A sociedade que queremos começa em nós e na responsabilidade de cada um

Da bituca acesa ao lixo no bueiro, gestos considerados pequenos podem provocar danos enormes à coletividade

BATANEWS/REDAçãO


Lixo jogado na calçada expõe falta de consciência que prejudica toda a cidade e pode agravar alagamentos ao entupir bueiros. (Foto Campo Grande News)

É fácil culpar o poder público quando a rua alaga. Mais difícil é olhar para a garrafa, a sacola ou o copo descartável jogados na calçada e reconhecer que, quando chega a chuva, esse lixo pode terminar dentro de um bueiro e ajudar a transformar uma avenida em rio.

É fácil reclamar da fumaça, do fogo e da destruição provocada pelos incêndios. Mas ainda há quem jogue pela janela do carro uma bituca de cigarro acesa, como se aquele pequeno gesto desaparecesse no retrovisor. Em segundos, principalmente durante a estiagem, uma irresponsabilidade aparentemente insignificante pode se transformar em hectares queimados, animais mortos, propriedades ameaçadas e dinheiro público gasto no combate às chamas.

Também reclamamos das doenças, das filas nos hospitais e da sobrecarga do sistema de saúde. Ao mesmo tempo, vacinas seguras são disponibilizadas gratuitamente e parte da população simplesmente decide não tomá-las ou não levar os filhos para receber as doses recomendadas. Uma escolha apresentada como individual pode ter consequências coletivas, porque algumas doenças que estavam controladas encontram espaço para voltar a circular.

São exemplos diferentes de um mesmo problema: a dificuldade de compreender que viver em sociedade exige responsabilidades.

Isso aparece também no trânsito, quando alguém estaciona em fila dupla porque serão 'só cinco minutos'. Surge na fila do banco, do supermercado ou de qualquer serviço quando uma pessoa tenta passar na frente das demais. Está no motorista que ocupa a vaga destinada à pessoa com deficiência, no cidadão que abandona entulho em terreno vazio e naquele que exige respeito enquanto desrespeita regras básicas de convivência.

Há sempre uma justificativa particular. Estou com pressa. É só um papel. É apenas uma bituca. São cinco minutos. Não vai acontecer nada. Ninguém está vendo.

O problema começa exatamente aí.

Uma cidade não é construída apenas com as grandes decisões de prefeitos, governadores, vereadores, deputados ou presidentes. Ela também é resultado de milhões de pequenas decisões tomadas diariamente por seus moradores.

O poder público tem responsabilidades que não podem ser transferidas ao cidadão. Deve limpar ruas, manter bueiros e galerias, fiscalizar, combater incêndios, oferecer saúde, garantir vacinação, organizar o trânsito e aplicar a lei. Não pode utilizar o comportamento inadequado da população como desculpa para sua própria incompetência.

Mas a relação funciona nos dois sentidos.

Não existe serviço público capaz de compensar permanentemente uma sociedade que insiste em produzir problemas que poderiam ser evitados. Não haverá equipes suficientes para recolher todo lixo se parte da população continuar transformando ruas em lixeiras. Não haverá fiscalização em cada esquina. Não haverá bombeiro atrás de cada fumante. Nem agente de trânsito acompanhando cada motorista.

É nesse espaço, onde a fiscalização não alcança, que aparece uma palavra muitas vezes esquecida: consciência.

Cidadania não é apenas votar, pagar impostos e cobrar direitos. É também compreender que o direito de cada pessoa termina onde começa o prejuízo imposto às demais.

Talvez seja essa uma das discussões necessárias para qualquer sociedade que pretenda ser mais justa e igualitária. Antes de perguntar apenas o que o Estado deve fazer por nós, precisamos também perguntar o que estamos fazendo pela cidade onde vivemos.

Isso não significa diminuir a cobrança sobre governos. Pelo contrário. Devemos exigir escolas melhores, saúde eficiente, segurança, transporte digno, ruas cuidadas, fiscalização e aplicação correta do dinheiro público. Mas a autoridade moral dessa cobrança se fortalece quando cada cidadão também cumpre sua parte.

Não jogar lixo na rua não exige uma nova lei. Não lançar cigarro aceso no mato não depende de orçamento público. Respeitar uma fila não precisa de fiscalização. Não parar em fila dupla não requer investimento milionário. Vacinar-se quando há indicação e disponibilidade não exige favor político.

Exige responsabilidade.

Uma sociedade melhor não nasce somente de grandes reformas, discursos ou promessas. Ela começa em atitudes aparentemente pequenas, repetidas todos os dias por milhões de pessoas.

Queremos cidades limpas, mas precisamos não sujá-las. Queremos trânsito organizado, mas precisamos respeitar suas regras. Queremos saúde pública funcionando, mas devemos participar da prevenção. Queremos respeito, mas precisamos respeitar.

Porque existe uma verdade simples que nenhuma política pública consegue substituir: não há sociedade responsável formada por cidadãos que acreditam que a responsabilidade é sempre do outro.

Por: José Cândido / Campo Grande News