Dólar abaixo de R$ 5 mantém pressão sobre preços da soja no Brasil

Moeda norte-americana foi negociada entre R$ 4,98 e R$ 4,99 na segunda-feira (12), limitando a conversão das cotações internacionais em reais. Movimento também pode favorecer a aquisição de fertilizantes e defensivos.

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A combinação entre dólar mais baixo e aumento das estimativas de produção agrícola nos Estados Unidos mantém o mercado brasileiro de soja sob pressão neste início de semana. Nesta segunda-feira (12), a moeda norte-americana foi cotada em torno de R$ 4,98 para compra e R$ 4,99 para venda, permanecendo abaixo da marca de R$ 5. O patamar cambial reduz o valor das cotações internacionais quando convertidas para reais, enquanto os novos números do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicam maior disponibilidade de soja e milho no mercado norte-americano.

O relatório de Oferta e Demanda Mundial, divulgado na última sexta-feira (09), trouxe revisões para cima na produção das duas culturas, contrariando parte das expectativas dos agentes de mercado, principalmente no caso do milho. Para a soja, os ajustes foram mais moderados, mas também apontaram aumento da oferta e dos estoques finais nos Estados Unidos.

No Brasil, o impacto do câmbio já vinha sendo observado desde a semana anterior, quando a forte valorização do real limitou os ganhos proporcionados pelas cotações da Bolsa de Chicago e pelos prêmios de exportação. Como o preço recebido pelo produtor brasileiro depende da combinação desses três fatores, a queda do dólar pode neutralizar parte da valorização internacional da oleaginosa.

Câmbio limita recuperação dos preços domésticos A pressão sobre os preços da soja ganhou intensidade na semana passada, quando o dólar registrou retração de aproximadamente 4% em uma única sessão. Na última quinta-feira (08), a moeda norte-americana chegou a ser negociada em torno de R$ 5,015, após se aproximar de R$ 4,98. Na segunda-feira (12), voltou a permanecer abaixo de R$ 5, reforçando o efeito cambial sobre a formação das cotações domésticas.

Na Bolsa de Chicago, a soja havia iniciado a semana anterior com valorização de aproximadamente 20 centavos de dólar por bushel, mas perdeu força nas sessões seguintes. Os prêmios de exportação também ofereceram sustentação às cotações, embora sem força suficiente para compensar a desvalorização da moeda norte-americana.

A ausência de compradores chineses durante o feriado nacional da Golden Week contribuiu para reduzir o dinamismo das negociações internacionais naquele período. “Chicago e os prêmios até tentaram dar algum suporte, mas não foram suficientes para compensar um movimento tão forte do dólar. Para o produtor, que vende em reais, essa diferença aparece diretamente no equilíbrio de exportação', afirma a engenheira agrônoma Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro.

O mercado internacional também passou a incorporar os números divulgados pelo USDA. Na tarde desta segunda-feira (12), por volta das 14h28, o contrato de soja para novembro de 2026 era negociado a US$ 12,84 por bushel em Chicago, com queda de 0,67%. O vencimento de janeiro de 2027 estava cotado a US$ 13, com recuo de 0,69%.

Produtores reduzem ritmo de comercialização A redução dos preços em reais também afetou a disposição dos produtores brasileiros para negociar a soja. Na semana anterior, as vendas foram estimadas entre 50 mil e 100 mil toneladas. O volume refletiu a resistência dos vendedores diante da rápida desvalorização das cotações domésticas. “O vendedor tende a ficar mais retraído quando os preços recuam dessa forma. Do outro lado, o comprador também não tem necessidade de elevar as ofertas em um mercado internacional que terminou praticamente estável', explica Yedda.

A cautela dos produtores encontra um mercado comprador sem necessidade imediata de elevar as ofertas. Com os prêmios de exportação sustentados, mas sem valorização expressiva, a comercialização depende de mudanças nas condições de preço.

A divulgação do relatório do USDA acrescentou um novo componente a essa avaliação. Embora os ajustes na soja tenham sido relativamente pequenos, a revisão para cima da produção e dos estoques norte-americanos reduz a possibilidade de uma reação sustentada das cotações internacionais baseada exclusivamente em uma oferta mais restrita.

Engenheira agrônoma Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro: “Chicago e os prêmios até tentaram dar algum suporte, mas não foram suficientes para compensar um movimento tão forte do dólar. Para o produtor, que vende em reais, essa diferença aparece diretamente no equilíbrio de exportação” – Foto: Divulgação

USDA eleva produção de soja dos Estados Unidos  O relatório de outubro do USDA elevou a estimativa de produção de soja dos Estados Unidos para 4,56 bilhões de bushels, aproximadamente 124,1 milhões de toneladas. O volume representa um aumento de 27 milhões de bushels, cerca de 735 mil toneladas, em relação à projeção de setembro.

A revisão foi determinada principalmente pelo aumento da produtividade esperada, que passou de 52,8 para 53,1 bushels por acre. A área colhida permaneceu estimada em 85,9 milhões de acres, equivalentes a aproximadamente 34,8 milhões de hectares.

Com a produção maior, a oferta total norte-americana foi elevada em 17 milhões de bushels, alcançando 4,90 bilhões de bushels.

Pelo lado da demanda, o USDA aumentou a projeção de exportações em 10 milhões de bushels, mantendo inalterada a estimativa de processamento doméstico.

Mesmo com a revisão positiva das exportações, os estoques finais foram elevados em 5 milhões de bushels, passando para 315 milhões de bushels, aproximadamente 8,57 milhões de toneladas. O preço médio estimado ao produtor norte-americano permaneceu em US$ 12 por bushel.

Os ajustes indicam um balanço de oferta e demanda ligeiramente mais confortável para a soja norte-americana. Embora a elevação dos estoques tenha sido limitada, os números não confirmaram a expectativa de redução da produção que poderia oferecer maior sustentação às cotações.

Milho concentra maior surpresa negativa do relatório Se na soja as revisões foram relativamente moderadas, o milho apresentou mudanças mais expressivas e contrárias às expectativas predominantes antes da divulgação do relatório.

O mercado trabalhava com a possibilidade de redução da produção norte-americana, mas o USDA elevou a estimativa em 234 milhões de bushels, para aproximadamente 16,03 bilhões de bushels, equivalentes a 407 milhões de toneladas.

A revisão ocorreu após o aumento da produtividade projetada, de 178,5 para 181,2 bushels por acre. A área colhida permaneceu estimada em 88,5 milhões de acres. Além da produção maior, o USDA revisou para cima a oferta total e os estoques finais.

A projeção de consumo foi elevada em 125 milhões de bushels, enquanto as exportações aumentaram 25 milhões de bushels, alcançando 3,3 bilhões de bushels. Entretanto, o crescimento da demanda não foi suficiente para absorver o aumento da disponibilidade.

Os estoques finais norte-americanos foram elevados em 282 milhões de bushels, chegando a 1,849 bilhão de bushels, aproximadamente 47 milhões de toneladas.

O USDA também reduziu em US$ 0,10 por bushel a estimativa de preço médio recebido pelos produtores, para US$ 4,70 por bushel. A combinação entre produção maior, produtividade acima das expectativas e estoques finais mais elevados reforçou a percepção de maior disponibilidade de milho nos Estados Unidos.

O resultado contrariou as projeções anteriores à divulgação, que indicavam redução da produtividade e da produção norte-americana.

Brasil mantém perspectiva de safra recorde de soja Para o Brasil, o USDA manteve as estimativas de produção de soja e milho divulgadas anteriormente. A safra brasileira de soja 2026/27 permanece projetada em 186 milhões de toneladas, volume que, se confirmado, representará um novo recorde de produção.

A estimativa supera em 5,5 milhões de toneladas a projeção de 180,5 milhões de toneladas para o ciclo 2025/26, crescimento de aproximadamente 3%. No milho, a produção brasileira da safra 2025/26 foi mantida em 141 milhões de toneladas, enquanto a estimativa para 2026/27 permanece em 139 milhões de toneladas.

As projeções foram mantidas em um momento em que o Brasil inicia o plantio da nova safra, período em que as condições climáticas e o desenvolvimento das lavouras passam a ganhar importância na formação das expectativas de oferta.

A perspectiva de produção brasileira elevada acrescenta um fator de atenção ao mercado doméstico, especialmente diante da possibilidade de maior disponibilidade mundial da oleaginosa.

Dólar mais baixo pode favorecer compra de fertilizantes e defensivos

A valorização do real, embora pressione a receita potencial com a comercialização da soja, também pode representar uma oportunidade para produtores que ainda precisam adquirir insumos para a safra 2026/27. Fertilizantes e defensivos agrícolas estão entre os produtos cujos custos são influenciados pelo câmbio, seja pela dependência de importações, seja pela formação internacional dos preços.

Com o dólar abaixo de R$ 5, a conversão dos valores internacionais para a moeda brasileira tende a se tornar mais favorável. O benefício efetivo, entretanto, depende das condições comerciais, dos estoques disponíveis e da velocidade de repasse das oscilações cambiais pelos fornecedores. “Para quem ainda tem necessidade de garantir fertilizantes e outros insumos para a safra 2026/27, este pode ser um momento interessante de compra. O produtor passa a ter uma relação diferente entre receita e custo, principalmente depois de anos de aumento dos custos de produção', destaca Yedda.

A análise exige considerar a relação de troca entre a soja e os insumos. Isso porque a mesma queda do dólar que pode reduzir os custos de aquisição também diminui a remuneração da oleaginosa quando as cotações internacionais e os prêmios permanecem estáveis. Assim, a decisão de compra não depende apenas da cotação cambial, mas também da quantidade de sacas necessária para adquirir fertilizantes e defensivos.

Eleições e política fiscal permanecem no radar do mercado Além dos fundamentos agrícolas, o mercado brasileiro acompanha os desdobramentos da disputa presidencial de 2026. Até o segundo turno, pesquisas eleitorais, alianças políticas e manifestações dos candidatos sobre a condução da política fiscal podem influenciar as expectativas dos investidores e provocar oscilações na taxa de câmbio.

Para o agronegócio exportador, o comportamento do dólar tem impacto direto sobre a formação dos preços em reais, especialmente em momentos em que as referências internacionais apresentam menor volatilidade.

No caso da soja, a combinação entre câmbio valorizado, prêmios sem aumentos expressivos e estimativas de maior oferta nos Estados Unidos limita, no curto prazo, os fatores capazes de sustentar uma recuperação dos preços domésticos.

O mercado também passa a acompanhar o desenvolvimento da safra sul-americana, o comportamento das compras chinesas após o feriado nacional e os próximos ajustes nas estimativas de produção e demanda.

O próximo relatório de Oferta e Demanda do USDA está programado para 10 de novembro. Até lá, as condições de colheita nos Estados Unidos, o plantio no Brasil e na Argentina e o comportamento das exportações deverão fornecer novos elementos para a formação dos preços internacionais.