Saúde
Descobertas sobre longevidade avançam, mas abrem questão: por que queremos viver sempre mais?
A busca ancestral por superar as fronteiras do envelhecimento biológico provoca reflexões sobre o sentido de viver tanto
BATANEWS/VEJA
Células que perdem o controle e se multiplicam sem parar. Células que passam a produzir substâncias de mais ou de menos. Células cujas conexões com suas pares são desligadas. Células que viram zumbis e rondam o organismo liberando compostos potencialmente nocivos. Os estudiosos sabem, hoje, em nível microscópico, os fenômenos que desafiam o sonho da imortalidade. As mesmas peças de um quebra-cabeça que propicia a vida podem, com o avançar dos anos, decretar a finitude. Assim funciona o corpo humano. E é a partir desse conhecimento, refinado por novas tecnologias na última década, que tanto pesquisadores de universidades quanto bilionários do Vale do Silício continuam nutrindo uma antiga aspiração: driblar a biologia e ganhar, se não a existência eterna, ao menos o passaporte para romper o limite dos 100, 120, 150 anos… A busca pela perpetuidade, cultivada desde a Antiguidade, hoje se reveste de roupagem high-tech. No entanto, segue suscitando uma questão profundamente filosófica: por que queremos viver sempre mais?
Essa pergunta é reformulada e gera novas e instigantes reflexões no livro Por que Morremos: o Envelhecimento e a Busca pela Imortalidade, do biólogo indo-britânico Venki Ramakrishnan, Prêmio Nobel de Química de 2009 e ex-presidente da respeitada Royal Society de Londres. O cientista entende do assunto com a profundidade e os detalhes que a fisiologia exige. Levou a láurea por ter desvendado os ribossomos, as minúsculas fábricas instaladas nas células que montam as proteínas, desempenhando um papel central na manutenção da vida. Na obra, recém-publicada no Brasil pela Editora Contexto, Ramakrishnan reúne os principais progressos na compreensão e no aumento da longevidade humana, mas não hesita em fazer um contraponto ao que ele chama de indústria do rejuvenescimento, muitas vezes calcada em promessas sem embasamento algum. Sóbrio, o autor de 74 anos enfatiza que o maior objetivo da medicina hoje não deveria ser uma vida sem fim, mas ter mais anos vividos com saúde.
Só que nem sempre essa diferença é percebida ou vivenciada por boa parte das pessoas — elas temem ficar velhas e morrer, o que é um receio legítimo. No entanto, é assim que se tornam vulneráveis a uma infinidade de receitas, dietas, suplementos e pseudotecnologias que vendem a promessa de corpos (e células) que não envelhecem. “Sempre há alguém disposto a explorar essa fragilidade e nem sempre o público consegue distinguir o que é um modismo ou promessa exagerada”, disse o Prêmio Nobel a VEJA. Exageros também são divulgados por milionários que investem pesado em fórmulas para ultrapassar os 100 anos. O caso mais emblemático é o do americano Bryan Johnson, 48, que já investiu quase 1 bilhão de dólares para tentar se tornar imortal. Ramakrishnan não condena esse tipo de atitude, mas traça inúmeras ponderações. “Quando muito dinheiro é investido em uma pesquisa, alguma coisa positiva tende a surgir, especialmente se estiver nas mãos de bons cientistas”, afirma. “Mas suspeito das motivações por trás desses projetos e de quão realmente serão vantajosos para a sociedade como um todo.”
O fato é que a busca pela longevidade já frutificou. A humanidade praticamente dobrou sua expectativa de vida do início do século XX para o XXI. A ciência assina embaixo dessas marcas: saneamento básico, vacinação e acesso a diagnóstico e medicamentos mudaram a forma de enxergar e experimentar a velhice. Mas nossa espécie quer sempre mais. “O principal objetivo dos pesquisadores sérios hoje é promover um envelhecimento saudável, não necessariamente aumentar demais a expectativa de vida”, diz Ramakrishnan. Porém, o premiado professor reconhece que existem linhas de estudo promissoras que procuram ampliar a longevidade e enfrentar processos prejudiciais decorrentes do nosso prazo de validade biológico. Nessa direção, ele destaca tratamentos experimentais que tentam imitar os efeitos da restrição calórica — apontada como um hábito favorável ao envelhecimento —, combater as chamadas células senescentes, que alimentam uma inflamação crônica relacionada a diversos problemas de saúde, e reprogramar as próprias células a fim de regenerar tecidos do organismo. “Todas essas abordagens ainda estão em um estágio em que os resultados são animadores em animais, mas ainda dependem de ensaios clínicos rigorosos para comprovar sua segurança e eficácia em humanos”, diz Ramakrishnan.
O ponto central de seu livro Por que Morremos, contudo, é que ganhar dez, vinte ou trinta anos de vida por meio de eletrodos ou cápsulas não vai resolver nossos dilemas existenciais. Porque, no fundo, muito além do número de velas sopradas a cada aniversário, o que importa é como viveremos esse tempo extra. Hoje, uma realidade comum a vários países, incluindo o nosso, é que realmente as pessoas passam dos 70 ou 80, mas em geral convivendo com doenças crônicas que limitam seu bem-estar. E, a partir do momento que conseguimos estancar algumas causas de morte, outros males por trás do adoecimento ganham terreno. O mais desafiador, parece não haver dúvida, é o Alzheimer. “Ainda não compreendemos completamente os mecanismos que levam a seu desenvolvimento, e criar medicamentos capazes de atuar no cérebro persiste como uma enorme dificuldade”, diz Ramakrishnan.
É por isso que pensadores e estudiosos têm defendido novos conceitos para alargar nossa visão de envelhecimento saudável hoje. A gerontóloga americana Kerry Burnight defende a noção de “tempo de vida com alegria”, sintetizada pelo termo em inglês que batiza seu novo livro, Joyspan (Editora Sextante). A grande pergunta que deveria nos mover, afirma a autora, é: “Por que você quer viver mais tempo? Para quê? Para quem?”. Na verdade, uma vida longa e feliz vai além de aspectos puramente biológicos. “Envelhecer bem é aprender a lidar com a vida sem esperar que ela seja fácil nem impossível, é ser capaz de mudar de ideia e se adaptar, é ter algo no horizonte que nos faça acordar de manhã, é também nutrir pequenos e grandes prazeres”, diz a psicóloga Ilana Pinsky, coautora do recém-lançado Longevidade Hoje (Editora Fósforo) ao lado da neurocientista Sharon Sanz Simon. Uma mudança de mentalidade que, como postulam as autoras, também depende de uma infraestrutura capaz de sustentá-la. Porque nem uma célula nem uma pessoa sozinha fazem verão. Mas, uma vez juntas, é possível prosperar entre uma primavera e outra e aceitar melhor a própria finitude.
“Ser imortal é uma miragem”
Um dos maiores nomes no estudo do envelhecimento biológico, o Prêmio Nobel Venki Ramakrishnan falou com exclusividade a VEJA ao lançar seu novo livro no Brasil. Leia alguns trechos da conversa.
O senhor faz questão de diferenciar o conceito de viver mais da ideia de envelhecer bem. Esse é o grande dilema da longevidade hoje? O principal objetivo dos pesquisadores sérios é promover um envelhecimento saudável — ou seja, melhorar a saúde na velhice sem necessariamente aumentar demais a expectativa de vida. Ainda não sabemos se é possível alcançar uma coisa sem a outra. Talvez simplesmente consigamos prolongar a velhice, enfrentando um declínio gradual das capacidades físicas no final da vida.
Há muitos produtos antienvelhecimento à venda por aí. Como diferenciar o que tem base científica do que é puro marketing? De fato, muitos deles apresentam uma aparência científica e, às vezes, até se baseiam em resultados preliminares obtidos em experimentos com animais. Então, é difícil para o público distinguir o que vale a pena do que não passa de modismo ou promessa exagerada. Uma boa maneira de avaliar é perguntar se já foram realizados estudos controlados em humanos demonstrando que aquele tratamento ou suplemento é seguro e eficaz. Também é importante questionar quantas pessoas participaram dessas pesquisas e qual foi realmente a magnitude dos benefícios.
O senhor escreve que uma vida extremamente longa — ou mesmo uma espécie de imortalidade — não nos faria necessariamente mais felizes. Por quê? Acredito que, se aumentássemos nossa expectativa de vida nesse nível, rapidamente nos acostumaríamos com um novo limite e passaríamos a desejar viver ainda mais. Não tenho certeza de que isso nos tornaria mais felizes. No fim das contas, ser verdadeiramente imortal é uma miragem. Creio que a consciência de que a vida tem um fim também nos impulsiona a realizar coisas importantes. Se vivêssemos indefinidamente, é bem provável que procrastinaríamos tudo e não produziríamos muito mais.
É preciso mudar nossa perspectiva sobre finitude se quisermos ter uma vida melhor? O envelhecimento e a morte despertam um medo instintivo, e naturalmente preferimos evitá-los. Mas figuras como Mozart e Schubert deixaram uma obra extraordinária mesmo tendo vivido vidas relativamente curtas — uma obra que pode até ser considerada maior que a de muitos outros compositores que viveram bem mais tempo do que eles. Então, talvez seja preciso aprender a aceitar nossa mortalidade e aproveitar ao máximo a vida que temos.
Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010





