Brincar com sujeira e risco faz bem às crianças, e superproteção dos adultos pode atrapalhar

BATANEWS/FOLHA


Crianças se divertindo e se equilibrando em uma árvore em um parque - Monkey Business Images/Adobe Stock

Há cada vez mais evidências de que as crianças de hoje têm menos oportunidades para brincadeiras ao ar livre de forma independente e aventureira, e menos chances de tomar decisões e moldar suas próprias experiências do que as gerações anteriores.

Apenas 43% das crianças e jovens de oito a 15 anos na Inglaterra relatam passar tempo ao ar livre todos os dias ou na maioria dos dias. Pesquisas sugerem que as brincadeiras ao ar livre caíram 50% em uma geração.

Apesar desse declínio, a brincadeira ao ar livre ainda é frequentemente vista como uma oportunidade para as crianças aprenderem a gerenciar riscos e a desenvolver tanto sua confiança quanto sua independência.

Minha pesquisa explorou como as crianças tomam decisões ao brincar ao ar livre. Os resultados sugeriram que, quando as crianças pequenas se hesitam e resistem a brincadeiras de risco ao ar livre, raramente é porque lhes falta confiança ou até mesmo acesso.

Em vez disso, elas estão respondendo às mensagens sutis que os adultos transmitem sobre risco, sujeira e segurança.

Realizei a pesquisa em uma escola, em colaboração com uma professora da educação infantil. Nossos participantes foram crianças de três a cinco anos matriculadas no nursery e na reception (etapas da educação infantil no Reino Unido), o que significa que o ambiente externo da escola era familiar para elas.

Combinamos observações das brincadeiras das crianças com pequenos grupos focalizados nos quais as crianças tiravam fotografias para mostrar o que gostavam e o que não gostavam em seu ambiente externo.

A partir dessas conversas iniciais com as crianças, surgiram padrões recorrentes. Essas crianças tendiam a evitar áreas que associavam ao desconforto ou ao perigo, como lama, água e equipamentos de escalada, embora esses espaços fossem familiares para elas e os adultos não estivessem restringindo seu acesso.

As crianças expressavam coisas como 'eu posso cair', 'não quero me molhar' e 'minha professora não deixa'. Esses não eram medos espontâneos; eram reflexos das mensagens que as crianças ouviam repetidamente dos adultos.

Durante nossas observações, ouvimos a equipe do local oferecendo às vezes alertas como 'cuidado', 'não suba muito alto' e 'olha o perigo' durante as brincadeiras livres das crianças no ambiente ao ar livre.

Durante nossas conversas de acompanhamento com as crianças, elas também descreveram avisos semelhantes vindos de pais e cuidadores. Uma criança explicou: 'minha mãe não me deixa subir porque uma vez eu bati o nariz'.

Essas mensagens repetidas tiveram um impacto duradouro na forma como as crianças percebiam o risco. Com o tempo, elas absorveram esses avisos e começaram a guiar o próprio comportamento. A hesitação delas foi aprendida, não inata.

Com base no feedback das crianças e em nossas observações, a escola fez mudanças no ambiente externo. A equipe reorganizou os equipamentos na área externa para que as crianças pudessem alcançá-los e usá-los com mais facilidade, e começaram a falar sobre risco de uma forma mais encorajadora.

A escola criou um plano de gestão de riscos e o compartilhou com as crianças para que elas entendessem o que era seguro e o que podiam tentar por conta própria.

Os adultos também começaram a fazer uma pausa antes de intervir e usaram uma linguagem que sinalizava confiança: 'tente e veja como se sente primeiro', 'estou aqui se precisar de mim' ou 'qual é o seu plano para subir aí?' em vez de 'cuidado' ou 'não vá muito alto'.

Eles também adicionaram aventais às áreas que as crianças evitavam anteriormente por não quererem se sujar, ajudando-as a se sentirem mais confortáveis para explorar esses espaços.

Em poucas semanas, as crianças começaram a usar áreas que evitavam antes, assumindo mais riscos físicos e engajando-se em brincadeiras sensoriais mais ricas. Elas estavam se sujando de lama, experimentando com água e explorando diferentes texturas e materiais.

Vimos crianças escolhendo o que queriam fazer ao ar livre, incluindo subir em brinquedos de escalada e usar a cozinha de lama que haviam evitado anteriormente.

Elas se tornaram mais seguras de si e mais dispostas a explorar, com suas brincadeiras cada vez mais guiadas por seus próprios interesses em vez da direção dos adultos.

Isso importa porque assumir riscos não é apenas sobre subir mais alto ou correr mais rápido. É algo central para a forma como as crianças desenvolvem confiança, constroem habilidades de resolução de problemas e uma noção de quem são.

Quando as crianças nunca têm a chance de testar suas ideias, desafiar seus corpos ou cometer pequenos erros, elas perdem experiências que constroem resiliência e autonomia.

Muitos adultos querem que as crianças sejam corajosas, mas também querem que elas permaneçam seguras e limpas. Esses dois desejos frequentemente colidem.

Uma criança que hesita no topo de um escorregador pode não estar carente de coragem —ela pode simplesmente estar tentando evitar decepcionar um adulto que não gosta de sujeira ou que se preocupa com ferimentos.

Apoiar a tomada de riscos pelas crianças não significa se afastar completamente. Significa ser intencional quanto às mensagens que enviamos.

Apoiar a capacidade das crianças de tomar decisões tampouco significa entregar-lhes escolhas ilimitadas. No entanto, os adultos podem apoiar isso ao:

Reenquadrar o risco como aprendizado, não como perigo.

Fazer uma pausa antes de intervir, dando tempo para as crianças avaliarem as situações por si mesmas.

Permitir a sujeira, reconhecendo-a como parte do desenvolvimento sensorial e emocional.

Usar uma linguagem que sinalize confiança, como 'Estou aqui se você precisar de mim' em vez de 'Cuidado'.

Oferecer escolhas significativas, permitindo que as crianças tomem decisões e desenvolvam confiança em seu próprio julgamento.

Essas pequenas mudanças ajudam as crianças a se sentirem capazes em vez de cautelosas. Elas também contrapõem a crescente narrativa cultural de que a infância deve ser limpa, controlada e livre de riscos.

Este texto foi publicado no The Conversation.