‘O primeiro a ser apunhalado e traído fui eu’: Guerreiro rompe com prefeito que ele indicou como sucessor

BATANEWS/INVESTIGAMS


Ex-prefeito diz em comício que Cassiano Maia, secretário de quatro pastas, que ele “consolidou” como sucessor, lhe  traiu três dias depois da eleição.

O rompimento entre o ex-prefeito Ângelo Guerreiro (PSDB) e o prefeito Cassiano Maia (PP), de Três Lagoas, deixou de ser assunto de bastidor. Em vídeo gravado em comício na sexta-feira (11), Guerreiro descreveu o aliado que ajudou a eleger em 2024 como autor de uma traição pessoal e cobrou coragem de quem, segundo ele, mudou de lado sem avisar. O vídeo viralizou em grupos de whatsapp nesta terça-feira.

“Presta bem atenção: no meu primeiro mandato nomeei um secretário, quatro pastas, quatro secretarias, consolidei ele para ser o meu sucessor, a prefeito”, disse. “Pois bem: através do Ângelo Guerreiro, a população três-lagoense votou no atual prefeito. Mas, após três dias da eleição, o primeiro a ser apunhalado e traído fui eu.”

“O homem não pode ser covarde.” E arrematou: “E esse prefeito que eu apoiei, que eu fiz ele virar prefeito, hoje, hoje ele apoia outro candidato.”

Guerreiro não disse o nome do candidato, mas se trata de seu desafeto pessoal: Eduardo Rocha (PSDB), marido da ex-ministra e senadora Simone Tebet (PSB).

Quatro dias antes, o prefeito estava no palanque do adversário

Na mesma noite de 11 de setembro, no Parque de Exposições Joaquim Marques de Souza, Eduardo Rocha lançou oficialmente a campanha a deputado estadual em Três Lagoas. No palco estavam o governador Eduardo Riedel (PP), o ex-governador Reinaldo Azambuja (PL), o candidato ao Senado Capitão Contar (PL), a candidata a deputada federal Viviane Luísa (PSDB) e o prefeito Cassiano Maia, registrado como principal apoiador do evento.

Da tribuna, Maia deu o recado que resume a disputa: Três Lagoas “precisa fortalecer a representação política na Câmara Federal e no Senado e voltar a contar com um deputado estadual”. Riedel reforçou que o município “tem peso eleitoral e econômico e precisa de representação política capaz de defender os interesses da cidade e da região”.

O prefeito eleito com 68,61% dos votos em 2024, sob o guarda-chuva de Guerreiro, escolheu endossar o nome de Rocha para ocupar a cadeira de Três Lagoas na Assembleia Legislativa.

Tudo dentro do PSDB

Em 25 de julho, a executiva estadual do PSDB confirmou quatro candidatos de Três Lagoas: Ângelo Guerreiro, Eduardo Rocha e Júlia Monteiro Campos, a Júlia News, para deputado estadual, e Sirlene Pereira dos Santos para deputada federal.

Guerreiro e Rocha disputam voto pelo mesmo número de legenda, o 45, na mesma cidade, contra o mesmo teto de votos.

Rocha não é tucano do ninho raiz. Deixou o MDB em 1º de abril de 2026, após 34 anos de filiação, para se abrigar no PSDB, com articulação do deputado estadual Pedro Caravina e do deputado federal Beto Pereira (REP), que mesmo no Republicanos estava dando as cartas na montagem das chapas.

Foi deputado estadual por três mandatos e ocupou a Casa Civil do governo do Estado. Semanas antes, a ministra Simone Tebet, sua mulher, também havia deixado o MDB, rumo ao PSB.

Tapas e beijos

A crise não é nova  e já tinha sido “resolvida” uma vez.

Em 30 de outubro de 2025, depois de meses de afastamento, Maia e Guerreiro se reencontraram no gabinete da presidência da Câmara Municipal, diante de 14 vereadores. A reunião foi conduzida por Sérgio de Paula, ex-chefe da Casa Civil e liderança do PSDB que dias depois seria nomeado conselheiro no TCE/MS, e teve como fiadores o governador Riedel e o ex-governador Azambuja.

O tom oficial foi de página virada: “foi uma conversa franca e produtiva; as diferenças ficaram no passado”. Na ocasião, Guerreiro anunciou a pré-candidatura a deputado estadual e a expectativa registrada era de que apoiasse a reeleição de Maia em 2028.

A gestão Maia começou com um gesto que o grupo de Guerreiro não esqueceu: no primeiro ato como prefeito, em janeiro de 2025, decretou a exoneração coletiva dos servidores comissionados, apresentada como medida de equilíbrio fiscal e eficiência administrativa, e lida por parte da base de Guerreiro como desmonte da estrutura herdada.

Desde então, o prefeito construiu o discurso de que governa “sem lado e sem revanchismo político”, apresentou balanço de “avanços e equilíbrio” no primeiro quadrimestre de 2026 e colocou a redução da fila da saúde como prioridade declarada. Na Câmara, a herança da gestão anterior voltou ao debate em sessões marcadas por críticas às prioridades de obras do período Guerreiro.

Do outro lado, o ex-prefeito já havia dado o recado com roupa institucional. Em entrevista publicada em 11 de setembro, no mesmo dia do lançamento de Rocha, Guerreiro afirmou que, eleito, “a relação com o município depende do governo municipal”, e que não pretende transformar a disputa local no eixo do mandato. Traduzido: a ajuda da futura cadeira na Assembleia fica condicionada ao comportamento do Paço.

Três Lagoas, terceiro maior colégio eleitoral de Mato Grosso do Sul, com 19 candidatos de domicílio eleitoral na cidade em 2026, vive a disputa mais fragmentada da sua história recente. E o voto do prefeito, num município onde ele foi eleito com quase 70%, vale mais do que um palanque.