Cotidiano
'A perda de um filho nos deixa semimortos', diz autor do livro 'Elogio à Saudade'
BATANEWS/FOLHA
A conversa sobre o livro 'Elogio à Saudade' aglomerou centenas de pessoas na última edição da Feira do Livro, em São Paulo. Seu autor, o educador e filósofo Fernando José de Almeida, falava sobre o luto por sua filha, Lorena, que morreu em 2023, aos 43 anos.
No livro, em que escreve sobre esperança de futuro, ausência de certezas e de vacina contra a intensa dor de mundo que Lorena sentia, Fernando narra o processo de vivência com o luto, num manifesto pela vida apesar da perda trágica. 'Sou outro. Acho que melhor. Sobrevivi', escreve.
A escrita salva muitas pessoas nos processos de luto. Seu livro é, além de um ato de salvação, a busca por nomear o indizível? Não pensei nisso enquanto escrevia, nem fiz com esse objetivo, mas, quando damos nome ao sentimento, é como se nos apossássemos dele. É isso que Freud diz. A palavra é uma apropriação do objeto, não completa, mas importante, porque faz ter maior controle sobre ele. O sentimento do 'não-nomeado' carrega todo o peso do obscuro trágico. O exercício da escrita ajuda a elaborar as ideias enquanto o luto vai acontecendo. Isso se dá desde os primeiros instantes, da cerimônia de velar o corpo, até os encontros que tenho ainda hoje com pessoas próximas a ela, e sempre que evocamos o nome da Lorena.
Andrés Bruzzone escreveu que 'um dia, depois de muitos, descobre-se que hoje não choramos; que o primeiro pensamento do dia não foi o filho morto (foi o segundo pensamento, talvez, e isso faz toda a diferença)'. E depois? No início, a dor é contínua. Não há idas e vindas. É enorme o alívio quando o primeiro pensamento do dia não é essa dor. Mas, na minha experiência, apesar da diminuição da frequência, a dor só aumentou. Deixou de ser um pensamento que me consumia o tempo todo, mas passou a ser mais intensa. Faço muitas coisas, trabalho muito, caminho com as amigas da Lorena; tenho vários momentos de não sofrer, de disfarces que amenizam a dor. Mas a interrupção não causa sua diminuição, pelo contrário: a intermitência da dor faz com que ela se condense, fique mais forte nos momentos em que perdura.
Você pensou que a publicação do livro ajudaria outras pessoas a sobreviver às perdas? Quando encontrei, por acaso, um amigo, o José Miguel Wisnik, contei que estava escrevendo um livro sobre a Lorena. Ele perguntou: 'Está te ajudando?', e respondi que sim. Ao que ele me disse: 'Então continua. Porque vai fazer bem aos outros'. Na minha ecologia familiar, fui um inventariante do sofrimento que a perda da minha filha provocou. Invoquei a responsabilidade por administrar as dores dos meus netos —seus filhos, de 15 e 18 anos—, e da minha esposa, a mãe da Lorena, que estavam ainda mais abalados que eu. Eu precisava prover os atenuantes do sofrimento, e não me entregar ao papel de sofredor, para aumentar o grau de suportabilidade que a família sofria. Essa condição de administrador de sentimentos me levou a uma demanda para que eu os narrasse. Fiz isso pela primeira vez a pedido do site 'Vamos falar sobre o luto?', projeto que pretende conectar 'pessoas e informações que estão dispersas para tornar o luto menos solitário e desamparado'. Então, de certa forma, essa ajuda sobre a qual você me pergunta já estava apresentada como uma consequência do que eu viria a fazer.
'Elogio à Saudade' é um livro sobre suicídio? Eu não escrevi um livro sobre suicídio. Falo sobre a minha filha, Lorena, que morreu por suicídio. Mas falo sobre a vida dela. Na história dela, entendo que houve uma escolha do momento de sair, e isso não diz nada para mais ninguém, nem diz sobre as razões de um suicida, razões que jamais conheceremos. Podemos especular, mas isso provavelmente levará a injustiças e irresponsabilidades. Eu não consigo ver minha filha como uma coitada, pela forma como ela organizou sua partida. Eu a vejo como alguém que quis sair da vida com dignidade. Mas eu não tento entender o suicídio. E nem poderia.
Sinto que esta conversa foi mais dolorosa do que eu pretendia. Desculpe se fui invasiva. É difícil falar sobre a Lorena, mas é bom falar sobre ela. Celebrar a pessoa que era a própria festa em cada lugar a que chegava, que era bonita, charmosa, cheia de vida. Mas que também sentia de forma intensa a dor de mundo de que você falou. Esse incômodo lacrimejante que tenho ao falar também ajuda a depurar aspectos da perda.





