Agroindústria brasileira precisa de estratégia de Estado para ampliar competitividade

Agenda de longo prazo deve integrar financiamento, tecnologia, política industrial e acordos comerciais para fortalecer a indústria nacional e ampliar a presença do Brasil no mercado internacional.

BATANEWS/OPR


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A competitividade da agroindústria brasileira depende de uma estratégia de Estado que integre política econômica, comércio exterior, financiamento, desenvolvimento tecnológico e segurança. A ampliação da presença internacional do país, o fortalecimento da indústria nacional e a criação de condições para investimentos de longo prazo estão entre as prioridades para sustentar o desenvolvimento da cadeia produtiva.

Presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Ingo Plöger: “Queremos ser uma nação de oportunidades e traduzir nossos anseios em um país que possa trabalhar de forma consequente” 

Para o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Ingo Plöger, o Brasil precisa articular o crescimento do agronegócio ao desenvolvimento industrial, com instrumentos capazes de sustentar investimentos e reduzir os riscos da atividade produtiva.

A proposta envolve maior integração entre os agentes econômicos e sociais e uma agenda que ultrapasse medidas pontuais de governo. “Queremos ser uma nação de oportunidades e traduzir nossos anseios em um país que possa trabalhar de forma consequente', afirma, defendendo maior estabilidade nas relações políticas e econômicas para viabilizar projetos de longo prazo. “O Brasil precisa de pacificação, harmonia, trabalho e visão de longo prazo', frisa.

A construção dessa estratégia passa por três frentes: um ambiente institucional e regulatório favorável ao desenvolvimento da agroindústria, o fortalecimento das condições científicas, tecnológicas, produtivas, logísticas e financeiras e a ampliação da competitividade brasileira diante das transformações geopolíticas.

Tecnologia e comércio exterior O Brasil reúne vantagens na produção agropecuária tropical, resultado de condições produtivas e de investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Transformar essa capacidade em maior presença internacional, porém, exige acompanhar as mudanças na economia global e ampliar o uso de tecnologia e informação nas relações comerciais.

Doutor em Geografia e mestre em Economia Aplicada e em Relações Internacionais, Alberto Pfeifer: “O Brasil domina a produção tropical. Isso é algo valioso. E a Embrapa foi estratégica para a geopolítica como braço público” 

Doutor em Geografia e mestre em Economia Aplicada e em Relações Internacionais, A lberto Pfeifer, destaca a relevância da produção tropical brasileira e o papel da pesquisa pública na construção dessa vantagem competitiva. “O Brasil domina a produção tropical. Isso é algo valioso. E a Embrapa foi estratégica para a geopolítica como braço público. Contudo, é preciso entender o modelo global atual para uma inserção internacional ainda maior, por meio de tecnologia e informações. Com o avanço da fronteira agrícola, podemos ter importantes elementos de troca', ressalta.

A ampliação dos acordos comerciais também integra a agenda necessária para o país fortalecer sua posição no mercado internacional. Além de ampliar o acesso a compradores, a estratégia envolve melhorar a competitividade industrial e criar condições para que o Brasil agregue valor à produção agropecuária.

A inserção internacional, nesse contexto, não depende apenas da capacidade de produzir e exportar commodities. Também exige infraestrutura, inovação e articulação entre a produção primária e os segmentos industriais responsáveis pelo processamento e pela transformação das matérias-primas.

Crédito e endividamento O custo do financiamento e o endividamento representam obstáculos adicionais à competitividade do agronegócio. O economista e PhD em Relações Internacionais, Sérgio Vale, alertou que a dívida acumulada pelo setor, combinada às taxas de juros e à inflação, continuará pressionando produtores e empresas. “O tamanho da dívida do agro é grande e vai continuar sendo um desafio, assim como os juros e a inflação. Como vamos passar por isso? Acredito que seja por meio de mecanismos que ajustem as taxas sem interferir nos demais segmentos do mercado', salienta.

Economista e PhD em Relações Internacionais, Sérgio Vale: “O tamanho da dívida do agro é grande e vai continuar sendo um desafio, assim como os juros e a inflação” 

A disponibilidade de crédito em condições compatíveis com as necessidades da cadeia produtiva é relevante para financiar investimentos em produção, armazenagem, processamento e logística. O custo elevado dos recursos pode limitar projetos de expansão e modernização, além de aumentar a pressão sobre o fluxo de caixa de produtores e empresas.

A discussão sobre financiamento também precisa considerar os diferentes perfis de risco e as necessidades de cada segmento. Uma estratégia de longo prazo para a agroindústria requer instrumentos que permitam sustentar investimentos sem desconsiderar as condições fiscais e monetárias da economia.

Vale também chamou a atenção para a concorrência de produtos chineses no mercado brasileiro. A chegada de mercadorias com preços competitivos pressiona segmentos da indústria nacional e reforça a necessidade de discutir acordos comerciais e as condições de competição entre produtos importados e nacionais.

Liderança e vulnerabilidades Já o presidente do Conselho Estratégico de Alto Nível da Abag, Luiz Carlos Corrêa Carvalho, ressalta que o Brasil ocupa posições de liderança em mercados agrícolas importantes, como os de açúcar e soja. Essa relevância internacional, entretanto, também expõe o país a vulnerabilidades que precisam ser consideradas na formulação de políticas de longo prazo.

A dependência de mercados externos, as mudanças nas relações geopolíticas e a concorrência internacional tornam necessário ampliar a capacidade de resposta da economia brasileira. Para isso, o desenvolvimento da agroindústria precisa estar associado ao fortalecimento da ciência, da tecnologia, da logística e dos mecanismos de financiamento.

A competitividade do agronegócio, portanto, não se limita à produtividade dentro das propriedades rurais. Depende também das condições para processar matérias-primas, desenvolver tecnologias, acessar mercados e financiar a expansão da atividade industrial.

A articulação dessas frentes é central para transformar a liderança brasileira na produção agrícola em maior capacidade industrial e comercial, com uma estratégia que conecte as políticas econômicas às necessidades de longo prazo da agroindústria.