A maior armadilha do emagrecimento: o que a balança não conta na era do Ozempic

Pesquisadores brasileiros revelam que, sem exercício, os novos remédios para emagrecer não bastam

BATANEWS/VEJA


Exercício físico: manutenção dos músculos e da funcionalidade durante uso de canetas (Oranuch/AdobeStock/Reprodução)

Perder peso e ganhar saúde parecem a mesma coisa. Não são. Essa distinção, tão simples quanto negligenciada, está no centro de um artigo que acaba de sair na revista científica Obesity Medicine , assinado por um grupo de pesquisadores brasileiros — de universidades e institutos de Goiânia, Florianópolis e Rio de Janeiro. O título traz uma provocação elegante: estamos olhando para o lugar errado.

Vivemos a era dos análogos de GLP-1, os agora célebres remédios da família do Ozempic e do Mounjaro. Eles funcionam, e funcionam bem: reduzem o apetite, derretem quilos e mudaram para sempre o tratamento da obesidade. Mas, à medida que milhões de pessoas passam a usá-los, cresce uma preocupação legítima — a de que, junto com a gordura, se perca também massa muscular.

O alarme soou, e boa parte do debate médico passou a girar em torno de uma única pergunta: como preservar o músculo?

Os autores brasileiros propõem que essa pergunta, embora importante, mira o alvo errado. O ponto não é apenas quanto músculo se preserva, mas sim as atividades que o corpo é capaz de fazer. E aqui entra uma evidência relevante.

Um estudo dinamarquês recente, o ensaio S-LiTE, dividiu pacientes em grupos: alguns tomaram apenas o medicamento; outros combinaram o remédio com exercício estruturado. Todos tiveram redução de peso de forma parecida.

Mas só os que se exercitaram melhoraram o condicionamento cardiorrespiratório — a capacidade do coração e dos pulmões de sustentar esforço — e a função física, aquilo que permite subir escadas sem ofegar. O remédio sozinho, apesar de reduzir a balança, não entregou esses ganhos. A conclusão incomoda quem procura atalhos: emagrecer, por si só, não deixa ninguém mais apto.

A distinção não é acadêmica. Décadas de pesquisa mostram que o condicionamento cardiorrespiratório e a força muscular são preditores mais robustos de mortalidade do que o simples volume de músculo. Em outras palavras: importa menos o tamanho do bíceps e mais o que o organismo consegue realizar.

Uma pessoa magra e sedentária pode ter risco cardiovascular maior do que alguém com sobrepeso e bem condicionado — um paradoxo que a balança jamais revelaria.

Há ainda uma armadilha técnica que os autores fazem questão de apontar. Os métodos usados para medir massa magra nesses estudos podem superestimar a perda de músculo, porque confundem com ela a saída de água e de outros tecidos que acompanha naturalmente a redução da gordura. Ou seja: parte do “músculo perdido” pode ser, em boa medida, um artefato de medição. Mais um motivo para não reduzir toda a discussão a esse único número.

Nada disso significa desprezar a massa muscular — ela continua essencial, sobretudo em idosos e em quem já convive com fragilidade física. Segundo um dos pesquisadores brasileiros, Marcos Fortes, o exercício não deveria ser tratado como um mero acessório para “segurar o músculo” durante o tratamento, mas reconhecido como uma intervenção terapêutica por direito próprio.

“Ele melhora o sono, a pressão, a sensibilidade à insulina, a densidade dos ossos, a frequência cardíaca de repouso, a qualidade de vida — e ajuda, inclusive, a manter o peso perdido no longo prazo” aponta o pesquisador.

Uma recente declaração da Associação Americana do Coração reforça exatamente esse ponto: atividade física durante e depois do emagrecimento não é opcional.

O estudo nacional testou uma dose específica de um medicamento mais antigo, a liraglutida diária. Se as mesmas conclusões valem para os fármacos mais novos e potentes, como semaglutida e tirzepatida, ainda é uma pergunta em aberto — justamente por provocarem reduções de peso maiores. É terreno para futuras pesquisas.

Mas a ideia de fundo permanece, e é poderosa em sua simplicidade. A caneta que hoje transforma a medicina da obesidade não substitui o tênis de corrida.