Justiça
Como André Mendonça virou o jogo no novo ‘round’ da disputa com Moraes e deixou Lula em silêncio
Cientista político aponta Fachin como peça central para recuperar a credibilidade da Corte
BATANEWS/VEJA
André Mendonça parecia ter terminado a semana em desvantagem na disputa aberta dentro do Supremo Tribunal Federal em torno das revelações envolvendo Alexandre de Moraes, depois que o ministro abriu reação contra ele. Segundo o colunista Robson Bonin, porém, a sucessão de novos fatos envolvendo o afastamento de Andrei Rodrigues da PF alterou a correlação de forças, aumentou a pressão sobre as instituições e dificultou uma estratégia de simplesmente deixar o assunto para depois das eleições. No Ponto de Vista, apresentado por Laísa Dall’Agnol, Bonin avaliou que os acontecimentos representam uma ‘nova bomba em Brasília’, enquanto o cientista político Elias Tavares apontou o presidente do STF, Edson Fachin, como o personagem que agora carrega a responsabilidade de dar uma resposta institucional à crise (este texto é um resumo do vídeo acima).
Na avaliação de Bonin, Mendonça vinha de uma semana em que “aparentemente parecia estar em desvantagem”, com pouco apoio diante do grupo de ministros que se reúne em torno de Moraes. O colunista afirmou que havia também sinais de que Fachin poderia tentar levar a crise “em banho-maria” e deixar para depois das eleições a análise das revelações sobre o caso Master. Os novos acontecimentos, porém, teriam tornado esse caminho mais difícil.
O que fez o jogo começar a virar para Mendonça?
Bonin destacou as questões envolvendo a atuação da Polícia Federal como um dos elementos capazes de mudar o ambiente dentro do Supremo. Segundo ele, o fato de a PF ter investigado o gabinete de um ministro da Corte tende a reduzir o apoio interno à ideia de que a corporação tenha liberdade para atuar dessa maneira.
A consequência política dessa mudança é relevante: Mendonça passa a atuar em um ambiente no qual aumenta a cobrança para que o próprio STF esclareça o que ocorreu.
Bonin reforçou essa avaliação ao comentar a mobilização da Ordem dos Advogados do Brasil diante da crise. Para ele, manifestações de entidades da sociedade civil ganham importância justamente quando os Poderes parecem hesitar em apresentar respostas rápidas. “As próprias instituições, os próprios Poderes da República, estão aparentemente vacilando em dar respostas céleres à sociedade”, afirmou.
Por que a pressão externa favorece uma resposta do Supremo?
Segundo Bonin, o STF ainda não havia deixado claro como analisaria as acusações surgidas no relatório da PF. O colunista questionou se haverá sessão pública para discutir o material e destacou que Fachin, apesar de ter prometido providências, ainda não havia indicado quando ou como elas seriam tomadas.
Na avaliação de Bonin, essa falta de definição não ocorre isoladamente. Ele citou também a atuação da Procuradoria-Geral da República, o silêncio de Lula diante de aspectos da crise e a postura do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre. Para o colunista, a ausência de respostas institucionais abre espaço para que entidades organizadas aumentem a cobrança.
“Quando as instituições todas não falam, as entidades da sociedade civil organizada aparecem para reverberar essas posições e cobrar celeridade”, afirmou.
Esse movimento acrescenta uma nova camada à mudança de cenário descrita por Bonin. Se inicialmente havia espaço para postergar a discussão, a mobilização externa e a sucessão de fatos tornam maior o custo de uma demora na resposta.
Como Fachin passou a carregar o peso da crise?
Para Elias Tavares, é justamente nesse ambiente que Fachin ganha protagonismo. O cientista político afirmou que as manifestações dirigidas ao presidente do STF lhe conferem autoridade política e institucional para agir, mas, ao mesmo tempo, aumentam a responsabilidade sobre suas decisões. Segundo Tavares, está agora sobre os ombros do presidente do STF “a responsabilidade de dar a resposta institucional para a população” e de recuperar a credibilidade da Corte.
Uma investigação pública pode mudar o desfecho da disputa?
Tavares também defendeu que a maneira como o Supremo conduzir a apuração será determinante para sua capacidade de recuperar confiança. “Quanto mais a investigação for pública, colegiada e submetida ao devido processo legal, maior evidentemente será a capacidade do Supremo de recuperar sua confiança e credibilidade”, afirmou.
A avaliação reforça a mudança de ambiente descrita por Bonin. O que inicialmente poderia ser tratado como uma disputa interna na qual Mendonça aparecia com pouco apoio passou a envolver uma cobrança mais ampla por esclarecimentos, tanto dentro quanto fora do tribunal.






