Venda recorde de soja contrapõe risco na importação de químicos e adubos

O agro brasileiro atingiu a média anual de US$ 166,6 bilhões em vendas externas, mas mantém a dependência de 91% de adubos importados.

BATANEWS/AGROIN


O agronegócio brasileiro registrou uma transformação de grande escala em sua inserção no comércio global nas últimas duas décadas. Levantamento do estudo Mapa do Comércio Global do Agro Brasileiro 2026, conduzido pela divisão RaboResearch Food & Agribusiness do Rabobank, demonstra a evolução do volume financeiro movimentado pelo setor produtivo nacional.

Os embarques do agro pularam de uma média anual de US$ 37,7 bilhões no triênio de 2003 a 2005 para a marca de US$ 166,6 bilhões entre os anos de 2023 e 2025. O avanço representa uma expansão de mais de quatro vezes no faturamento vindo do mercado internacional.

O complexo soja figurou como a principal locomotiva desse crescimento comercial. Em conjunto com a oleaginosa, a pauta exportadora ganhou força com a venda de açúcar, carne bovina, milho, café, celulose, carne de frango e algodão, consolidando o Brasil como fornecedor estratégico de alimentos.

Destaque: As exportações do agronegócio saltaram de US$ 37,7 bilhões para US$ 166,6 bilhões em duas décadas, puxadas pela demanda asiática por proteínas e grãos.

A geografia das vendas mostra alta concentração no continente asiático. No período de 2023 a 2025, a China respondeu isoladamente por 33% de todo o valor financeiro obtido com os embarques do agro brasileiro. Os demais países da Ásia absorveram 17,4%, enquanto a União Europeia registrou 14% de participação. Completam a lista o Oriente Médio (7,6%), a África (7%), os Estados Unidos (6,7%) e o bloco do Mercosul (3,1%).

Embora os indicadores de comercialização de produtos agrícolas atinjam patamares recordes, o sistema de produção interno enfrenta severa exposição aos fornecedores internacionais de insumos básicos. O volume de matérias-primas importadas para sustentar o rendimento das lavouras revela o lado frágil da operação no campo.

Durante o ano de 2024, aproximadamente 91% de todo o volume de fertilizantes e adubos químicos consumidos nas propriedades rurais brasileiras veio de indústrias estrangeiras. Em 2025, a concentração de fornecedores desse item estratégico ficou evidente: Rússia e China responderam por 49% do valor total pago pelo Brasil na aquisição desses produtos.

Destaque: O Brasil precisa importar 91% de todos os fertilizantes que aplica no solo, mantendo Rússia e China como fornecedores de quase metade desse volume.

A dependência externa se repete na cadeia de defensivos agrícolas. A indústria chinesa foi a origem de 43% dos produtos químicos importados pelo Brasil em valor financeiro no último ano, acompanhada pela Índia, que representou 15% do mercado de químicos.

O contraste entre o recorde de faturamento com alimentos e a fragilidade na aquisição de insumos expõe a necessidade de políticas voltadas à segurança operacional do campo. A análise do fundador e diretor da Samba Export Brazil, Nivio Domingues, aponta que a busca por novos compradores ajuda a diluir perdas comerciais na exportação.

Entretanto, para mitigar as ameaças ao processo produtivo, o país precisa ampliar o leque de países vendedores e incentivar a fabricação nacional de adubos e moléculas químicas. O fortalecimento das fábricas instaladas em território brasileiro reduz a oscilação de custos provocada por fretes marítimos e conflitos geopolíticos no exterior.

A ampliação das linhas de processamento e a exploração de jazidas minerais dentro do território nacional figuram entre as ações em andamento para atenuar a dependência externa. A evolução da infraestrutura fabril doméstica busca dar sustentação operacional para que o produtor rural mantenha a capacidade de entrega ao mercado global.