Agricultura
Análise molecular do solo ganha espaço no planejamento da safra de soja
Diagnósticos por qPCR e sequenciamento ajudam a mapear patógenos e microbiota antes do plantio, apoiando decisões sobre sementes, inoculação e uso de bioinsumos.
BATANEWS/OPR
Antes de as plantadeiras entrarem no campo, o produtor pode recorrer a ferramentas de diagnóstico molecular para obter informações que complementam as análises químicas e físicas tradicionalmente realizadas no solo. Técnicas como a qPCR (Reação em Cadeia da Polimerase em Tempo Real) permitem detectar e quantificar fungos e nematoides antes mesmo do aparecimento de sintomas nas plantas.
Na prática, o objetivo é identificar antecipadamente possíveis riscos fitossanitários e conhecer melhor as condições biológicas da área. Os resultados podem auxiliar na escolha de cultivares, no tratamento de sementes, na definição de estratégias de inoculação e no uso direcionado de bioinsumos.
A tecnologia ganha relevância diante da dimensão da próxima safra. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), no 10º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26, divulgado em julho, estima produção de 180,6 milhões de toneladas de soja no Brasil, volume 5,3% superior ao registrado na temporada anterior. “Antes do plantio, é importante conhecer as condições do solo, que podem abrigar diferentes patógenos. Quando a semente germina e a planta começa a se desenvolver, esses organismos encontram condições favoráveis para se multiplicarem e podem comprometer a lavoura. A análise antecipada ajuda o produtor a selecionar cultivares mais adequadas, definir o melhor bioinsumo para o tratamento das sementes e tomar medidas preventivas de manejo fitossanitário', explica Tatiani Janegitz, gerente de Desenvolvimento de Mercado – Agronegócio da Loccus.
DNA revela a comunidade microbiana
Outra aplicação é a análise do microbioma do solo por meio do sequenciamento de DNA de nova geração, conhecido como NGS. A técnica permite identificar a diversidade e a composição das comunidades de microrganismos presentes na área, incluindo organismos benéficos e potenciais agentes causadores de doenças.
Esse mapeamento pode indicar diferenças na biodiversidade microbiana entre áreas e contribuir para avaliar o equilíbrio biológico do solo. As informações também podem ser utilizadas na definição de estratégias de manejo e no direcionamento do uso de produtos biológicos. “É uma abordagem de precisão: primeiro se busca compreender o que está presente no solo e, com base nesse diagnóstico, direcionar melhor o manejo. A análise molecular não substitui a avaliação agronômica, mas acrescenta informações objetivas para apoiar as decisões antes do plantio', afirma Tatiani.
O diagnóstico não elimina as avaliações convencionais. A recomendação é que os resultados das análises moleculares sejam interpretados junto com o histórico da área, as características da lavoura e as demais informações agronômicas.
A partir desse conjunto de dados, o produtor pode definir estratégias mais específicas para o tratamento de sementes, incluindo fungicidas, inoculantes ou outros bioinsumos compatíveis com as condições identificadas. Registro, validade, procedência e conservação dos produtos também precisam ser considerados.
Indústria monitora qualidade dos bioinsumos
A proximidade da semeadura também aumenta a importância do controle de qualidade na produção de bioinsumos. Como muitos desses produtos são formulados a partir de microrganismos vivos, a indústria precisa assegurar que os agentes biológicos cheguem ao produtor com identidade, concentração, pureza e viabilidade adequadas.
Dados divulgados pela CropLife Brasil em 2026 apontam que o mercado brasileiro de bioinsumos movimentou mais de R$ 6,2 bilhões em 2025, alta de 15% em relação ao ano anterior. A área tratada chegou a 194 milhões de hectares, avanço de 28%.
A soja concentra a maior parcela desse mercado. Levantamento referente à safra 2024/25 indica que a cultura respondeu por 62% do uso de bioinsumos no país. No mesmo período, a taxa média de adoção por área plantada passou de 23% para 26%.
Nesse processo, a qPCR também pode ser utilizada no controle de qualidade dos produtos. A técnica permite quantificar os microrganismos de interesse e identificar possíveis contaminantes, reduzindo o tempo necessário para obtenção dos resultados em comparação com métodos convencionais. “A eficácia dos bioinsumos está diretamente ligada à viabilidade dos microrganismos que compõem sua formulação. As ferramentas moleculares ampliam a capacidade de monitoramento dos fabricantes, oferecendo maior precisão, rastreabilidade e segurança na verificação da identidade e da integridade biológica dos produtos', destaca a especialista.
Do solo ao tratamento das sementes
O planejamento pode começar com a coleta de amostras e a investigação dos principais patógenos associados à cultura. A interpretação dos resultados, entretanto, precisa considerar o histórico da propriedade e as características específicas da área.
A proposta é utilizar o diagnóstico como uma camada adicional de informação para orientar o manejo. Em vez de adotar a mesma estratégia em toda a propriedade, os dados podem ajudar a identificar situações que exigem tratamentos ou medidas preventivas específicas.
Para Tatiani, o ponto central é compreender o ambiente antes da implantação da lavoura. “A proposta não é realizar uma análise molecular da semente antes do plantio, mas compreender melhor o ambiente em que ela será inserida. Quanto mais informações o produtor tiver sobre o solo, maior será sua capacidade de direcionar o tratamento e reduzir riscos antes da implantação da lavoura', menciona.





