Europa corre risco de ficar ainda mais para trás de concorrentes agrícolas

Crescimento da produção europeia ficou significativamente aquém do de seus competidores globais entre 2011 e 2023.

BATANEWS/BRASILAGRO


Os riscos relacionados ao clima já causam perdas médias anuais estimadas em 17,4 bilhões de euros aos produtores europeus — Foto Alberto Cotogni Pexels

A União Europeia e o Reino Unido correm o risco de ficar ainda mais para trás em relação aos seus concorrentes agrícolas, como os Estados Unidos, o Brasil, a China, o Canadá e a Índia, a menos que os agricultores tenham acesso mais rápido a inovações capazes de ajudar a lidar com as crescentes pressões climáticas e de produtividade.

Essas são as principais conclusões de um relatório encomendado pela Bayer, produtora de tecnologias para agronegócio como sementes e defensivos, que combina uma análise econômica da Oxford Economics, realizada com mais de 8 mil consumidores e entrevistas com agricultores em oito mercados europeus.

Os resultados identificaram que o crescimento da produção agrícola na Europa ficou significativamente aquém do de seus pares globais entre 2011 e 2023, em média apenas 0,1% ao ano. Isso se compara ao avanço médio de 1% nos EUA, à média global de 2% e ao crescimento de 2% a 3% na China, Canadá e Índia. O Brasil esteve entre as nações com maior crescimento anual médio, de 3,3% ao longo do período.

A situação em comparação aos concorrentes vem se agravando pelo aumento acentuado dos custos dos insumos e pelo impacto crescente das mudanças climáticas, de acordo com a pesquisa. Os riscos relacionados ao clima já causam perdas médias anuais estimadas em 17,4 bilhões de euros — o equivalente a 6,4% da produção agrícola da UE —, com variações significativas entre as regiões. Até 2050, projeta-se que essas perdas aumentem para um valor entre 24,8 bilhões de euros e 28,9 bilhões de euros.

Os agricultores europeus, segundo o estudo, competem com produtores de outras regiões que têm acesso a uma variedade maior de tecnologias de sementes, soluções de proteção de culturas e tecnologias digitais, ou que obtêm acesso a essas inovações mais rapidamente. De acordo com a Oxford Economics, um melhor acesso a tecnologias modernas pode ajudar os produtores a enfrentarem os significativos desafios climáticos e geopolíticos, fortalecendo a competitividade e a resiliência do setor.

Nesse sentido, os resultados da pesquisa destacam uma preocupação crescente entre os agricultores de que seu leque de opções esteja se tornando cada vez mais restrito. Enquanto mais de 1.000 ingredientes ativos foram autorizados na UE no início dos anos 2000, hoje restam apenas cerca de 420 aprovados. Os agricultores perderam o acesso a 92 ingredientes ativos nos últimos sete anos, enquanto apenas um novo ingrediente ativo sintético chegou ao mercado no mesmo período.

Já o Reino Unido aprovou quatro ingredientes ativos totalmente novos desde 2022, que permanecem não aprovados ou em processo de aprovação na UE, ao mesmo tempo em que mantém a aprovação de 15 ingredientes ativos para proteção de culturas cujas licenças da UE expiraram ou foram proibidas desde o Brexit. No entanto, o alinhamento dinâmico com o marco regulatório da UE, atualmente em discussão, poderia levar à revogação dessas aprovações, impactando potencialmente o rendimento das culturas e a renda dos agricultores se as transições não forem gerenciadas com cuidado.

Como consequência, a pesquisa aponta para a necessidade de um ambiente regulatório mais previsível e proporcional, que apoie a inovação e, simultaneamente, mantenha altos padrões de segurança e gestão responsável. Ela destaca os longos processos de aprovação, os crescentes encargos administrativos e os caminhos de adoção mais lentos como fatores que limitam o acesso a novas tecnologias em toda a Europa (Globo Rural, 16/10/26)

Clima extremo na Europa afeta vendas da New Holland

Queda na produtividade das lavouras derruba demanda; no Brasil, expectativa é de recuperação “muito lenta” nos negócios.

As incertezas que levam os produtores a pisarem no freio quando o assunto é investimentos devem continuar afetando o desempenho de gigantes do agro em diversas partes do globo. A New Holland, fabricante de máquinas agrícolas, e que pertence ao grupo CNH Industrial, avalia que pode levar ainda alguns anos para o setor de equipamentos agrícolas retomar o ritmo acelerado de vendas.

“Olhando para projeções atuais, e com base no que ouvimos de nossas equipes de mercado, parece que atingimos o fundo do poço [nas vendas]. Temos uma perspectiva de recuperação gradual em dois ou três anos”, afirmou, ao Valor, Pim Van Vynckt, gestor global de produto de colheita da New Holland.

Os números mais recentes da companhia traduzem as incertezas atuais. Em seu balanço financeiro do segundo trimestre, que engloba os resultados de outras marcas do grupo, como a Case, a CNH Industrial reportou receita com vendas de máquinas agrícolas de US$ 3,2 bilhões, montante estável na comparação anual. Na Europa, a venda de tratores caiu 11%, enquanto a de colheitadeiras recuou 1%.

Em entrevista concedida ao Valor durante visita à fábrica da New Holland em Zedelgem, na Bélgica, em setembro, Van Vynckt falou sobre o atual cenário para as vendas na Europa, onde a agricultura enfrenta inúmeros problemas. Entre eles uma onda de calor que derrubou a produtividade em diversos países do continente, como a França, maior mercado para as colheitadeiras da companhia.

“O principal desafio para nós está na previsão de baixa produtividade [na agricultura]. Além disso, há uma pressão contínua sobre os preços das commodities. Como o nosso negócio depende da lucratividade dos clientes, o resultado desses agricultores é determinado pela combinação entre produtividade e preços das commodities”, afirmou.

Diante do cenário de restrição hídrica vivida em diversas regiões europeias, o Ministério da Agricultura da França estimou a safra de milho no país em 7,3 milhões de toneladas. Se confirmada, essa seria a menor produção registrada desde 1980.

“Os preços das commodities estão em leve recuperação, mas, em alguns mercados como a França, não compensam as perdas sofridas pelos clientes. É preciso encontrar um equilíbrio para eles aqui na Europa, entre os custos de insumos e o retorno obtido com a venda de seus produtos”, acrescentou Van Vynckt.

Outro grande desafio para as vendas da New Holland na Europa é o recrudescimento da guerra entre Rússia e Ucrânia. O conflito, que se estende desde 2022, escalou como há muito não se via nos últimos dois meses, após ataques a portos no Mar Negro. De acordo com o executivo, como não há no horizonte perspectiva para o fim da guerra, é difícil fazer um prognóstico para as vendas de máquinas na região.

“Isso depende muito da capacidade de exportação de grãos, um dos maiores desafios atuais, já que a maioria dos portos está fechada. Eles [ucranianos] estão escoando a produção para a Europa, mas a guerra impõe limitações logísticas. De qualquer forma, a Ucrânia é um mercado muito forte para nós, ainda que não no mesmo patamar de cinco anos atrás”, acrescentou.

Cenário na América do Sul e Brasil

Em linha com a tendência global, o mercado de máquinas agrícolas também mostra fraqueza no Brasil. A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) projeta queda de 20% nas vendas para 2026.

A CNH não divulga os dados do Brasil, mas na América do Sul as vendas de tratores no segundo trimestre caíram 8%. Já as de colheitadeiras tiveram baixa de 29%. Para Pim Van Vynckt, há uma mudança no perfil de aquisição desses equipamentos.

“As nossas projeções de longo prazo mostram uma recuperação muito lenta das vendas no Brasil, tanto para tratores quanto para colheitadeiras. Mas algo importante que observamos no Brasil e em todo o mundo, é essa rápida transição na hora da compra de máquinas, visando maior eficiência. Em vez de operar com 20 colheitadeiras, você reduz a frota para 10 ou 15 máquinas, assim, seu custo operacional acaba sendo menor”, disse.

Sean Lennon, líder de produto da New Holland para Europa, Oriente Médio e África, vê uma “situação difícil” para o mercado de colheitadeiras nas últimas duas temporadas. Durante a visita à fábrica, ele disse que o desafio atual para as vendas está no segmento de colheitadeiras de menor porte, com potência de até 313 cavalos. “É provável que os clientes estejam adiando a renovação até que a lucratividade melhore”, observou.

Por outro lado, Lennon vê horizonte mais favorável para as colheitadeiras da linha intermediária da New Holland, com potência acima de 500 cavalos. “Trata-se de um segmento em que os clientes seguem um ciclo de renovação de frota. Eles substituem os equipamentos a cada três, quatro ou cinco anos, por isso, considero essa área bastante estável”, afirmou (Globo Rural, 16/10/26)