Tecnologia não invasiva alivia tremores com uma só sessão

BATANEWS/FOLHA


Ilustração de um cérebro - Raman Oza /Pixabay

Escrever o próprio nome ou se alimentar sozinho são atos cotidianos, mas, para quem tem tremor essencial ou Parkinson, podem virar tarefas quase impossíveis. Hoje as principais maneiras de melhorar essa realidade são a aplicação de medicamentos, como a infusão dopaminérgica, e a estimulação cerebral profunda (DBS, na sigla em inglês), uma técnica cirúrgica.

Um tratamento não invasivo, no entanto, promete melhorias rápidas do quadro. Trata-se do Hifu –pronuncia-se 'ráifu' e é o acrônimo em inglês para ultrassom focalizado de alta intensidade ('High intensity focused ultrasound').

Embora essa tecnologia de alta precisão já fosse utilizada para outros fins no país, seu uso como terapia para o Parkinson e para o tremor essencial refratário a medicamentos é recente. Aprovada pela Anvisa em 2020, é oferecida no Brasil somente pelo Einstein Hospital Israelita.

A terapia, disponível desde março de 2025, foi apresentada aos participantes da 11ª turma do Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha em visita ao hospital, localizado no Morumbi, zona sul de São Paulo.

Nos primeiros 18 meses de funcionamento do equipamento, foram tratadas 34 pessoas no local.

O procedimento é feito em uma sessão de cerca de duas horas, sem cortes, sem anestesia geral e sem internação. A estimativa é que o Hifu reduza em até 70% os tremores. O alívio costuma ser perceptível ainda durante a sessão, quando o médico testa a escrita ou a capacidade de tocar o nariz com o paciente acordado na mesa.

No procedimento, um capacete com múltiplos emissores de ultrassom é posicionado na cabeça do paciente, e os feixes sonoros convergem em um único ponto profundo do cérebro –no caso do tremor, geralmente o núcleo ventral intermédio do tálamo.

A energia sonora eleva a temperatura do tecido-alvo até provocar uma lesão controlada (termocoagulação), interrompendo o circuito neural que gera o tremor. Todo o processo é guiado por imagens de ressonância magnética em tempo real, medindo a temperatura do tecido a cada instante, e o paciente permanece consciente durante o procedimento, o que permite a avaliação neurológica imediata por meio dos testes feitos durante a sessão.

O Hifu é realizado em um hemisfério do cérebro por vez. Geralmente é escolhido o lado que mais afeta o cotidiano do paciente. Após um período de 6 a 9 meses, é possível fazer a segunda sessão.

O preparo para o procedimento dura cerca de uma semana. Uma equipe especializada em distúrbios do movimento faz uma avaliação do paciente. Para os candidatos aptos, é feita uma tomografia a fim de analisar a espessura da calota craniana.

No dia do procedimento, o cabelo do paciente precisa ser raspado, para evitar atrito. O tratamento não interfere no crescimento posterior dos fios. Segundo a gerente do programa de neurologia do Einstein, Polyana Piza, os possíveis efeitos colaterais são poucos.

'O paciente pode ficar com alteração no andar por desequilíbrio; a maioria melhora na primeira semana. Existiram pacientes que tiveram isso de forma permanente, mas isso [ocorreu] com menos de 1% [dos pacientes]', explica.

Outros efeitos também quase sempre transitórios podem acontecer, como a perda de força de um dos lados. 'Pode durar um mês, ou três. A gente já viu pacientes melhorarem após nove meses ou um ano, mas [esse evento adverso] também é raro', acrescenta Piza.

A fim de minimizar os riscos, o planejamento das sessões no Einstein inclui uma ressonância magnética avançada, chamada tratografia. Esse exame mapeia as fibras nervosas responsáveis por conduzir sinais entre regiões do sistema nervoso, no caso as fibras motoras.

Como o trajeto dos impulsos é diferente em cada paciente, fazer esse mapeamento permite que a equipe delimite o alvo do procedimento, evitando essas áreas.

Apesar da aprovação da Anvisa, a incorporação de uma tecnologia como o Hifu ao SUS (Sistema Único de Saúde) não é automática. Ela depende de avaliação da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), que analisa não apenas segurança e eficácia, mas também custo-efetividade e impacto orçamentário, ou seja, se o benefício clínico compensa o investimento diante de outras prioridades da rede pública.

O sistema para a realização do Hifu é importado, de alto valor unitário, e exige compatibilidade com aparelhos de ressonância magnética de última geração, recurso escasso na rede pública.

O procedimento também depende de investimentos além do próprio aparelho: uma sala de ressonância dedicada, equipe treinada e capacidade de acompanhamento pós-procedimento.

Em vista dessas particularidades, especialistas não são unânimes quanto aos benefícios da chegada do Hifu ao SUS. Embora reconheça o potencial da tecnologia, Henrique Ferraz, neurologista do Hospital São Paulo, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), defende que a rede pública tem outras prioridades.

'Todo paciente tem direito à saúde, está escrito nos princípios do SUS, mas isso na prática não acontece', diz Ferraz.

Na opinião dele, é importante consolidar outras ferramentas de diagnóstico e tratamento de distúrbios de movimento antes de incorporar um equipamento de alta complexidade e alcance limitado. O médico cita o exemplo da DBS. Como o Hifu, a técnica cirúrgica é indicada para casos em que os medicamentos não surtem o efeito ideal.

Entre 2023 e julho de 2026, foram realizados 259 procedimentos de implante de eletrodo para estimulação cerebral profunda pelo SUS, distribuídos por 17 estados e o Distrito Federal, segundo dados do Ministério da Saúde. Os estados com maior número de procedimentos no período foram Rio de Janeiro (45), Minas Gerais (44), São Paulo (41) e Distrito Federal (32).

Para Ferraz, só faria sentido para o SUS tal investimento se outros tratamentos para tremores estivessem totalmente supridos. 'Aí seria algo a mais muito bom.'

O ministério informa que, 'no momento, não há demanda para análise do procedimento Hifu'. Em nota, a pasta afirma que qualquer pessoa física ou jurídica pode solicitar à Conitec a incorporação, alteração ou exclusão de uma tecnologia no sistema público de saúde.

O 11º Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha teve apoio do Einstein Hospital Israelita e do Laboratório Roche.