Saúde
A nova classificação global do infarto: o que muda na forma de entender os ataques cardíacos
Consenso internacional divide eventos que estão por trás da principal causa de morte no mundo em três categorias, de acordo com sua origem
BATANEWS/VEJA
Por décadas, quando um cardiologista dizia que um paciente teve um “infarto tipo 2” ou “tipo 4c”, a frase parecia extraída de um manual de códigos — e, para a maioria dos pacientes, dizia quase nada sobre o que realmente havia acontecido com o coração.
Essa era acaba de chegar ao fim. Quatro das principais sociedades de cardiologia do mundo — a Sociedade Europeia de Cardiologia, o Colégio Americano de Cardiologia, a Associação Americana do Coração e a Federação Mundial do Coração — publicaram, na última sexta-feira, a Quinta Definição Universal de Infarto do Miocárdio, documento que troca os antigos rótulos numéricos por três categorias baseadas na causa real do problema. A proposta será apresentada oficialmente no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, em Munique, no dia 30 de agosto.
Infarto do miocárdio é o nome técnico para o que a maioria conhece como “ataque cardíaco” — quando parte do músculo do coração deixa de receber sangue e oxigênio suficientes e começa a morrer. É uma das doenças cardiovasculares mais comuns: estudos estimam que a condição atinja cerca de 3,8% das pessoas com menos de 60 anos e 9,5% das que têm mais de 60, sendo uma das principais causas de morte no mundo.
Adeus aos códigos, olá às causas
Desde 2007, os infartos eram classificados por uma sequência de tipos e subtipos — 1, 2, 3, 4a, 4b, 4c, 5 — que descreviam mecanismos clínicos específicos, mas raramente eram usados no dia a dia dos consultórios.
“As pessoas costumam pensar em um infarto como um ataque cardíaco causado por uma artéria coronária entupida, mas existem muitas causas diferentes”, explicou Nicholas Mills, presidente da Sociedade Europeia de Cardiologia e professor da Universidade de Edimburgo, na Escócia. Segundo ele, o sistema numérico anterior “nem sempre era fácil de aplicar na prática clínica”, o que gerava inconsistências no diagnóstico e no tratamento.
A partir de agora, todo infarto se encaixa em um de três cenários clínicos.
O primeiro é o infarto primário, que surge de forma espontânea por um problema agudo em uma artéria coronária — geralmente a ruptura de uma placa de gordura, mas também pode ser causado por um rasgo na parede do vaso (a chamada dissecção espontânea de artéria coronária), um espasmo ou um coágulo.
O segundo é o infarto secundário, que acontece quando outra condição do corpo — como uma pressão arterial muito alta ou muito baixa, ou um coração acelerado demais — desequilibra a oferta e a demanda de oxigênio do músculo cardíaco.
Já o terceiro, o infarto relacionado a procedimento, é aquele que ocorre até 30 dias depois de uma intervenção como um cateterismo com stent ou uma cirurgia de ponte de safena.
Para Kristin Newby, da Universidade Duke, nos Estados Unidos, e copresidente do documento pelo Colégio Americano de Cardiologia e pela Associação Americana do Coração, a mudança também é uma questão de comunicação: “Clínicos frequentemente não usam a terminologia numérica anterior — como tipo 2 ou tipo 4c — nas conversas com os pacientes, porque é bastante complexa. Com a nova abordagem, podemos agora falar com os pacientes sobre a causa do infarto, para que eles entendam sua condição e reconheçam por que os próximos passos, como exames e tratamentos adicionais, são necessários.”
O infarto que atinge mais mulheres
Um dos pontos mais sensíveis da atualização é o destaque dado à dissecção espontânea de artéria coronária, causa de infarto primário que ocorre predominantemente em mulheres e que, segundo os autores do documento, ainda é subdiagnosticada. Sarah Zaman, da Universidade de Sydney, na Austrália, e presidente da Federação Mundial do Coração, afirmou que a nova definição foi construída em conjunto com a Organização Mundial da Saúde para propor códigos na 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças que reflitam essas categorias
. “A implementação vai levar tempo, mas vai resultar em melhor monitoramento de saúde pública e planejamento dos sistemas de saúde”, disse. Ela destacou que a padronização deve abrir caminho para pesquisas maiores sobre mecanismos de infarto menos comuns — caso da própria dissecção coronariana.
Por que a mudança é importante?
Na prática, a nova classificação não altera o tratamento imediato de quem chega a um pronto-socorro com sintomas de infarto — isso continua sendo definido pelos protocolos de emergência já existentes.
O que muda é a forma como médicos vão registrar, comunicar e estudar o problema depois do primeiro atendimento, o que pode significar diagnósticos mais consistentes entre hospitais e países, e conversas mais claras entre cardiologista e paciente na hora de entender por que aquele infarto aconteceu — e o que fazer para evitar o próximo.






