de recursos do fundo partidário. Ele se diz alvo de perseguição política. Uma suspeita desse tipo em meio à campanha é o maior azar que poderia ocorrer a um azarão.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008