4 pesquisas avançadas que podem revolucionar o tratamento da Aids, e até levar à cura da doença

Estudos, inclusive no Brasil, tentam burlar mecanismo de ação do HIV, enquanto novas terapias prometem simplificar a prevenção e o controle da infecção

BATANEWS/VEJA


Pesquisadores anunciaram casos de remissão do HIV durante o congresso AIDS 2026 (Getty Images/Reprodução)

Durante décadas, eliminar o HIV do organismo pareceu um objetivo quase inalcançável. Embora os medicamentos tenham transformado a infecção em uma condição controlável, o vírus ainda consegue permanecer escondido em células do sistema imunológico, pronto para voltar a se multiplicar se o tratamento for interrompido.

Nos últimos anos, porém, pesquisadores têm investigado caminhos para superar essa barreira, enquanto novas terapias prometem simplificar a prevenção e o controle da infecção, que ainda afeta cerca de 1,7 milhão de pessoas no Brasil, segundo o Relatório Global sobre AIDS 2026.

Quatro frentes ajudam a entender o que está em jogo: a investigação dos mecanismos que permitiram a remissão após transplantes, uma estratégia experimental desenvolvida na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os medicamentos injetáveis de longa ação e os estudos que avaliam como essas novas opções podem ampliar o acesso à prevenção.

1. A lição dos pacientes que se livraram do HIV

Os casos de remissão prolongada após transplantes de células-tronco representam uma das pistas mais importantes para a pesquisa da cura. Além de Timothy Ray Brown, o primeiro ser humano a se libertar da infecção na história, outros pacientes com HIV e cânceres hematológicos graves conseguiram permanecer sem sinais detectáveis do vírus depois de procedimentos semelhantes.

O princípio é substituir células do sistema imunológico por outras que apresentem resistência à infecção. Em alguns casos, os doadores possuem uma alteração no gene CCR5, que interfere na produção de uma proteína utilizada pelo HIV para entrar em determinadas células de defesa.

A estratégia, porém, está longe de ser uma solução aplicável a todas as pessoas que vivem com o vírus. O transplante pode provocar complicações graves, exige acompanhamento especializado e costuma ser considerado apenas quando há outra doença que justifique os riscos do procedimento.

A contribuição desses casos está em mostrar que o organismo pode, sob condições específicas, permanecer livre da infecção sem depender de medicamentos antirretrovirais. Para os cientistas, a pergunta central é como alcançar um resultado semelhante por meio de intervenções mais seguras.

Ou seja, ao invés de substituir todo o sistema hematológico, pesquisadores investigam maneiras de eliminar as células infectadas, bloquear as portas de entrada do vírus e fortalecer as defesas capazes de reconhecer o HIV.

2. A pesquisa da Unifesp que busca controlar o vírus sem antirretrovirais

É nesse caminho que se concentra uma das pesquisas brasileiras mais promissoras. Uma equipe liderada pelo infectologista Ricardo Sobhie Diaz, da Unifesp, investiga uma estratégia que procura reduzir os reservatórios virais e estimular o sistema imunológico a reconhecer o HIV que permanece escondido no organismo.

Mesmo quando o tratamento convencional mantém a carga viral indetectável no sangue, o vírus pode continuar presente em células e tecidos. Esses reservatórios são um dos principais obstáculos à cura, já que, ao interromper os antirretrovirais, o HIV pode voltar a se multiplicar.

A pesquisa brasileira combina diferentes intervenções para tentar superar esse problema. A proposta inclui intensificar o controle da infecção, utilizar medicamentos capazes de reativar o vírus latente e explorar mecanismos que ajudem as defesas do organismo a identificar as células infectadas.

Em um ensaio clínico inicial, cinco voluntários receberam uma abordagem experimental. Dois deles chegaram a apresentar controle espontâneo do vírus por um período após a interrupção dos antirretrovirais, mas o acompanhamento mostrou a necessidade de cautela: o HIV pode voltar a se multiplicar mesmo depois de meses sem ser detectado.

Um dos casos mais acompanhados foi o de um participante que permaneceu com a carga viral indetectável por 78 semanas, cerca de um ano e meio, depois de interromper o tratamento no contexto do estudo. O episódio despertou interesse internacional por indicar que uma remissão prolongada pode ser alcançada sem transplante de medula.

Mais tarde, porém, o vírus voltou a ser detectado, reforçando que o resultado não correspondeu a uma cura definitiva.

A descoberta não encerra a busca pela cura, mas oferece informações importantes sobre os mecanismos que podem permitir o controle do HIV sem medicação contínua. “Agora, estamos analisando o perfil genético desse paciente para entender o que pode ter levado a essa resposta excepcional”, afirmou Diaz a VEJA, em reportagem publicada em agosto.

3. Injeções que podem proteger contra o HIV por meses

Enquanto a cura permanece no horizonte da pesquisa, os medicamentos de longa ação já representam uma mudança importante na prevenção da infecção. Diferentemente dos comprimidos diários, algumas dessas opções permitem intervalos de semanas ou meses entre as doses.

Um dos destaques é o lenacapavir, antiviral que pode ser administrado por injeção subcutânea a cada seis meses para prevenir a infecção pelo HIV. O medicamento atua sobre a cápside do vírus, estrutura que protege seu material genético e participa de diferentes etapas do ciclo de replicação.

Outro avanço é o cabotegravir, aplicado por via intramuscular em intervalos regulares, geralmente de dois meses na profilaxia pré-exposição (PrEP).

A vantagem vai além da praticidade. A prevenção depende de que as pessoas consigam manter o esquema recomendado, algo que pode ser dificultado pela rotina, pelo estigma ou pela falta de acesso aos serviços de saúde. As injeções de longa ação oferecem uma alternativa para quem enfrenta dificuldades com os comprimidos diários.

Durante a Conferência Internacional sobre Aids, realizada em agosto no Rio de Janeiro, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou a intenção de encaminhar a proposta de incorporação do cabotegravir ao Sistema Único de Saúde (SUS). O Ministério da Saúde também informou que negociava com a farmacêutica Gilead, fabricante do lenacapavir, questões relacionadas à redução de preço e à possível transferência de tecnologia.

O preço máximo do lenacapavir ao consumidor será de R$ 20,9 mil por injeção, segundo dados do sistema oficial da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). A injeção é aplicada a cada seis meses.

4. Pesquisa brasileira avalia se a prevenção injetável pode alcançar mais pessoas

A eficácia de um medicamento não depende apenas de sua ação biológica. Para produzir impacto na saúde pública, ele também precisa chegar a quem necessita e ser utilizado corretamente. É por isso que pesquisadores brasileiros também investigam como a prevenção de longa ação funciona na prática.

Um estudo de implementação liderado pela médica Beatriz Grinsztejn, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), acompanhou cerca de 1.500 participantes que puderam escolher entre a PrEP oral e o cabotegravir injetável. A maioria optou pela injeção: 83% dos voluntários preferiram essa modalidade. Ao longo de dois anos, 90% das aplicações foram realizadas dentro do intervalo recomendado.

Os resultados indicam que a alternativa injetável pode favorecer a adesão à prevenção, embora sua implementação em larga escala dependa de fatores como custo, estrutura dos serviços e disponibilidade do medicamento.

A pesquisa também coloca em evidência um problema histórico: o acesso desigual à prevenção. Pessoas em situação de maior vulnerabilidade social frequentemente enfrentam mais obstáculos para obter informações, realizar testes e manter o acompanhamento médico.

A expectativa é que a oferta de diferentes modalidades permita adaptar a prevenção às necessidades de cada indivíduo. “Nossa expectativa é que o cabotegravir alcance principalmente as populações mais vulneráveis”, afirmou Grinsztejn a VEJA.