Mercado de bioinsumos pode movimentar R$ 10 bilhões até 2030 no Brasil

Pesquisadores e representantes da indústria discutem nesta semana, na capital paranaense, critérios de qualidade, regulamentação e expansão do uso de microrganismos na agricultura.

BATANEWS/OPR


Imagem criada por Emili Schneider/OP Rural/ChatGPT

O mercado brasileiro de bioinsumos movimentou cerca de R$ 7 bilhões em 2025 e pode se aproximar de R$ 10 bilhões até 2030, segundo dados da Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (Anpii-Bio). A estimativa considera categorias como biocontrole, bioinoculantes, mobilizadores de nutrientes e biofertilizantes e aponta crescimento potencial de aproximadamente 46% em cinco anos.

O avanço do mercado ocorre junto à ampliação do uso de microrganismos na produção agrícola e coloca questões técnicas e regulatórias no centro das discussões do setor. Em Curitiba, cerca de 250 pesquisadores, representantes da indústria, comunidade acadêmica e órgãos de fiscalização participam, nesta semana, da 22º Reunião da Rede de Laboratórios para Recomendação, Padronização e Difusão de Tecnologias de Inoculantes Microbianos de Interesse Agrícola (Relare).

O encontro é realizado no Centro de Eventos Sistema Fiep e reúne especialistas para discutir protocolos de análise de qualidade, validação de novos produtos, metodologias laboratoriais, regulamentação e tendências de mercado.

Criada em 1985, a Relare se consolidou como instância técnica consultiva do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para recomendação de estirpes microbianas e padronização de métodos de análise de inoculantes no país.

Solon Araújo, primeiro presidente da Relare e conselheiro da Anpii-Bio: “Nesse cenário, a Relare mantém o papel estratégico como espaço de articulação e trabalho conjunto entre os diferentes segmentos do setor”

Para Solon Araújo, primeiro presidente da Relare e conselheiro da Anpii-Bio, a rede teve papel na definição de parâmetros utilizados para avaliar a qualidade dos produtos biológicos destinados à agricultura.

Com a aprovação da Lei de Bioinsumos, o setor passa a lidar com uma nova etapa regulatória, que deverá exigir ajustes tanto na legislação quanto nos procedimentos técnicos. “Nesse cenário, a Relare mantém o papel estratégico como espaço de articulação e trabalho conjunto entre os diferentes segmentos do setor”, destacou Araújo.

A pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa, também destaca a contribuição da rede para a consolidação dos inoculantes no país. Segundo ela, a Relare participou da elaboração de protocolos de campo utilizados pelo Ministério da Agricultura nos processos de registro desses produtos e ajudou a aproximar pesquisa, indústria e órgãos reguladores.

A trajetória dos bioinsumos no Brasil está diretamente relacionada à expansão da fixação biológica de nitrogênio na soja. Pesquisas realizadas ao longo do século 20 levaram à seleção de estirpes de bactérias capazes de estabelecer associação com as plantas e fornecer nitrogênio à cultura, que posteriormente passaram a integrar inoculantes comerciais.

Com a expansão da soja para o Cerrado, pesquisadores também trabalharam na adaptação e seleção de microrganismos para diferentes condições de solo e clima. “Com a expansão da soja para o Cerrado, pesquisadores brasileiros também adaptaram e aprimoraram microrganismos para as novas condições de solo e clima, demonstrando a importância da pesquisa e da inovação para ampliar o uso de soluções biológicas na agricultura”, apontou Mariangela.

Pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa: Com a expansão da soja para o Cerrado, pesquisadores brasileiros também adaptaram e aprimoraram microrganismos para as novas condições de solo e clima, demonstrando a importância da pesquisa e da inovação para ampliar o uso de soluções biológicas na agricultura”

Atualmente, cerca de 85% da área cultivada com soja no Brasil utiliza a fixação biológica de nitrogênio a cada safra, segundo os dados apresentados pela pesquisadora.

A tecnologia permite substituir o uso de fertilizantes nitrogenados na cultura. Mesmo em áreas onde as bactérias já estão presentes naturalmente no solo, Mariangela defende a aplicação anual dos inoculantes, em razão dos ganhos de produtividade associados à prática.

Segundo ela, os incrementos médios de produtividade proporcionados pela inoculação ficam entre 8% e 16% na soja. “A substituição gerou uma economia aproximada de US$ 28 bilhões ao Brasil na última safra”, afirmou a pesquisadora.

Ela também estima que a tecnologia tenha evitado a emissão de cerca de 280 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, volume que, na comparação apresentada por ela, corresponderia à retirada de aproximadamente 60 milhões de carros de passeio das ruas durante um ano.

A utilização de bioinsumos também se expandiu para culturas como milho, trigo, arroz, cana-de-açúcar e pastagens. Nesses sistemas, os produtos podem atuar sobre a disponibilidade e o aproveitamento de nutrientes, além de aplicações relacionadas ao controle biológico e à promoção do crescimento das plantas.

No caso das gramíneas, o mercado de inoculantes já supera 40 milhões de doses comercializadas por ano, de acordo com os dados apresentados durante o evento.

No milho, entretanto, a tecnologia não substitui integralmente a adubação nitrogenada. A aplicação de determinados inoculantes pode aumentar a eficiência de aproveitamento dos nutrientes e, dependendo das condições de cultivo, permitir redução de até 25% da adubação nitrogenada de cobertura, segundo Mariangela.

O crescimento da oferta de produtos biológicos amplia também a necessidade de critérios técnicos para avaliação de eficácia, identidade, qualidade e segurança.

Marco Antonio Nogueira, pesquisador da Embrapa Soja e presidente da edição deste ano da Relare: “Trata-se de uma oportunidade única para alinharmos a pesquisa às demandas reais de campo, de mercado e da regulação”

Carina Rufino, chefe de Transferência de Tecnologias da Embrapa Soja, afirmou que a expansão do mercado mudou o papel dos encontros técnicos da Relare.

“Nosso mercado de bioinsumos amadureceu e segue passando por importantes transformações. Por isso, a Relare não é apenas para compartilhamento de conhecimentos, mas também para estabelecer novas conexões e acelerar o ciclo de inovação”, disse.

A programação da 22º Relare inclui discussões sobre regulamentação, metodologias de análise, controle de qualidade, ensaios interlaboratoriais, padronização de bioinsumos, tendências de mercado, proteção intelectual, novos ativos para biocontrole e segurança sanitária.

Segundo Marco Antonio Nogueira, pesquisador da Embrapa Soja e presidente da edição deste ano da Relare, o objetivo é aproximar as demandas de pesquisa das necessidades de produtores, empresas e órgãos reguladores. “Trata-se de uma oportunidade única para alinharmos a pesquisa às demandas reais de campo, de mercado e da regulação”, enalteceu.

Para Amália Borsari, diretora da CropLife Brasil, a regulamentação precisa acompanhar a evolução das pesquisas e considerar diferenças entre microrganismos, espécies e cepas, além das aplicações de cada produto. “O País já avançou nos procedimentos regulatórios para produtos de controle biológico e inoculantes, mas o tema segue em evolução e exige alinhamento com as discussões internacionais”, afirmou.

A executiva também aponta a necessidade de avançar em temas como rastreabilidade, identidade, qualidade, segurança e transparência, além da abertura de mercados externos para produtos brasileiros.

A discussão também envolve a estrutura de ciência, tecnologia e inovação do Paraná. Márcio Spinosa, diretor da Fundação Araucária, afirmou que o Estado busca ampliar a atuação em toda a cadeia, da pesquisa científica à transformação dos resultados em produtos e serviços. “Buscamos fortalecer a integração dos ecossistemas de ciência, tecnologia e inovação do Paraná com países próximos, ampliando o alcance das pesquisas e contribuindo para a geração de riqueza e desenvolvimento social”, disse.

A 22ºRelare é promovida pela Embrapa em parceria com a Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (Anpii-Bio) e a CropLife Brasil, com apoio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia MicroAgro (INCT MicroAgro) e da Fundação Araucária.