Cotidiano
Proteger a infância é investir no futuro do país | Claudio Lottenberg
Crianças saudáveis, bem nutridas, cuidadas e educadas são a base de qualquer sociedade próspera
BATANEWS/VEJA
Um dos debates mais relevantes no debate público e nem sempre abordado em sua especificidade é a saúde de nossas crianças, que são o grupo mais exposto aos efeitos combinados da crise climática, da poluição, da insegurança alimentar, da escassez de água e da circulação crescente de doenças infecciosas. Investir no cuidado e na prevenção desde cedo garante, a longo prazo, menor risco de doenças graves no futuro e mais desenvolvimento econômico para o país.
Segundo análises recentes do Unicef, publicadas no Relatório sobre os Riscos Climáticos para as Crianças – Unicef/2026, praticamente todas as crianças do mundo já enfrentam ao menos um risco ambiental significativo, como calor extremo, enchentes, secas prolongadas, queimadas e tempestades de poeira, além de poluição do ar e da água. No Brasil, essas vulnerabilidades se somam a desigualdades regionais profundas, sobretudo no Norte e no Nordeste, onde indicadores de saúde infantil permanecem mais críticos.
Dados do Painel Crianças e Meio Ambiente – Unicef/2026 mostram que, na região Norte, 94% dos municípios apresentam alta prioridade no indicador de dias com poluição do ar por partículas finas acima do limite recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), uma crise impulsionada diretamente pela fumaça das queimadas. Além disso, em 87% dos municípios da região, o esgotamento sanitário inadequado atinge o nível de alta prioridade, situação verificada também em 55% dos municípios do Nordeste. Das 5. 571 cidades do país, o estudo isolou 333 municípios de alta vulnerabilidade socioambiental e climática para crianças. A maioria delas está nos estados da Amazônia Legal e no Nordeste, e o Pará, o Acre, o Amazonas e o Maranhão têm as piores avaliações.
O que vemos é um ciclo perverso: crianças mais doentes e mais expostas a riscos têm menor capacidade de aprender e de se desenvolver, o que, a longo prazo, reduz produtividade, amplia desigualdades e pressiona sistemas públicos. O investimento em saneamento básico, por exemplo, reduz internações, faltas escolares e mortalidade infantil. É impensável que, na segunda década do século XXI, esse problema ainda não tenha sido resolvido por completo.
Se a doença afasta a criança da sala de aula e atrasa o seu desenvolvimento, a má-nutrição e a insegurança alimentar afetam diretamente sua capacidade cognitiva e o desempenho escolar. É fato que, em 2025, o Brasil saiu novamente do Mapa da Fome, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), mas a desnutrição infantil ainda persiste em populações vulneráveis: entre povos indígenas, como os Yanomami, as taxas de desnutrição passam de 50%. Além disso, é preciso assegurar a qualidade da alimentação escolar. O Unicef alerta sobre o aumento expressivo da obesidade infantil, que triplicou nas últimas duas décadas, impulsionada pelo consumo crescente de ultraprocessados. Está em tramitação um projeto de lei para proibir a venda desse tipo de alimento nas escolas, que hoje é bastante restrito na merenda escolar, mas continua disponível nas cantinas.
A proteção da infância geralmente é tratada como parte da agenda social dos governos, mas os dados mostram que ela é, na verdade, um dos pilares do desenvolvimento econômico – afinal, as crianças de hoje são os cérebros que vão construir um futuro próspero para o país. O cuidado com elas começa antes mesmo de seu nascimento, daí a importância da atenção às gestantes, que, vale destacar, desde o fim de 2025, passaram a ter acesso no SUS à vacina contra a bronquiolite. Com isso, os bebês nascem protegidos, evitando-se quadros graves da doença e internações. Em um semestre, os casos severos em bebês de até seis meses tiveram redução de 50%.
Há situações, no entanto, bem mais complexas. Um estudo recente, coordenado pelo Instituto Sant Pau, em Barcelona, e desenvolvido em conjunto com o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde, da Fiocruz Bahia, após análise de 30 milhões de nascimentos registrados no Brasil, estabeleceu relação importante entre a exposição à seca durante a gravidez e o risco aumentado de parto prematuro, de baixo peso ao nascer (entre bebês a termo) e de o bebê nascer pequeno para a idade gestacional. Quando acrescentamos ao fator climático as suas consequências socioeconômicas, como escassez de alimentos, baixa nutrição materna e dificuldade de acesso ao pré-natal, o quadro se agrava, afetando o futuro da criança. Sabemos que os eventos climáticos extremos impactam a população de modo desigual, portanto é preciso concentrar ações nos grupos mais indefesos.
A vacinação é outro elemento essencial de proteção das crianças. Cada dólar investido em vacinas retorna múltiplos em produtividade futura e redução de gastos hospitalares – e essa é uma conclusão amplamente reconhecida por organismos internacionais, como a OMS e o Banco Mundial. No Brasil, a cobertura vacinal vinha caindo desde 2016, com impacto direto no retorno de doenças, entre as quais o sarampo; embora tenha havido melhora em 2023 e 2024, a hesitação vacinal continua crescendo. É preciso lembrar aos pais que o Estatuto da Criança e do Adolescente tornou obrigatória a vacinação de crianças nos casos recomendados por autoridades sanitárias.
Não restam dúvidas de que a saúde infantil deve ser tratada como prioridade absoluta. Proteger crianças é investir no futuro econômico do país, mas, para isso, é preciso definir metas concretas, mensuráveis e financiáveis para a infância. Ampliar a cobertura vacinal, fortalecer a atenção primária, proporcionando triagem precoce de doenças entre as crianças, e criar programas de prevenção de doenças sensíveis ao clima, como infecções respiratórias, diarreias, malária e dengue, são pontos essenciais nesse debate.
As mudanças climáticas exigem prevenção: adaptar os prédios escolares, tornando-os resilientes a eventos extremos, como enchentes, calor excessivo ou desastres naturais, e implantar sistemas de alerta para famílias que vivem em áreas de risco são medidas urgentes e relativamente simples. É preciso congregar profissionais de diferentes áreas para, juntos, olharem para a infância como um fator de desenvolvimento econômico e civilizatório. Nenhuma estratégia de desenvolvimento será sustentável se negligenciar a infância. Crianças saudáveis, bem nutridas, protegidas e educadas são a base de qualquer sociedade próspera.






