Lula e Flávio levam ao primeiro turno o duelo mais acirrado desde a volta da democracia

Levantamentos divulgados na véspera da eleição mostram empate técnico entre os candidatos que repetem a polarização que tomou o país desde 2018

BATANEWS/VEJA


Lula e Flávio em atos de campanha antes do primeiro turno (Ricardo Stuckert e Vittor Sales/Divulgação)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) chegam ao dia da votação no primeiro turno da corrida ao Palácio do Planalto travando o duelo mais apertado pela Presidência da República desde a redemocratização do país. Pesquisas divulgadas no sábado pelos institutos Datafolha e Quaest mostram empate técnico entre ambos e deixam em aberto a hipótese de um deles liquidar a eleição sem a necessidade de um segundo turno.

No Datafolha, Lula aparece com 45% dos votos válidos, contra 42% de Flávio. Na Quaest, o presidente tem 46%, ante 45% do senador. Nos dois levantamentos, a diferença está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Os demais candidatos, que somam treze pontos percentuais no Datafolha e nove na Quaest, são alvos de ofensivas por voto útil, podem sofrer desidratação até a votação e, dependendo do movimento, levar algum candidato à vitória já neste domingo, 4.

Considerando a série histórica do Datafolha desde 1989 — a Quaest começou a fazer pesquisas presidenciais apenas em 2022 –, nunca dois candidatos chegaram ao primeiro turno tão próximos um do outro. Na última disputa, em 2022, Lula marcava catorze pontos à frente de Jair Bolsonaro na pesquisa feita na véspera da eleição (50% a 36%), mas o resultado das urnas foi bem mais apertado (48,4% a 43,2%).

Apenas um candidato desde o fim da ditadura militar conseguiu encerrar a corrida presidencial ainda no primeiro turno: Fernando Henrique Cardoso, que derrotou duas vezes Lula sem precisar da segunda rodada de votação, em 1994 e 1998.

Veja abaixo como os principais competidores chegaram ao primeiro turno.

(A comparação usa apenas os votos totais, porque é a única comparação disponível para todos os anos).

1989 data da pesquisa: 14. nov dia da votação: 15. nov

Fernando Collor (PRN): 26% Lula (PT): 15% Leonel Brizola (PDT): 14%

1994

data da pesquisa: 30. set a 01. out dia da votação: 03. out

FHC (PSDB): 48% Lula (PT): 22%

Orestes Quércia (PMDB): 5% Leonel Brizola (PDT): 4%

1998 data da pesquisa: 02. out

dia da votação: 04. out

FHC (PSDB): 49% Lula (PT): 26% Ciro Gomes (PPS): 10%

2002 data da pesquisa: 04 e 05. out dia da votação: 06. out

Lula (PT): 45% José Serra (PSDB): 19% Anthony Garotinho (PDT): 17%

2006 data da pesquisa: 29 e 30. set dia da votação: 01. out

Lula (PT): 46% Geraldo Alckmin (PSDB): 35% Heloisa Helena (PSOL): 8%

2010 data da pesquisa: 01 e 02. out dia da votação: 03. out

Dilma Rousseff (PT): 47% José Serra (PSDB): 29% Marina Silva (PV): 16%

2014 data da pesquisa: 03 e 04. out dia da votação: 05. out

Dilma Rousseff (PT): 44% Aécio Neves (PSDB): 26% Marina Silva (PSB): 24%

2018 data da pesquisa: 05 e 06. out dia da votação: 07. out

Jair Bolsonaro (PSL): 36% Fernando Haddad (PT): 22% Ciro Gomes (PDT): 13%

2022 data da pesquisa: 01. out dia da votação: 02. out

Lula (PT): 50% Jair Bolsonaro (PL): 36% Simone Tebet (MDB): 6% Ciro Gomes (PDT): 5%

2026 data da pesquisa: 02 e 03. out dia da votação: 04. out

Lula (PT): 42% Flávio Bolsonaro (PL): 40% Ronaldo Caiado (PSD): 4%

Lula x Flávio: surpresas e reviravoltas da corrida eleitoral

Alerta para Lula

O movimento dos últimos dias acende o alerta para Lula, que tenta o seu quarto mandato presidencial. Tanto a Quaest quanto o Datafolha apontam oscilação positiva de Flávio, embora sempre na margem de erro.

Na Quaest, em votos totais, Lula passou de 39% para 40% em relação à pesquisa divulgada na segunda-feira, 28, mas Flávio foi de 34% para 38%. Para o cientista político Felipe Nunes, diretor do instituto, o mais provável é que esteja havendo uma migração de votos de eleitores alinhados com o seu campo ideológico. “É verdade que Lula até oscila um ponto, mas o movimento que capturamos é um movimento de voto útil de direita”, disse.

No Datafolha, ocorreu algo parecido. Em relação à pesquisa feita entre 29 de setembro e 1º de outubro, Lula manteve os mesmos 42% em votos totais, enquanto Flávio oscilou de 38% para 40%.

Em que pese a profusão de escândalos que gravitam em torno dos dois candidatos, o fato político mais relevante da reta final acabou sendo o cancelamento do debate na TV Globo. O petista já havia dito que não iria, mas Flávio tinha presença confirmada e cancelou horas antes por discordar de decisões judiciais que mudaram a formatação do encontro.

No dia do evento, o Tribunal Superior Eleitoral proibiu que a TV utilizasse o púlpito vazio com o nome de Lula, o que comprometeu a estratégia de Flávio de explorar a ausência. Além disso, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que a emissora incluísse no debate o candidato Renan Santos (Missão), notório desafeto de Flávio.

A polêmica pode ter ajudado Flávio, porque o candidato e seus aliados que disputam governos estaduais e vagas no Congresso têm centrado fogo na necessidade de reformar a cúpula do Judiciário — o discurso também parece ter alavancado candidaturas de direita ao Senado na reta final das eleições.

Também parece não ter surtido efeito algumas cartadas de Lula, como a proibição das bets, o anúncio de canetas emagrecedoras no SUS e o lançamento de um novo programa de renegociação de dívidas. Seus aliados também ajudaram a inflar o debate em torno da fake news que tentava ligar Flávio a uma suposta movimentação para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

Batalha pelo Sudeste

Nos últimos dias, Flávio e Lula empreenderam um esforço final na região que promete ser o ponto de desequilíbrio da dura disputa eleitoral deste ano: o Sudeste. Ambos passaram por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro em busca dos votos que faltam para ao menos chegar à frente do rival no primeiro turno.

As pesquisas divulgadas neste sábado apontam que Flávio lidera em São Paulo e no Rio de Janeiro, enquanto Lula aparece à frente em Minas Gerais. O petista também aposta muito em repetir o bom desempenho que teve no Nordeste em 2022, que foi decisivo para sua apertada vitória por 1,8 ponto percentual sobre Jair Bolsonaro.

No seu último ato de campanha, Lula reuniu milhares de apoiadores em uma caminhada pela rua Augusta, na região central da cidade de São Paulo, onde falou de seu legado e prometeu investimentos em educação, ciência e tecnologia e medidas para melhorar a renda e reduzir o endividamento das famílias. Também voltou a defender o fim da escala de trabalho 6×1, que foi pautada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), para tramitar entre o primeiro e o segundo turnos.

No embate mais direto com Flávio, o petista criticou o governo de Jair Bolsonaro e disse que a sua candidatura representa a defesa da democracia, que estaria ameaçada, segundo ele, em uma eventual ascensão do adversário.

No final do discurso, Lula alertou a militância para a necessidade de manter a mobilização até o fim da votação, por conta da dificuldade da disputa, e pediu aos apoiadores que continuassem conversando com amigos, familiares e conhecidos. Mostrou especial preocupação com o eleitor que tem mais de 70 anos, cujo voto é facultativo, e exortou brasileiros com esse perfil a irem às urnas. O petista reforçou que tem 80 anos de idade e que a idade não o fez desistir da disputa política nas ruas. “Eu vou lutar com as minhas forças. Quando eu não tiver mais forças, eu lutarei pela força de vocês”, declarou.

Já Flávio Bolsonaro participou de carreatas em São Paulo, ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), e no Rio de Janeiro, ao lado do candidato a governador Douglas Ruas (PL), que tenta ir ao segundo turno contra Eduardo Paes (PSD). Durante os eventos, criticou o STF, disse que muita coisa precisa ser mudada e voltou a afirmar que seu pai, Jair Bolsonaro, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, irá subir a rampa do Palácio do Planalto com ele.

Também voltou a enfatizar que é cristão e encerrou a sua trajetória entre os bairros de Campo Grande e Bangu, no Rio de Janeiro, na Praça da Fé, onde há uma Igreja Católica — no momento do ato político ocorria uma missa. Ele não citou diretamente o episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, mas reforçou que é um político comprometido com valores morais conservadores. “Meu partido é Deus, pátria e família”.

Futuro

A disputa presidencial que terá o seu primeiro round hoje irá definir o futuro político tanto de Lula quanto de Flávio Bolsonaro. No caso do petista, é certo que será a sua última eleição. Fundador do PT nos anos 1980, Lula disputou seis corridas presidenciais até agora e venceu três (2002, 2006 e 2022) — foi derrotado por Collor em 1989 e por FHC em 1994 e 1998.

A conquista de um quarto mandato seria fundamental para o seu partido preparar uma transição para encontrar quem possa liderar o petismo no futuro — algo que hoje não está claro. Se Lula vencer, pode utilizar o último mandato para tentar consolidar um herdeiro político que o represente não só nas urnas, mas ajude a manter o PT à frente da esquerda brasileira. A sua derrota, no entanto, pode mergulhar a legenda numa crise interna de proporções inéditas, porque ela estará fora do poder e tendo que juntar os cacos em meio ao ocaso de seu líder histórico.

Para Flávio Bolsonaro, a vitória pode representar a assunção definitiva do legado bolsonarista, capacidade que chegou a ser fortemente questionada quando a sua candidatura foi anunciada em meados de dezembro de 2025. Escolhido pelo próprio pai, ele enfrentou a desconfiança de boa parte da direita, tanto que não conseguiu atrair nenhum outro partido desse campo para a sua coligação.

Considerado antes um adversário fácil de ser batido por Lula, ele mostrou resiliência para enfrentar crises variadas durante a campanha, que foram da briga com a madrasta Michelle Bolsonaro à revelação de áudio no qual pede milhões de reais do banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.

Se vencer, poderá ser o candidato natural à reeleição, apesar de ter acenado com a hipótese de não disputar novo mandato — apresentou inclusive uma PEC no Senado para acabar com a possibilidade. Se for candidato à reeleição, fica mais estreita a porta para Tarcísio de Freitas, que após ser reeleito em São Paulo (lidera com folga a disputa contra o petista Fernando Haddad), seria visto como potencial nome da direita para 2030 — já o era em 2025, mas acabou preterido por Flávio.

O filho primogênito de Jair Bolsonaro também sonha em ter poder para empreender alguma articulação que tire o seu pai da cadeia — condenado a 27 anos de prisão, o ex-presidente cumpre prisão domiciliar em Brasília e não vê Flávio desde meados de julho, quando o ministro Alexandre de Moraes, do STF, proibiu as visitas após o filho ter divulgado uma carta na qual o pai pedia a união da direita em torno da candidatura do herdeiro.

O duelo acirrado pode ter um vencedor ainda neste domingo, 4. As urnas, como sempre, contarão o desfecho dessa história.