Agronegócios
Produção de cana no Brasil pode amenizar déficit de açúcar no mundo
Maior volume colhido nas lavouras brasileiras pode compensar queda de produção na Ásia e Europa.
BATANEWS/BRASILAGRO
O Brasil, principal produtor e exportador de açúcar do mundo, deve manter o mercado global de açúcar abastecido, mesmo diante dos riscos climáticos que reduziram as perspectivas de produção no Hemisfério Norte.
Segundo análise da Hedgepoint Global Markets, a safra de cana no Centro-Sul do Brasil deve atingir 635,5 milhões de toneladas em 2026/27, superando as 611,2 milhões colhidas na temporada anterior.
Segundo a consultoria, esse volume de produção funciona como o principal contrapeso à menor oferta esperada em outros grandes produtores de açúcar, como Índia, Tailândia e Europa.
De acordo com a Hedgepoint, a disponibilidade de cana e a flexibilidade das usinas brasileiras para ampliar a parcela destinada ao adoçante impedem, por enquanto, uma mudança para um déficit estrutural.
“O mercado está ficando mais apertado [em termos de oferta], mas o Brasil ainda tem açúcar suficiente para manter o equilíbrio global confortável”, afirma, em relatório, Lívea Coda, coordenadora de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets.
Oferta brasileira se mantém firme
No Centro-Sul do Brasil, as chuvas interromperam operações e reduziram temporariamente o ritmo de moagem, mas não indicam menor disponibilidade de cana, levando a uma projeção de 635,5 milhões de toneladas.
Para a consultoria, a oferta de matéria-prima permite que as usinas respondam a preços internacionais mais altos. Quando o açúcar remunera mais do que o etanol, aumenta o incentivo para ampliar o mix destinado ao adoçante. Mesmo sob a premissa conservadora de mix de 47,7%, a produção brasileira permanece próxima a 40 milhões de toneladas.
“A abundante disponibilidade de cana no Brasil e a capacidade de ajustar seu mix de açúcar proporcionam um contrapeso poderoso que mantém o mercado fundamentalmente confortável”, diz Lívea.
Riscos para a produção
Apesar de um cenário relativamente confortável para o Brasil em termos de produção. A presença do El Niño liga o alerta para a safra de açúcar em outras regiões. Nesse sentido, a Hedgepoint destaca que a Índia permanece como a variável mais crítica. Após o início tardio da monção e a melhora das chuvas em julho, as previsões apontam precipitação abaixo da média no restante da temporada. Os reservatórios seguem em situação preocupante em importantes regiões produtoras e a estimativa de produção está em cerca de 27,6 milhões de toneladas.
Nesse nível, a produção não gera disponibilidade para exportação. O governo indiano já autorizou a importação de 1 milhão de toneladas, enquanto o mercado acompanha a possibilidade de uma deterioração adicional das condições climáticas. A notícia levou as cotações a testarem 18 centavos de dólar por libra-peso, mas os ganhos não se sustentaram diante da queda dos preços domésticos no país asiático, já sinalizando que a Índia pode não cumprir toda a quota autorizada.
Parte se deve ao fato de o governo indiano possuir outros mecanismos que podem contribuir com a disponibilidade de adoçante no seu mercado interno, como a restrição já imposta aos estoques de distribuidoras e a redução do desvio do produto para produção de etanol.
Na Tailândia, a previsão de moagem foi reduzida para aproximadamente 88 milhões de toneladas de cana, com produção de açúcar estimada em cerca de 9,5 milhões de toneladas e exportações próximas a 6 milhões de toneladas. A menor disponibilidade do país afeta os mercados de açúcar bruto e refinado e ajuda a sustentar o prêmio do produto refinado.
Na Europa, por sua vez, três ondas de calor consecutivas e a seca em França, Alemanha e Polônia pressionaram a produtividade da beterraba, principal matéria-prima para o açúcar feito no bloco. A produção regional é estimada em aproximadamente 14 milhões de toneladas, cenário que eleva a necessidade de importação, reduz a capacidade de exportação e reforça uma perspectiva mais firme para o açúcar refinado.
Fluxos comerciais permanecem superavitários
A disponibilidade para exportação diminui em diferentes regiões, reduzindo o superávit projetado e criando condições mais apertadas ao longo de 2027 quando comparados ao final de 2025 e início de 2026, período marcado por um resultado robusto do Centro-Sul brasileiro e uma recuperação do Hemisfério Norte.
O Brasil, porém, continua capaz de compensar grande parte da retração imposta pelos desafios climáticos recentes.
“Mesmo se as chuvas causadas pelo El Niño em sua principal região produtora levarem a menor participação do açúcar no mix, por exemplo próxima a 47%, os fluxos comerciais globais permaneceriam positivos”, afirma a consultoria.
Entretanto, segue a empresa, dada a paridade corrente de preços entre açúcar e etanol, as usinas devem se esforçar para aumentar a participação do adoçante atingindo próximo a 47.7%, fazendo o cenário global mais confortável.
“Mesmo em cenários brasileiros mais conservadores, caracterizados por um menor mix açúcar, os fluxos comerciais globais permanecem em superávit. O mercado fica menos confortável, mas não chega a apresentar escassez de açúcar”, afirma Lívea
*(Globo Rural, 27/8/26)





