Política
Os ‘postes’ de Bolsonaro: família, aliados e imitadores exploram o sobrenome nas urnas em 2026
A família do ex-presidente espalhou parentes e aliados por gabinetes ao longo de décadas; agora, o sobrenome aparece em 29 candidaturas, inclusive de quem não tem parentesco com o clã.
BATANEWS/CARTACAPITAL - POR VINICIU NUNES
A família Bolsonaro chega às eleições de 2026 espalhada por diferentes cargos e estados. Oito parentes de Jair Bolsonaro (PL) estão entre os candidatos que levam o sobrenome para a urna. Outros 21 candidatos sem vínculo familiar com o ex-presidente também decidiram usar “Bolsonaro' na identificação eleitoral.
Há ‘parentes’ distribuídos entre a Presidência, o Senado, a Câmara dos Deputados, Assembleias Legislativas, um governo estadual e uma vice-governadoria. O sobrenome virou, por si só, um ativo eleitoral.
O termo “poste' ganhou força na campanha presidencial de 2010, quando Dilma Rousseff (PT), escolhida por Lula para sucedê-lo, passou a ser chamada pelos adversários de “poste' do então presidente. A crítica era dirigida à falta de experiência eleitoral de Dilma e à ideia de que ela chegaria ao Planalto carregada pela popularidade e pela força política de Lula. A própria petista foi questionada sobre a expressão em entrevista à ÉPOCA , antes mesmo do início oficial da campanha, e rebateu: “Você acha que sou um poste?'.
Lula, por sua vez, incorporou a provocação ao discurso e passou a ironizá-la. Em 2012, durante a campanha municipal em Belo Horizonte (MG), disse que seus adversários também haviam chamado Dilma de poste e afirmou, em tom de brincadeira, que seria “de poste em poste' que o Brasil ficaria iluminado. A expressão também passou a ser usada para outros candidatos apoiados pelo ex-presidente, como Fernando Haddad e Alexandre Padilha.
Foi em 2018, porém, que “poste' ganhou sua versão mais conhecida. Com Lula impedido de disputar a Presidência, o PT lançou Fernando Haddad como substituto. Os adversários passaram a explorar a mesma ideia usada contra Dilma oito anos antes, de que Haddad seria apenas o candidato responsável por carregar para a urna a força eleitoral de Lula. A associação acabou incorporada à própria campanha petista, que levou ao extremo a identificação entre os dois – “Lula é Haddad' .
Em 2026, a situação é quase uma paródia invertida. Bolsonaro não está na urna, mas seu sobrenome aparece em quase 30 candidaturas. E nem todos precisam ter nascido na família para tentar transformar o nome em voto.
Dos 29 candidatos com o sobrenome na urna, 21 não têm parentesco com Jair. Alguns são aliados próximos e receberam autorização para utilizar o nome. É o caso de Bruno Bolsonaro Scheid (PL), por Rondônia, e Renato Araújo do Bolsonaro (PL), pelo Rio de Janeiro. O deputado Hélio “Negão' Lopes (PL) também recebeu autorização para usar o sobrenome para concorrer ao Senado por Roraima, e seu filho concorre como Jean Bolsonaro (PL) à Câmara no Rio de Janeiro.
Outros parecem apostar diretamente no poder de associação do nome. A eleição de 2026 terá Bolsonaro da Shopee (Novo), Bolsonaro Sergipano (PL), Negona do Bolsonaro (PL), Fão do Bolsonaro (PL), Decinho Bolsonaro do Barreiro (Podemos) e Flaviane do Bolsonaro (Novo).
Negona do Bolsonaro, candidata a deputada federal pelo Rio de Janeiro. Foto: Reprodução/Tik Tok
No Rio Grande do Norte, um candidato do Agir concorre ao governo como Rodrigo Bolsonaro. Em São Paulo, outra candidata do Agir, Renata Bolsonaro, disputa como vice-governadora.
A maioria, porém, está no PL: 20 dos 29. São dez candidatos a deputado federal, dez a deputado estadual, cinco ao Senado, um a deputado distrital, um a governador, uma a vice-governadora e Flávio na corrida presidencial.
A proliferação do sobrenome na urna é apenas a face mais recente de uma estrutura política construída muito antes da eleição de 2026. A família Bolsonaro não se limitou aos parentes que chegaram a disputar eleições. Ao longo de décadas, familiares e pessoas próximas também passaram pelos gabinetes de Jair, Carlos e Flávio Bolsonaro.
Um dos melhores exemplos é Ana Cristina Siqueira Valle (PP), segunda ex-mulher de Jair Bolsonaro e mãe de Jair Renan. Durante os anos em que esteve ligada ao ex-presidente, ela própria ocupou cargo público e familiares seus também passaram pelos gabinetes da família. Reportagem do jornal O Globo , de 2022, assinada por Juliana Dal Piva e Chico Otavio, identificou 18 parentes de Ana Cristina empregados em algum momento nos gabinetes do clã Bolsonaro.
A engrenagem familiar, portanto, não funcionava apenas em linha reta. Não era somente Jair empregando filho, irmão ou mulher. Os gabinetes formavam uma rede que alcançava os parentes dos parentes. A família de Ana Cristina, por exemplo, passou a ocupar postos no entorno político dos Bolsonaro depois que ela se relacionou com Jair. As nomeações alcançaram diferentes integrantes da família Siqueira Valle entre o fim dos anos 1990 e a década seguinte.
Ana Cristina Siqueira Valle, ex-esposa de Jair Bolsonaro. Foto: Reprodução Instagram
O caso também ajuda a dimensionar o tamanho dessa estrutura. Um levantamento de ÉPOCA e O Globo , publicado em 2019, mapeou os 286 assessores nomeados por Jair, Carlos, Flávio e Eduardo Bolsonaro desde 1991. A apuração encontrou 102 pessoas com algum parentesco ou relação familiar entre si, pertencentes a 32 famílias. Juntas, elas receberam 65,2 milhões de reais em salários brutos corrigidos pela inflação.
Isso não significa que todas as pessoas da relação tenham sido investigadas ou acusadas de irregularidades. Mas algumas contratações entraram no radar de investigações sobre o funcionamento dos gabinetes, especialmente no caso da família de Ana Cristina e das suspeitas de “rachadinha' envolvendo o gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio.
A história ajuda a entender por que a lista dos candidatos de 2026 não deve ser lida apenas como uma coleção de sobrenomes. Flávio Bolsonaro (PL) é filho de Jair e disputa a Presidência. Carlos (PL), outro filho do ex-presidente, tenta uma vaga no Senado por Santa Catarina. Jair Renan (PL), o quarto filho, concorre à Câmara pelo mesmo estado. Michelle Bolsonaro (PL), atual mulher de Jair e ex-primeira-dama, disputa o Senado pelo Distrito Federal. Rogéria Bolsonaro (PL), primeira ex-mulher do ex-presidente e mãe de Flávio, Carlos e Eduardo, é candidata a deputada federal pelo Rio.
Flávio e Jair Bolsonaro em ato em São Paulo, em 29 de junho de 2025. Foto: Miguel Schincariol/AFP
A rede familiar se estende ainda a Renato Bolsonaro (PL), irmão de Jair, que concorre a deputado federal por São Paulo, e aos primos Marcelo Bolsonaro (PL) e Valéria Bolsonaro (PL), candidatos a deputado estadual também pelo Estado. Juntos, eles formam a face eleitoral mais visível de uma estrutura familiar que há décadas ocupa espaços na política.
A diferença é que, no caso da família, existe algo anterior ao marketing eleitoral: uma rede construída dentro do próprio Estado. A relação de nomes que passaram pelos gabinetes mostra que o sobrenome Bolsonaro não foi apenas uma identidade política. Durante décadas, ele também esteve associado a uma estrutura de empregos, relações familiares e circulação de pessoas próximas pelos gabinetes do clã.
Agora, essa estrutura chega à urna. Uns levam o sobrenome porque são filhos, ex-mulheres, irmãos ou primos. Outros porque têm relação política com Jair. E outros, aparentemente, porque descobriram que, em 2026, até “Bolsonaro da Shopee' pode ser uma estratégia eleitoral.





