Vacina contra dengue da Takeda protege adolescentes de internação mesmo após uma dose, mostra estudo

BATANEWS/FOLHA


Ampolas da vacina Qdenga, da Takeda - Daniel Duarte - 19.nov.25/AFP

A vacina Qdenga, do laboratório Takeda, teve efetividade de 88% contra hospitalizações pela doença entre adolescentes de 10 a 15 anos que receberam duas doses, segundo um estudo realizado durante as epidemias de 2024 e 2025 no estado de São Paulo.

A pesquisa acompanhou o desempenho do imunizante na chamada fase 4 de testes, quando se avalia o uso de um remédio ou vacina durante seu período inicial de circulação. Nesse contexto, há uma amostra maior e, portanto, mais dados sobre possíveis efeitos colaterais, efetividade e dosagem.

O estudo também encontrou proteção contra dengue sintomática e hospitalizações também entre aqueles que haviam recebido apenas uma dose —o que pode ser um indicativo, no futuro, de que apenas uma dose basta para promover a proteção.

Foram analisados 166.390 testes de dengue realizados em adolescentes no período de 20 de fevereiro de 2024 a 31 de dezembro de 2025. Desses, 65.365 resultados são positivos e 101.025 negativos. Os pesquisadores relacionaram os resultados dos exames aos registros de vacinação e utilizaram o desenho caso-controle test-negativo, método empregado para estimar a efetividade de vacinas em condições de vida real.

Entre os adolescentes que receberam duas doses, a efetividade estimada contra dengue sintomática confirmada por teste de antígeno foi de 73,1%. Contra hospitalização, chegou a 87,9%. Com uma dose, as estimativas foram de 59,2% contra a doença sintomática e 74,6% contra hospitalização.

Uma análise anterior do mesmo grupo havia levantado a possibilidade de que a proteção da primeira aplicação começasse a diminuir após cerca de 90 dias. Com um período maior de acompanhamento, porém, os pesquisadores não encontraram evidências dessa redução.

Entre 270 e 364 dias após a primeira dose, a efetividade contra dengue sintomática foi estimada em 74%. A partir de 365 dias, chegou a 77%. A proteção contra hospitalização também permaneceu durante o período analisado.

Segundo o pesquisador Julio Croda, um dos autores do estudo, os resultados mostram como análises realizadas após o registro de uma vacina podem acrescentar informações que não são obtidas nos ensaios clínicos usados para sua aprovação.

'Na fase três, nós temos um grupo muito menor de pessoas. Portanto, ainda que se constate a eficácia contra a doença sintomática, não é possível precisar hospitalização, efeitos adversos raros e até mesmo benefícios menos perceptíveis na amostra', afirma.

Os ensaios clínicos realizados antes do registro da Qdenga envolveram cerca de 20 mil pessoas, enquanto a nova análise utilizou dados de mais de 166 mil testes de dengue. O número maior de participantes aumenta a precisão das estimativas e permite observar eventos menos frequentes.

Há também diferenças nas condições epidemiológicas entre os estudos. No ensaio clínico da Qdenga, cerca de 70% dos participantes tinham sorologia positiva para dengue. No estudo realizado em São Paulo, a maior parte dos adolescentes era soronegativa, segundo o pesquisador.

A pesquisa também acompanhou uma mudança na circulação dos sorotipos da dengue no estado. Em 2024, predominavam os sorotipos 1 e 2. Em 2025, houve aumento da circulação do sorotipo 3, que estava há mais de uma década com pouca presença em São Paulo.

Mesmo com a mudança no cenário epidemiológico, a efetividade geral da vacina não apresentou queda. O resultado, porém, não permite afirmar qual foi a proteção especificamente contra o sorotipo 3. A informação sobre o sorotipo responsável pela infecção estava disponível para apenas uma pequena parcela dos casos.

Segundo Croda, novos estudos são necessários para avaliar o desempenho da vacina especificamente diante da circulação do sorotipo 3 e acompanhar a proteção por períodos mais longos.

Apesar da proteção observada após uma aplicação, os pesquisadores não recomendam que o resultado seja interpretado como evidência de que uma dose seja suficiente para substituir o esquema atual.

O estudo não foi desenhado para comparar diretamente estratégias de uma e duas doses, e a segunda aplicação produziu estimativas superiores de proteção, principalmente contra hospitalizações. Por isso, o esquema completo continua sendo o recomendado.

O resultado com uma dose, porém, abre uma possibilidade de investigação para futuras estratégias de vacinação. Caso estudos com acompanhamento mais longo confirmem a manutenção da proteção, os dados poderão ser considerados em discussões sobre o uso do imunizante em diferentes cenários, inclusive em situações de escassez de vacinas.

'Até um ano de acompanhamento, uma dose continua sendo protetora. Com mais um ou dois anos de acompanhamento, a OMS (Organização Mundial da Saúde), a OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde) e o Ministério da saúde podem avaliar uma eventual recomendação de uma dose para a população', disse o pesquisador.

A Qdenga é uma vacina tetravalente de vírus vivos atenuados contra os quatro sorotipos do vírus da dengue. No Brasil, a vacinação começou em 2024, durante uma epidemia da doença, inicialmente com prioridade para crianças e adolescentes e municípios com maior incidência. Em São Paulo, a campanha começou em fevereiro daquele ano, com duas doses administradas com intervalo de três meses.

O estudo levou em consideração fatores que poderiam interferir nos resultados, como idade, sexo, raça ou cor autodeclarada, presença de doenças crônicas, município de residência e período da epidemia. Segundo os autores, análises de sensibilidade produziram resultados semelhantes aos da análise principal.

Entre as limitações está a falta de informação suficiente sobre os sorotipos responsáveis pela maioria das infecções, o que impede estimar separadamente a efetividade. Os pesquisadores também apontam a necessidade de acompanhamento mais longo para determinar por quanto tempo a proteção se mantém após a vacinação.

O trabalho foi coordenado por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com participação de cientistas da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e de universidades dos Estados Unidos e da Espanha. O estudo recebeu financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).