Dívida do agro supera R$ 250 bilhões e ameaça crédito rural

Inadimplência, perdas climáticas e aumento dos custos de produção elevam o risco para os bancos e pressionam por renegociação de débitos e novas formas de financiamento.

BATANEWS/OPR


Imagem criada por Jaqueline Galvão/ChatGPT/OP Rural

O crédito rural enfrenta um período de forte pressão financeira. Preços baixos de produtos agropecuários, aumento dos custos de produção e perdas provocadas por eventos climáticos reduziram a capacidade de pagamento dos produtores e elevaram a inadimplência. Dados do Banco Central e da Serasa Experian mostram a dimensão do problema.

Estimativa do Banco Central referente a maio aponta que mais de R$ 202 bilhões da carteira de crédito rural estavam classificados como ativos problemáticos. O grupo inclui operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas ou renegociadas.

Presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR): “O produtor não se endividou porque quis crescer demais. Ele se endividou tentando continuar produzindo”

Quando consideradas também as dívidas privadas, o montante supera R$ 250 bilhões. O aumento da inadimplência eleva o risco para os credores e faz com que as instituições financeiras adotem critérios mais rigorosos para a concessão de novos financiamentos.

Representantes do setor e especialistas têm definido o quadro como uma “tempestade perfeita” para a produção agropecuária. O problema se agrava com a chegada da safra 2026/27, que exige novos recursos justamente em um momento de maior restrição ao crédito. “O produtor não se endividou porque quis crescer demais. Ele se endividou tentando continuar produzindo”, afirmou o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR).

O avanço das dívidas e o início da safra 2026/27 colocaram a renegociação no centro da agenda da FPA. A bancada acelerou a tramitação do Projeto de Lei 5.122/2023, que trata da renegociação das dívidas rurais.

Vice-presidente da FPA, senadora Tereza Cristina (PP-MS): “A medida provisória resolve o problema imediato, porque, com o Plano Safra já vigente, muita gente não conseguiria participar, ter acesso ao crédito”

No entanto, diante da avaliação política de que o texto poderia ser vetado pelo governo caso fosse aprovado, a proposta não seria suficiente para oferecer uma resposta emergencial. Nesse contexto, a Medida Provisória (MP) 1.376/2026 passou a ser tratada como uma alternativa para viabilizar a repactuação dos débitos. “A medida provisória resolve o problema imediato, porque, com o Plano Safra já vigente, muita gente não conseguiria participar, ter acesso ao crédito”, afirmou a vice-presidente da FPA, senadora Tereza Cristina (PP-MS).

Segundo a senadora, pontos do projeto de lei foram incorporados à MP, entre eles a possibilidade de renegociação das Cédulas de Produto Rural (CPRs) e a ampliação dos prazos para pagamento.

Além das medidas emergenciais, a discussão no Congresso envolve mecanismos para reduzir o risco das operações de crédito rural no médio e longo prazo.

Vice-presidente da FPA na Câmara, deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP): “Nós tínhamos alguns desafios e pontos que deveriam ser tratados na MP”

Um dos principais avanços defendidos pela FPA é a criação de um fundo garantidor para a agropecuária. A MP autoriza a participação da União como cotista do fundo. A proposta surgiu de uma emenda apresentada por Tereza Cristina ao projeto de lei sobre a renegociação das dívidas rurais.

O fundo poderá receber recursos da União, produtores rurais, Estados, Municípios e instituições financeiras. A proposta é criar uma proteção adicional para operações de crédito em períodos de perdas provocadas por eventos climáticos adversos. “Nós tínhamos alguns desafios e pontos que deveriam ser tratados na MP. Um deles é termos uma visão de futuro com o fundo garantidor que virá. É uma solução mais estruturante”, afirmou o vice-presidente da FPA na Câmara, deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP).

Outra iniciativa voltada à melhoria do crédito rural no médio e longo prazo é o chamado Open Finance do agro. O Projeto de Lei 3.123/2025 cria um sistema de compartilhamento de informações sobre o produtor rural, reunindo diferentes bases de dados que poderão ser acessadas pelas instituições financeiras de forma simplificada, mediante autorização prévia do produtor.

A proposta é reduzir custos operacionais e permitir uma análise mais individualizada na concessão de crédito. Na avaliação do autor do projeto, o coordenador institucional da FPA, deputado Alceu Moreira (MDB-RS), o mecanismo pode ampliar o acesso a condições mais favoráveis de financiamento e seguro. “O resultado direto é a possibilidade de ofertar condições de crédito e seguro mais justas, competitivas e acessíveis, beneficiando diretamente o produtor rural”, afirmou.

Atualmente, a proposta aguarda análise do Plenário da Câmara dos Deputados, após a aprovação do requerimento de urgência. Se aprovada pelos deputados, seguirá para o Senado Federal.

A FPA também analisa um pacote de propostas para modernizar a oferta de crédito ao setor agropecuário. Reunidas sob o nome de Lei do Agro 3, as mudanças abrangem pelo menos 11 temas e têm potencial estimado de acrescentar R$ 800 bilhões à oferta de crédito.

Entre as propostas está a ampliação da participação do capital estrangeiro no financiamento da produção. Esses recursos podem ser captados a juros inferiores aos praticados no mercado brasileiro, o que amplia as alternativas de financiamento para o setor.

A medida, no entanto, precisa alcançar também produtores que não têm acesso direto ao mercado internacional de capitais. Para a FPA, concentrar essa fonte de recursos nas grandes empresas exportadoras limitaria o alcance da mudança. “Os grupos que exportam conseguem captar dinheiro lá fora, mas o grande volume de produtores, o produtor médio e pequeno, não sabe o que é isso e não tem nem acesso. A gente trabalhar para que esses produtores também possam se beneficiar é fundamental”, afirmou o coordenador da Comissão de Infraestrutura e Logística da FPA, deputado Tião Medeiros (PP-PR).

A ampliação das fontes de financiamento, portanto, é acompanhada pela discussão sobre como distribuir esse acesso entre os diferentes perfis de produtores. Para médios e pequenos, que têm menor capacidade de acessar diretamente o mercado externo, a intermediação do sistema financeiro e a criação de mecanismos de garantia podem ser decisivas para transformar a oferta adicional de recursos em crédito efetivamente disponível no campo.