Justiça
Os movimentos da ala política do STF que podem tumultuar a sessão que definirá destino de Moraes
Pedidos de Moraes e Zanin e a Operação Spoofing como espelho levam sessão da próxima semana a desfecho imprevisível
BATANEWS/VEJA
Desde as primeiras revelações sobre o contrato milionário da advogada Viviane Barci de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro, expoentes da dita ala política do Supremo Tribunal Federal (STF) sempre apostaram em uma articulação de bastidor capaz de não dragar a mais alta corte do país para a crise por que passa hoje. Foram reuniões fora da agenda com representantes do Executivo, jantares na casa do presidente do Senado Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) para tratar essencialmente de André Mendonça e sessões de ataques privados ao relator do caso Master, ao advogado-geral da União Jorge Messias e ao ministro da Justiça Wellington Lima e Silva, tidos como partidários ou apáticos diante de um desgaste monumental para a imagem do Judiciário.
Ao final, a corrosão pública nem de perto arrefeceu, e foi agendada uma sessão plenária para a próxima terça-feira, 15, na qual será discutida a validade de um relatório policial que apontou relações promíscuas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Movimentos feitos por ministros desta ala nesta sexta-feira, 11, porém, indicam que a ofensiva tem o potencial de escalar para níveis inimagináveis. Primeiro, o ministro Moraes pediu que seja apreciado em conjunto na próxima semana uma solicitação feita por ele para investigar Mendonça por uma suposta apuração clandestina. Como se sabe, Moraes alega que o relator do caso Master no STF determinou que fossem levantadas informações sobre ele, sem aval prévio do tribunal, o que o mais poderoso integrante do Supremo classifica como abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade, este último senha para a abertura de um processo de impeachment no Senado.
Depois, o ministro Cristiano Zanin encaminhou ao presidente da Corte, Edson Fachin, pedido para que os magistrados acessassem, entre outras coisas, o acervo original do celular de Vorcaro que permitiu aos investigadores detectarem mais de 50 mensagens encaminhadas a Moraes pelo ex-dono do Master. No conjunto de diálogos estão pedidos para interferir na Polícia Federal e no Ministério Público para blindar o banco de investigações, acertos para encontros privados e até uma consulta sobre a conveniência de o executivo encrencado deixar o país às vésperas de sua prisão.
Na avaliação do criminalista Aury Lopes Jr, convidado pro programa Os Três Poderes desta sexta, 11, os pedidos têm potencial para que a sessão destinada a verificar a legalidade do relatório policial que alveja Moraes se transforme em um emaranhado de discussões outras que impeçam que o Plenário discuta o futuro do ministro. Para Lopes, o cenário indica para um pedido de vista, tema que, conforme mostrou VEJA, bate de frente com a estratégia de Mendonça ou para que simplesmente as discussões se arrastem para o futuro.
A Operação Spoofing como espelho
Entre os movimentos de ministros da ala política nesta sexta não passou despercebido o fato de que Cristiano Zanin pediu a íntegra dos arquivos no aparelho celular de Vorcaro. A estratégia emula a conhecida Operação Spoofing, em que o magistrado, ainda na condição de advogado de Lula na Lava-Jato, conseguiu expor mensagens que mostravam que o então juiz Sergio Moro e a antiga força-tarefa de Curitiba combinavam decisões e estratégias processuais para alvejar o presidente. Ao final, a Lava-Jato caiu em descrédito, e as condenações contra o petista foram anuladas.
Não por outra razão, na primeira manifestação pública que fez desde o agendamento da sessão plenária contra Moraes Lula disse, ao defender a “quebra completa do sigilo” do caso Master, que “a divulgação da verdade, como aconteceu na Operação Spoofing, conduzida pelo então ministro Lewandowski, é um exemplo a ser seguido”.
Em março de 2021 a Lava-Jato, que tempos antes era tida como o maior exemplo de combate à corrupção da história, corria sério risco de virar pó. Pairavam sobre o então juiz Sergio Moro suspeitas de parcialidade e crescia a avaliação de que parte importante dos processos, inclusive os que haviam condenado o presidente a 26 anos de prisão, deveriam deixar Curitiba. Relator da operação no STF, o hoje presidente do STf Edson Fachin se imbuiu de construir uma saída jurídica em busca de um mal menor. Para proteger Moro e evitar que provas fossem atiradas no lixo, o ministro anulou todos os processos contra Lula e colocou o petista de volta ao jogo político. Ao final, não conseguiu nem um objetivo nem outro. Na esteira da Operação Spoofing, o ex-juiz foi declarado parcial e a implosão da Lava-Jato livrou a pele de dezenas de políticos encrencados com a Justiça.
Cinco anos e meio depois, Fachin está de volta em uma encruzilhada de proporções ainda maiores. Caberá a ele conduzir as rédeas da sessão que é tida como o primeiro passo para o STF tentar sair da crise de imagem e credibilidade que amarga hoje.






